Livros, música e reclusão: a vida discreta do ex-embaixador

O cabelo grisalho tornou-se mais claro e o rosto ganhou rugas e marcas da idade. Mas, à parte disso, Jorge Ritto continua igual: discreto. Tão circunspeto, solitário e avesso à exposição mediática como há dez anos, quando foi detido por abuso sexual de menores.

A vida do antigo embaixador, de 77 anos, é recatada. Sempre foi. Como em 2003, ainda vive em Cascais e guia o mesmo Fiat Punto cinzento que passa despercebido entre os Porsche, Audi e BMW da vizinhança. Ali, na sossegada Avenida Infante D. Henrique, rodeada de moradias e espaços verdes, não há quem não saiba qual o apartamento onde mora Jorge Ritto. Os vizinhos falam do "senhor culto, educado", que "nunca alterou rotinas" desde que foi envolvido no maior escândalo sexual do Portugal moderno.

E quem o conhece confirma. "Tem mantido uma vida normal, mas com mais recato. Almoça fora, vai ao supermercado, compra o jornal. Dá-se com os amigos íntimos, mas evita expor-se muito", descreve, ao DN, José Duarte de Jesus, antigo embaixador, colega de Ritto desde o primeiro ano de liceu (entraram no mesmo dia na carreira diplomática).

Ritto cresceu solitário, "criado pelos tios e por uma avó" (a mãe morreu cedo, enquanto o pai emigrou para as "colónias"). Sem família próxima, só mantém ligação com uns primos, que moram em Leiria, e com a tia, que vive no Porto - "visita-os com frequência", diz Duarte de Jesus. O resto do tempo do ex-embaixador é passado entre o convívio com os velhos amigos ("não aceita conhecimentos novos", para não se expor) e duas paixões de sempre: literatura e a música clássica (é frequente ir aos concertos da Gulbenkian). Admirador dos seus conhecimentos sobre o governo colaboracionista de Vichy (da França na II Guerra Mundial), Duarte de Jesus já tentou convencê-lo a publicar investigação sobre a matéria. Ritto rejeitou: "Tem mantido a reserva de aparecer em público."

E é essa reserva que o norteia desde o eclodir do processo Casa Pia. Após as primeiras acusações de abusos sobre os casapianos, logo surgiram relatos sobre as crianças que recebia em casa e sobre atos sexuais com jovens ao longo de várias paragens da sua carreira diplomática de 40 anos. A tudo isso, Ritto só reagiu em comunicado e numa curta entrevista à RTP, em 2003 (antes de ser colocado em prisão preventiva), falando de "fantasias" e de uma "tentativa de assassinato social". E em tribunal manteve o silêncio - só falando nas alegações finais, para pedir a absolvição.

A sua defesa argumentou que a homossexualidade de Ritto e preferência por "homens jovens" não lhe valeria uma condenação. Mas, agora, Ritto está perto de voltar à cadeia. Apesar da "despesa e desgaste imensos" que o processo trouxe, Duarte de Jesus diz que o embaixador não é homem "de se vitimizar": "Ter-se habituado a viver sozinho deu-lhe independência e resistência maiores."

Quando esteve em prisão preventiva, Ritto surpreendeu os visitantes habituais [Duarte de Jesus, outros diplomatas e o falecido antigo diretor da Cinemateca João Bénard da Costa] com a leveza com que encarava a reclusão: "Lá tinha grandes discussões sobre literatura francesa, discutia Proust com Paulo Pedroso." Em breve, os livros e as composições de Beethoven e Mozart voltarã o a ser a sua maior companhia.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG