Na prisão da Carregueira é visitado por amigos e casapianos

Aos quatro anos e meio, foi violado pela primeira vez na instituição. Carlos Silvino - o "predador", como lhe chamaram os juízes - acaba por ser um produto da Casa Pia. Nos últimos anos, não esteve só. Tem amigos que ainda o visitam na prisão em Sintra.

Quando, em 2002, Carlos Silvino da Silva foi filmado e entrevistado pela SIC, enquanto passeava no interior do Estádio Pina Manique, fez uma declaração verdadeira: "Eu sou um funcionário exemplar." Indesmentível, face ao trajeto do antigo jardineiro/ /motorista da Casa Pia de Lisboa no interior da instituição: começou em 1983 com uma avaliação de "Bom", subindo até "Muito Bom" nos anos 90. Hoje, preso no Estabelecimento Prisional da Carregueira, em Sintra, o "Bibi" não é um homem só, continua a receber visitas de amigos, ex-casapianos, que ao longo dos anos o apoiaram.

Carlos Silvino, 56 anos, o "Bibi", o "comissário" ou, a partir de 2002, o "monstro", é um dos maiores violadores de crianças da história de Portugal. Condenado a 15 anos de cadeia, por centenas de crimes de abuso sexual menores e lenocínio (auxílio à prostituição), o antigo jardineiro/motorista é um produto da sua circunstância: a própria instituição, que permitiu que, aos quatro anos, Silvino começasse a ser violado. Foi o próprio quem descreveu a sua "iniciação" em 2006, durante a quinta sessão do julgamento do processo.

Foi um relato pausado, que gelou a sala de audiência: "Entrei na Casa Pia com quatro anos. Dos quatro anos e meio aos 13 fui violado todos os dias. Por dois educadores, dois professores e um padre que já morreu. Era o capelão." Continuando: "Fui 'abusado' todos os dias à noite. Na camarata, tapavam-me os olhos, amarravam-me à cama de ferro e atavam-me uma corda de sisal ao pénis. Se berrasse ou me debatesse, puxavam a corda. Ainda hoje tenho as marcas."

Aos 14 anos, o aluno Carlos Silvino pensou pôr um ponto final no sofrimento. Porque fugir não era solução. "Quando fugia a polícia apanhava-me, eu regressava e levava porrada dos encarregados de disciplina e dos mais velhos", contou. O suicídio foi então uma opção. Mas um responsável da Casa Pia impediu que se atirasse para a linha do comboio.

O tempo foi passando e Carlos Silvino, já perfeitamente "aculturado" à Casa Pia de Lisboa, assume, em 1975, as funções de vigilante, passando, um ano depois, para empregado auxiliar. O serviço militar afastou-o durante cerca de quatro anos da Casa Pia (de janeiro de 1978 a janeiro de 1980). No regresso à instituição, ingressa no quadro como jardineiro de 3.ª classe, começando a colecionar processos disciplinares e, paradoxalmente, progressões na carreira.

O primeiro inquérito disciplinar a "Bibi" foi registado em 1980, depois de uma participação de Américo Maria Henriques, o "Mestre Américo", denunciando suspeitas de abuso sexual de menores. O processo acabou caducado, sendo que em março daquele ano o então provedor, José Peixeiro Simões, enviou um ofício ao instrutor, transmitindo-lhe a sua "opinião" sobre os factos que deram origem à participação. Para Peixeiro Simões, o caso não era mais do que "uma orquestração preparada no sentido de criar desestabilização institucional, tal como acontece noutros organismos do Estado".

Já no final do ano, o mesmo provedor tomou duas decisões aparentemente contraditórias. Por um lado, em novembro, proferia um despacho que proibia Carlos Silvino de "entrar nas secções" e de ter "qualquer contacto com os alunos", até ao esclarecimentos dos factos relativos ao processo disciplinar, já caducado é um facto, mas que estava a ser investigado pela Polícia Judiciária. Por outro, em dezembro de 1981, Peixeiro Simões assina a entrada de "Bibi" para o quadro de funcionários da Casa Pia.

Como jardineiro e, posteriormente, motorista, Carlos Silvino foi colecionando classificações de "Bom" e "Muito Bom" ao mesmo tempo que a sua folha de serviço também acumulava processos disciplinares, fosse por suspeitas de contactos menos próprios com alunos ou pelo relacionamento - aqui e ali agressivo - que tinha com os colegas funcionários. Basta recordar que, em 1984, o novo provedor, Luís Rebelo, propôs a sua subida para jardineiro de 2.ª classe, apesar de Silvino ter violado uma das penas que lhe tinha sido imposta dois anos antes: proibição de contactos com alunos do Colégio Pina Manique.

O à-vontade com que se movia no interior da Casa Pia contrasta com o ar tímido e acossado com que enfrentou dez anos de processo. Nos depoimentos que foi prestando, Carlos Silvino começou por negar qualquer envolvimento no caso, assim como desconhecer os restantes arguidos, à exceção, por razões óbvias, de Manuel Abrantes. Porém, esta versão alterou-se ainda durante a fase de investigação, foi confirmada na instrução e repisada no julgamento. "Somos todos culpados", declarou em audiência.

Depois de condenado, surgiu publicamente a clamar inocência para si e para os restantes arguidos. Afinal, já não tinha transportado jovens para Elvas e algumas casas em Lisboa para aí serem agredidos sexualmente. Só que "deixou cair" que conheceu, há 20 anos, Carlos Cruz através de Carlos Mota. Afinal, quando é que o "comissário" falou a verdade?

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG