"Houve funcionários que boicotaram a investigação"

Ex-provedora da Casa Pia de Lisboa mantém a opinião de que existia uma rede de pedofilia e que os condenados são apenas um dos braços do polvo. Garante que também houve raparigas vítimas de abusos sexuais, mas os casos não foram investigados porque elas não avançaram com queixas. Acusa alguns dirigentes do PS que, segundo diz, tudo fizeram para que a verdade não fosse apurada. Admite que dentro da Igreja existem "alguns senhores" que estejam zangados consigo pelo facto de a sua associação ter denunciado casos de abusos envolvendo a Igreja.

De que maneira o processo Casa Pia mudou a sua vida?

De muitas maneiras. Às vezes perguntam-me: se soubesse o que era aquilo teria aceitado o convite de Bagão Félix. Estou convencida de que voltaria a aceitar. Aprendi coisas que nunca esquecerei nem que viva 100 anos.

Como por exemplo?

Este processo mostrou-me uma parte negra dos humanos que não conhecia. Quando comecei a mergulhar na problemática da Casa Pia e percebi que aqueles horrores vinham desde a sua fundação, pensei: estou mergulhada nos 120 dias de Sodoma [filme inspirado no livro de Marquês de Sade que conta a história de um grupo de jovens que sofre uma série de torturas por quatro fascistas, em 1944, na Itália de Mussolini]. Também aprendi a olhar para os olhos de um pré-adolescente e perceber que ele até pode estar a mentir mas que eu não posso de deixar de me envolver.

Houve muitos miúdos que a tentaram enganar?

Alguns tentaram e eu aprendi a desmontar essas tentativas.

Há também quem duvide das suas palavras quando diz que não fazia ideia do que se passava na Casa Pia...

Eu sei que havia, ou melhor que há muita gente que me detesta... Sei também que as pessoas perguntavam: 'Então ela já tinha lá trabalhado e não viu nada?' E 10 anos depois continuo a dizer: não, eu não sabia de nada; não, eu não vi nada; não, no meu colégio, Santa Catarina, não se passou nada.

Está assim tão certa?

Estou. Depois do escândalo, promovemos uma reunião com alunos, ex-alunos, educadores, funcionários, para saber o que se tinha passado por lá, e eles disseram que nada se passou. E a explicação é lógica, era um colégio pequenino, tinha 60 alunos, grupos de irmãos, misto, e só tinha uma porta. O Carlos Silvino não ia lá porque os irmãos jamais deixariam, eles protegem-se.

Disse recentemente que os abusos na Casa Pia não terminaram. O que sabe concretamente?

Disse que isso acontecia na Casa Pia e em outras instituições. Mas agora não sei o que se passa, afastei-me totalmente.

Mas receia que tal ainda aconteça?

Sim, em qualquer instituição. Não duvido de que quem está à frente da instituição não faça o melhor para que não aconteça, mas aquilo é um internato, o design organizativo de uma instituição com aquelas características é propício a problemas deste tipo.

Refere-se, sobretudo, a abusos entre miúdos?

As duas situações. Os jogos sexuais entre adolescentes que se passam em todos os sítios e à existência de redes de prostituição infantil, lideradas por adultos que pertenciam à Casa Pia, o que aconteceu neste processo.

Neste processo apenas se fala de rapazes vítimas de abusos. Não existiu nada com raparigas?

Claro que sim, mas não apareceram, algumas refizeram a vida. Apareceu a Fernanda Teresa, mas depois não quis. Era casada, tinha dois filhos e sabia que o caso tinha prescrito, e que dessa forma não iria expor a sua vida. A polícia não chegou lá, mas sabemos que havia casos de meninas abusadas.

As raparigas têm menos coragem de denunciar situações de abusos?

Houve mulheres, e falo em quatro ou cinco casos, que vieram falar comigo ao meu gabinete e contaram-me por quem tinham sido abusadas. Mas são mulheres agora, que nada contaram à família. Com os seus testemunhos, elas quiseram dizer que acreditássemos nos miúdos.

Usou várias vezes a palavra rede, mas o caso chega ao final com um pequeno grupo de condenados...

Não tenho dúvida nenhuma de que se tratava de uma rede de pedofilia, a polícia e o Ministério Público (MP) também não tinham dúvidas. Basta ler o processo para se perceber que esta é a guarda avançada, o resto da coluna ficou cá fora, porque a nossa lei, a que estava em vigor, dizia que qualquer criança que denunciasse o abuso teria de o fazer até aos 16 anos e seis meses, se não o caso estava prescrito, não se podia investigar. Isto é um braço do polvo, alguns já morreram... um dos braços do polvo, umas das suas cabeças, morreu...

Pode especificar?

Não posso, não nasci ontem.

Então continua convicta de que era uma rede e que apenas se investigou uma parte?

Só foram investigados os que não estavam prescritos, muitas das vítimas não puderam ser ouvidas como assistentes. O único que não estava prescrito era o de Paulo Pedroso, que saiu...

Concordou com a decisão em relação a Paulo Pedroso?

Não tenho de concordar ou discordar... Mas é curioso que os miúdos que falaram dele foram os mesmos que serviram para levar a julgamento e condenar os outros.

Sempre teve um papel muito interventivo ao longo do processo.Há algum procedimento de que hoje se arrepende?

Não teria mantido na Casa Pia pessoas de quem desconfiava, que, em nome de valores que ainda defendo, mantive lá a boicotar a investigação.

Estamos a falar de funcionários, professores, diretores?

São todos funcionários, isto não é problema de professores, de escola. É um problema de internato, de pessoal técnico.

Mas boicotar a investigação de que maneira?

Por exemplo, um senhor, que tinha muito poder simbólico naquela casa - foi educador, dirigente sindical, chefe da associação de trabalhadores, organizava eventos, conhecia tudo e todos e tinha o arquivo fotográfico da CPL -, uma vez trouxe uma fotografia de alguém vestido de Santo António que era tal e qual um dos arguidos do processo, numa festa da Casa Pia. Fiquei surpreendida, disse-lhe que era um contributo muito importante para a investigação, telefonei à polícia que veio buscar a fotografia, mostrou-a ao arguido, que primeiro pensou mesmo ser ele, mas depois garantiu não ser porque nunca se tinha vestido assim. Fomos investigar, para ver quem poderia ter sido, e lá se descobriu que era um padre que já tinha morrido. Esse tal senhor, chefe das relações públicas da Casa Pia de Lisboa, sabia perfeitamente quem era e foi--nos pôr aquilo nas mãos de propósito, numa clara tentativa de boicote à investigação. Agora partiu para Macau.

É esse caso que a leva a falar de boicote?

Falo de muitas situações, de tal forma que digo que, pelo que se passou depois de eu lá ter entrado, arrependo-me verdadeiramente de não ter feito uma limpeza total em 15 dias. Deveria ter reunido com as pessoas e dizer-lhes calmamente que poderia estar a cometer injustiças, mas que sabia que enquanto lá estivessem determinado tipo de pessoas, a polícia não iria conseguir fazer o seu trabalho e investigar.

Quer dizer que foram entraves à investigação?

Não, foram verdadeiros boicotes. A eles é que os miúdos conheciam, tinham poder simbólico sobre eles, e eu mantive-os a todos. Só não deixei lá ficar os que foram acusados de abusadores, esses mandei-os para casa.

Teve o apoio do ministro Bagão Félix?

Sim, antes e depois. O seu apoio incondicional foi fundamental. Ele nunca vacilou, é uma pessoa de uma integridade exemplar.

E da classe política em geral sentiu-se apoiada ou ameaçada?

Posso dizer que não fui pressionada, nem ameaçada. Apesar de saber que poderia ser um alvo. Mas não tive segurança pessoal, não quis... Mas houve muita gente, políticos profissionais que conhecia há muitos anos, que me deixaram de falar, como se eu tivesse alguma responsabilidade pelos atos de outros ou tivesse acusado alguém. Eu só ouvi o que os miúdos me contaram.

Saiu da Casa Pia quando o PS entrou para o Governo. Sentiu essa decisão como uma espécie de vingança ou foi uma decisão sua?

Não foi decisão minha, foi do senhor ministro que tinha a tutela da Casa Pia, Vieira da Silva. O meu mandato acabou e não fui reconduzida.

Sentia que o seu trabalho ainda não estava terminado?

Tínhamos um trabalho feito, não por mim, mas gratuitamente por um grupo de sábios, chefiado pelo senhor Roberto Carneiro. É o trabalho mais consistente sobre internatos neste País.

Não foi aceite por quem?

Pelo ministro que substituiu Bagão Félix, Fernando Negrão, que esteve no governo pouco tempo. Depois o governo seguinte, o do PS, também não o aplicou. O ministro seguinte, Vieira da Silva, nunca perguntou nada sobre o processo e tinha a tutela da Casa Pia. Aliás, ele pouco falava comigo.

Considera que, durante o governo PS, a Casa Pia foi deixada ao abandono pelo poder político?

Não. Nunca me faltou dinheiro. Não havia nada com a Casa Pia, era mesmo comigo.

Ainda sente que 10 anos depois, o PS continua zangado consigo?

Não sei nem me interessa. Mas se alguém se zangou não foi o PS. Houve muita gente dentro do partido que sempre quis que a verdade fosse analisada, houve outra gente que tudo fez para que essa verdade não fosse obtida. Nunca fui militante do PS, mas tinha lá muitos amigos, aliás, ainda tenho, e alguns deles estavam comigo nesta luta.

E quem não esteve consigo?

Haverá um tempo em que este processo estará prescrito e aí muita coisa que lá está poderá ser recuperada e publicada.

O depoimento de alguns testemunhos, como o de Ilídio Marques, não fragiliza o processo?

É um toxicodependente, que um bando em que circula um dos arguidos tornou dependente, que o alimenta de coca e lhe diz o que deve dizer. O que ele diz não fragiliza coisa nenhuma. A maioria das vítimas/testemunhas teve o seu processo julgado, contou o que se passou, os criminosos foram presos e eles prosseguiram a sua vida discretamente. Depois há cinco ex-educandos mais velhos, que era já gente problemática, que revelaram durante as audiências contradições. Esses procuraram sobretudo o estrelato, e com isto não quer dizer que não fossem vítimas.

Porque é que os advogados Proença de Carvalho e José António Barreiros saíram?

Eles que expliquem.

Mas houve algum desentendimento?

Não. Enquanto defenderam a Casa Pia estiveram de corpo e alma, com total lealdade. Mas não fica muito bem no currículo de algumas pessoas meterem-se com miúdos ranhosos...

Têm um currículo demasiado importante?

Não era isso. Este processo é muito cansativo, que se faz em nome de princípios, mas não serve para ganhar dinheiro nem para fazer amigos.

A sua associação, Rede de Cuidadores, denunciou alegados abusos praticados por sacerdotes ou responsáveis de instituições católicas. A Igreja não ficou zangada consigo?

[Risos] Possivelmente. Sou católica e praticante e estou muito bem com a minha consciência. Era tão boa na Casa Pia, como diziam, porque estava a denunciar os da Maçonaria, e agora que estou a fazer o mesmo com os da religião Católica já deixei de ser boa?

Recebeu alguns recados?

Se recebi não os ouvi, porque foram ditos na comunicação social e quando tivemos de mostrar o que tínhamos guardado o tom de algumas vozes mudou. Mas a Igreja não é isso, esses, que falaram, são os senhores do templo e do tempo. Quem matou Jesus Cristo foram os senhores do tempo, da época e os senhores do templo.

Continua a ir à missa e a comungar?

Sim, à missa e a desempenhar as funções que tenho na minha paróquia.

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