Os relatos menos falados sobre abusos entre alunos

O escândalo eclipsou outra rotina trágica. Declarações de crianças e jovens da Casa Pia revelam o que lá se passava entre eles e até com alguns educadores. L. teve sexo aos 11, depois de um jogo de "verdade ou consequência". N. C. foi obrigado a fazer sexo oral aos oito, em troca de um chupa. Aos nove, D. S. foi violado pelo amigo no duche.

Apesar de ser aluno interno da Casa Pia, H. esperava, em 2003, regressar à casa dos pais. Porque, disse o então aluno de oito anos à Polícia Judiciária (PJ), a casa já tinha "condições" para albergar a família: os pais e mais sete irmãos. "Até tem dois computadores", acrescentou o aluno no depoimento que prestou à PJ. O "Bibi" nunca lhe fez mal, mas disse saber que outras pessoas gostavam de ser "enrabadas", como T., um seu colega. H. foi um dos alunos da Casa Pia que, entre 2002 e 2003, prestaram declarações na Judiciária, revelando o lado oculto da instituição eclipsado pelo mediático escândalo de pedofilia: as violações entre alunos.

Com 11 anos, L. era aluna interna do colégio D. Maria Pia. Na altura, disse "compreender bem" o que o "Bibi" "andou a fazer com os rapazes". Questionada, respondeu: "Ele despia-os, deitava-os numa cama e fazia com eles 'truca-truca'". A expressão e as perguntas da inspetora Rita Santos fizeram a L. recordar-se de um episódio, em 2002, durante uma colónia de férias. À noite, no quarto, L. e mais três amigos, a C., nove anos, o P., dez anos e o I., 12 anos, decidiram jogar ao sempre arriscado "verdade ou consequência". O P. decidiu, segundo o relato da L, começar a "fazer perguntas más". O I. aproveitou, aumentando a intensidade: "Ou a C. dava um beijo na boca do P. ou dava um beijo no pé da L. ou fazia 'aquilo' com o I.." Com receio dos "carolos casapianos" (pancadas desferidas com a mão na nuca) e porque gostava do I., a C. acabaria por "fazer aquilo", tal como a própria admitiu à Judiciária. Também ouvido em declarações, P. confirmou o que se passou nessa colónia de férias, quando "o I. pôs a pila dentro do rabo da C.".

Dos depoimentos de alguns jovens, que constam do processo, resulta ainda a conclusão de que os abusos sexuais entre alunos seriam, por um lado, uma espécie de iniciação dos mais novos e, por outro, uma forma de imposição de poder por parte dos internos mais velhos, os quais jogavam com a vulnerabilidade psicológica de alguns mais jovens.

N. C., uma das vítimas do processo principal, contou a sua experiência: aos oito anos, à noite, no quarto, o seu colega de quarto, B., 14 anos, "chamou-o e pediu-lhe que lhe fizesse sexo oral". N. C., ainda de acordo com o relato à PJ, recusou, mas foi obrigado a concretizar, "recebendo um chupa-chupa como gratificação", lê-se no auto de declarações.

O medo da noite nas camaratas

Já com nove anos, N. C., certa noite, foi acordado de madrugada pelo colega P. L., que teria 15 ou 16 anos, obrigando-o a masturbá-lo. O jovem tornou-se uma presa fácil para os mais velhos. Com dez anos, e quando estava a tomar um duche, H., de 13 anos, aproximou-se dele e obrigou-o a ter relações sexuais na "forma passiva". Durante mais dois anos, N. C. foi vítima de H., que "gratificava" o seu irmão casapiano mais novo com rebuçados. N. C. acabaria, posteriormente, por ser sexualmente violentado por Carlos Silvino.

Com 12 anos, S. também passou pelas instalações da Judiciária, na Rua Gomes Freire, em Lisboa, em 2003. E decidiu "revelar o que nunca tinha contado a ninguém". Dois colegas do seu lar, R. e A., ambos com 13 anos, abusaram sexualmente de si. "Cada um deles já foi ter consigo ao quarto e, umas vezes de dia, outras de noite" para o violar. "Umas três vezes cada um", acrescentou. Além dos colegas, S. também foi uma das vítimas de Carlos Silvino.

A "normalidade" dos atos sexuais entre rapazes está bem patente no depoimento de D., que tinha 14 anos quando prestou declarações na PJ. D. contou aos inspetores Dias André e Fernando Batista - já o processo da Casa Pia tinha saltado para as páginas do jornais - que o seu colega J. "convenceu o T. a fazer-lhe um b...". Aliás, T. acabaria por ter de fazer o mesmo aos dois. D. disse que T. contou aos educadores do lar. Qual foi a medida disciplinar? Uma repreensão ao D..

O que passou pela cabeça dos dois alunos para fazerem tal pedido? "O T. é conhecido no lar por gostar de fazer b... ao pessoal. Sabíamos que se lhe pedíssemos ele deixava. Pedimos-lhe porque sabe bem", explicou D..

Abandonado pelos pais na maternidade, D. S. esteve até aos nove anos ao cuidado da sua avó. Foi então que o Tribunal de Família e Menores, por solicitação da sua guardiã, que D. S. foi colocado na Casa Pia, situação que ainda se mantinha em 2003. D. S. apenas saía da instituição para passar, quinzenalmente, o fim de semana com a sua avó.

Um ano após ter entrado para a Casa Pia, D. S. já se tinha habituado à rotina. Um dia, foi para o duche com o seu colega e amigo J. D.. "A dada altura, o colega agarrou-o, virou-o de costas para si e obrigou-o a dobrar-se." D. S. foi violado pela primeira vez. Durante vários dias, guardou para si o sucedido, não partilhando com os educadores ou com a avó o que aconteceu com um dos seus amigos. Porém, a idosa foi-se apercebendo de que algo se passava com o neto. Depois de algumas insistências, conseguiu que D. S. lhe contasse. A avó contactou os responsáveis pelo lar, relatando-lhes o sucedido. Então, D. S. foi ao hospital fazer análises. E afirmou saber que "os responsáveis do lar conversaram com J. D.", mas não soube dizer se lhe foi aplicado algum castigo. Provavelmente, não. Porque quando o escândalo da Casa Pia rebentou, perguntaram-lhe se pretendia falar com a polícia.

Aluna de 1980 recorda abuso no lar feminino

"Chamo-me Fernanda Teresa. Entrei para a Casa Pia de Lisboa com dez ou 11 anos [...] Quero chorar, já não consigo, a minha vida parou. Sou incapaz de me controlar, de cuidar dos meus filhos, de viver o meu dia a dia."

O texto foi entregue, em 2003, ao DIAP de Lisboa por aquela ex-aluna da Casa Pia, que esteve ligada ao "caso" de 1980, envolvendo uma fuga de alunos da instituição e que foram encontrado numa casa, em Cascais, do embaixador Jorge Ritto.

Mas Teresa também foi vítima de abusos sexuais durante os dois primeiros anos em que esteve na Casa Pia. Primeiro, segundo relatou, por uma colega, uma aluna mais velha, depois por uma educadora, que já tinha batido no seu irmão. "Tínhamos o hábito de dormir da parte da tarde, e tinha tanto medo dela. Mandou-me ir para a cama com ela e obrigou-me a meter a minha perna no meio das pernas dela ao pé do sexo. Só parava quando estivesse satisfeita", escreveu Fernanda Teresa.

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