Namora e Granja denunciam impunidade de políticos

Ex-casapianos, advogados, ex-PCP. O processo afastou-os. Namora diz que há muitos pedófilos por aí, "gente associada ao fulano assassinado em Nova Iorque". Granja é abordado por pessoas que só lhe querem perguntar: "O Carlos Cruz é culpado?"

Heróis para o povo, "irmãos mais velhos" para as vítimas de abuso, Pedro Namora e Adelino Granja foram dois dos rostos da denúncia dos crimes na Casa Pia. Sofreram a pressão mediática do início do processo, da qual se refugiaram - talvez impulsionados pela ideologia comunista que tinham em comum - numas férias que passaram juntos durante uma semana em terras de El Comandante Fidel Castro (Cuba). Durante o retiro forçado, Carlos Cruz foi preso e, ao chegarem à Portela, estes dois "gansos" (ex-casapianos) foram recebidos como heróis ou jogadores de futebol após uma grande conquista.

Na altura, Namora e Granja desdobraram-se em contactos com ex-alunos e não deixaram que o assunto morresse na comunicação social, onde se assumiram como os defensores das vítimas. Passados dez anos, um dos resultados do processo foi a zanga entre ambos, que cortaram relações em setembro de 2003, quando Granja escreveu num jornal que havia "vítimas que não estavam a dizer a verdade toda".

Apesar dos caminhos diferentes que seguiram, ambos concordam numa coisa: "Há muitos pedófilos e abusadores que não foram envolvidos e que continuam em liberdade." Diferem, no entanto, na forma como o dizem. Pedro Namora é mais corrosivo e preciso: "Paulo Pedroso processou-me e perdeu. Duplamente. Mas o que também é grave são os nomes que os miúdos referiram mas que a investigação não pegou porque os crimes estavam prescritos."

Pedro Namora opta, no entanto, por não referir os nomes dos pedófilos em liberdade, uma vez que "eles não podem ser processados mas podem processar-me a mim. E eu não sou masoquista. Posso dizer-lhe que é gente, por exemplo, associada ao fulano que foi assassinado em Nova Iorque e que continuam por aí numa vida descansada. Nós sabemos perfeitamente que continuam nas mesmas práticas, mas não os conseguimos apanhar."

Namora diz que para dizer "tudo o que sabe" necessitaria de pedir "asilo político" noutro país. Porém não se coíbe de afirmar que tem "a certeza absoluta de que houve crianças vítimas de abusos em instalações de órgãos de soberania. Por titulares de órgãos de soberania, o que é uma vergonha nacional."

Apesar de o fazer num estilo mais recatado, Adelino Granja destaca igualmente como um dos aspetos negativos do processo o facto de "nenhum político, que eu tacitamente conhecia por abusos durante três décadas na Casa Pia, ter sido condenado."

Os dois antigos alunos da Casa Pia concordam ainda num outro ponto: que dez anos é demasiado tempo para um processo como este e que isso teve consequências "muito negativas" para as vítimas.

O afastamento entre os 'gansos'

Poucos meses após rebentar a polémica, Adelino Granja acabou por se "afastar da investigação criminal", enquanto Pedro Namora andou "pelo País a recolher depoimentos de ex-alunos e a entregá-los na Judiciária". A relação já estava desgastada quando Granja deu a machadada final ao, publicamente, não apontar como alvo Paulo Pedroso e Carlos Cruz, além de ter dito que nem sempre as vítimas falavam verdade e que alguns "miúdos" estavam a "perturbar o processo".

Granja passou a dedicar-se exclusivamente ao processo inicial que tinha dado origem ao megaprocesso Casa Pia e a sua relação com o caso passou a ser estritamente profissional. "O que me interessa a mim, desde setembro de 2003, é o primeiro processo, uma vez que defendo o 'Joel', quis afastar-me de tudo o resto", explica o ainda advogado da primeira vítima a denunciar abusos na Casa Pia (Fábio Cruz, mais conhecido por "Joel").

O envolvimento de Pedro Namora foi muito maior e teve consequências até ao nível da sua saúde. "Não se está impunemente quando passamos o dia a falar com miúdos que foram selvaticamente 'abusados'. A determinada altura dei por mim a chegar a casa a chorar, depois de passar o dia a recolher testemunhos. Um horror. Tive de ter acompanhamento psicológico", conta.

Ameaças e problemas

Após ter-se tornado um dos rostos das denúncias, Pedro Namora - que "Bibi", em tempos mas sem êxito, também tentou abusar - garante ter sido alvo de uma "perseguição brutal". A partir do momento em que começou a aparecer na comunicação social, sofreu "ameaças de toda a índole e tentativas de aliciamento [para que mudasse a versão dos factos relativamente a outros arguidos]".

Por outro lado, Granja diz que apenas foi ameaçado uma vez "por uma testemunha do processo" e que nunca foi aliciado para mudar de lado da barricada. Critica ainda Pedro Namora por se ter deslocado a casa de Carlos Cruz no início do processo.

Granja diz que o facto de terem vindo nomes a público "de pessoas de quem tinha grande consideração, como o presidente Jorge Sampaio", e de "só aparecerem nomes do PS e não do PSD" foi outro dos motivos pelo qual se afastou da investigação e... de Pedro Namora. Hoje, garante que a sua postura sempre foi a de defender que "até ao trânsito em julgado todos são inocentes". Mas não deixou de cultivar as suas inimizades e foi mesmo processado pela ex-secretária de Estado Teresa Costa Macedo por a ter apelidado de "mãe da pedofilia na Casa Pia".

O que a década mudou

Dez anos depois, Pedro Namora é o primeiro a assumir que a sua vida "mudou radicalmente" com o processo Casa Pia. Para "não ser acusado de oportunismo", Namora suspendeu a sua atividade de advogado durante quatro anos. A carreira de advocacia acabou por ser deixada para trás. Diz que o facto de ter passado o caso Casa Pia à jornalista Felícia Cabrita lhe valeu mais tarde "o despedimento da Câmara de Odivelas por parte do Partido Socialista". Mas é também num município que Pedro Namora trabalha atualmente.

Já Adelino Granja optou por outro tipo de estratégia. Conta que a "profissão liberal" que tinha, também como advogado, o obrigou a nunca deixar a profissão para garantir que tinha meios de subsistência. Admite que a mediatização do processo Casa Pia contribuiu "para que tivesse mais clientes e mais sucesso profissional". No entanto, não considera que se tenha aproveitado do processo, pois teve muitos "prejuízos materiais" quando se deslocava todos os dias de Alcobaça (a sua localidade) para Lisboa por causa do processo Casa Pia.

Por defender "Joel", ao longo de seis anos e mais de 200 sessões de julgamento, admite ter recebido pouco mais de quatro mil euros de apoio judiciário do Estado - um valor muito aquém de um trabalho jurídico com este nível de complexidade.

O processo Casa Pia moldou-lhe a carreira, pois nos últimos dez anos tem representado vários casos com crianças. Embora só lhe tenha passado pelas mãos "um ou dois casos de pedofilia", tem defendido vários casos relacionados com as relações parentais.

Além disso, tem-se visto envolvido em casos relacionados com diferentes minorias, tendo, por exemplo, "uma grande fatia de clientes de etnia cigana, porque sabem que não lhes levo muito dinheiro e porque conhecem a minha posição quanto às questões sociais".

A advocacia é a "única fonte de rendimento" de Granja, que, desde 1997, ocupa o cargo de deputado municipal da autarquia de Alcobaça. Primeiro pelo Partido Comunista (que, tal como Namora, viria a abandonar) e, desde 2004, com as cores do Bloco de Esquerda, do qual também faz parte das estruturas diretivas locais.

O "apoio do povo"

Por muitas voltas que se dê na opinião pública, há sempre uma bipolarização entre os que defendem as vítimas e os que estão do lado dos arguidos. Namora manteve-se sempre, incondicionalmente, do lado das vítimas, defendendo a "honestidade" das mesmas. Granja, por sua vez, questionou a "veracidade" dos depoimentos de algumas delas. Porém Granja é taxativo ao dizer: "Não mudei de lado."

É desse lado - das vítimas - que as pessoas na rua continuam a olhar para estes dois rostos do processo Casa Pia. Apesar das ameaças de que foi alvo, Pedro Namora sempre andou sozinho na rua, onde garante que sempre sentiu "o apoio do povo". Ainda hoje há pessoas "vítimas de abusos sexuais que vêm ter comigo e me contam os abusos porque passaram". Além disso, Namora mantém contacto com algumas das vítimas do processo, que continuam a vê-lo como "um irmão mais velho".

Atualmente, Granja também continua a ser muito abordado na rua como "um defensor das vítimas". Lamenta ter perdido alguma "privacidade", mas sente-se bem com o apoio popular. Diz que as pessoas nem fazem ideia de quem é o "Joel" e na esmagadora maioria das vezes abordam-no para pôr uma única questão: "O Carlos Cruz é culpado?"

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