"Há dinheiros que trazem más recordações"

Foi para a Casa Pia porque a mãe queria que ele fosse alguém. Violado por Silvino, Fábio - ou "Joel", como ficou conhecido - denunciou a história e deu início à bola de neve. Recebeu 50 mil euros, gastou-os, trabalha num restaurante e vai ser pai

Esteve na origem do escândalo da Casa Pia e logo a seguir ao caso se tornar público passou dias a fio nas redações dos jornais. Fábio Cruz, ou "Joel", como então ficou conhecido publicamente, contou a sua história a quantos lhe pediram e deixou-se deslumbrar pelo mundo da comunicação social. Não se arrepende de toda a exposição mediática, mas agora assume uma posição mais recatada, apesar de aceitar o convite do DN para falar da última década da sua vida.

Ao telefone, o primeiro contacto foi fácil e a disponibilidade quase imediata. Talvez resquícios de quem tão diretamente se relacionou com a imprensa, porque no dia seguinte foi um Fábio mais contido aquele com quem falámos. E pediu mesmo mais uns dias - para saber a opinião da mulher - antes de aceitar falar sobre o que viveu nos últimos dez anos. Ou melhor, "quase 12", como fez questão de frisar, uma vez que o seu envolvimento neste processo começou em 2001.

Casado, à espera de um filho ainda antes do verão, a menos de um mês de fazer os 26 anos, Fábio acha que chegou a altura de resguardar a sua imagem. A mulher está a par de tudo, mas tem a noção de que voltar a aparecer como o miúdo que em setembro de 2001 apresentou queixa contra Carlos Silvino, dando início a um inquérito policial que acabou por se tornar num dos mais mediáticos de sempre em Portugal, trará implicações não só para si como para quantos agora fazem parte da sua vida.

Entrou para a Casa Pia "porque a minha mãe quis que eu fosse alguém na vida e como ela tinha possibilidades [financeiras] para me pôr num colégio particular, pôs-me na Casa Pia". "Na altura, a Casa Pia era vista como uma instituição do Estado que fazia grandes homens", reforça. "E tal como me pôs, tirou-me, quando achou que afinal não era o melhor para mim", acrescenta.

Os tempos que se seguiram à revelação da violação de que foi vítima nesse verão de 2001 por parte do ex-motorista da Casa Pia, durante um fim de semana passado no Alentejo, foram um misto de fascínio pela atenção que a sua história despertou e uma luta em termos de relacionamento com quem lhe era mais próximo.

"Fui 'atacado' por jornalistas e na altura colaborei. Só que depois houve jornalistas que escreveram algumas coisas...", lembra. "Tentei afastar-me do processo e desapareci", continua. No entanto, guarda boas recordações desses dias. Aliás, ficou-lhe dessa altura o "bichinho" pela fotografia.

No bairro lisboeta onde a mãe ainda hoje vive aprendeu a ignorar comentários. "Diziam-me tens de ignorar, tens de ignorar. Mas não é fácil", recorda. Acabou por sair dali, passou por Loures e Benfica e agora vem diariamente da Margem Sul do Tejo para Lisboa, onde trabalha num restaurante.

Além do apoio que teve da então provedora da Casa Pia, Catalina Pestana, refere também o acompanhamento de Pedro Strecht. "Tive um grande pedopsiquiatra, e se um dia um filho meu precisar de ajuda, é a ele que vou recorrer", afirma. "Foi um grande apoio para mim, mas a certa altura deixei de ir às consultas porque achei que teria de ser eu mesmoa dar um passo em frente, fazer alguma coisa útil. Não podemos estar sempre à espera que os outros nos ajudem. Temos de ser nós próprios e seguir em frente", refere.

Apanhado no início da adolescência, reconhece que passou uns anos em que apenas queria namorar, sair à noite e divertir-se com os amigos. Os estudos ficaram para trás e o 9.º ano por completar. Já fora da Casa Pia, ainda voltou à escola, mas um outro ex-casapiano fez questão de revelar que Fábio afinal era o "Joel" e ele desistiu da escola.

Quanto ao uso que deu aos 50 mil euros de indemnização que recebeu do Estado, a resposta sai pronta: "Gastei-os. Investi em algumas coisas e aproveitei a vida." E justifica-se: "Há certos dinheiros que uma pessoa quer é desaparecer com eles porque trazem certas recordações."

Os primeiros anos do processo não foram fáceis. "Durante um longo período de tempo, acho que não tinha nenhum objetivo de vida. Depois comecei a trabalhar, vivi sozinho e até abri um café meu", conta Fábio. Mas a crise trocou-lhe as voltas e acabou por desistir do negócio. Questionado sobre o futuro, ilustra: "Quando alguém bate à porta, perguntamos quem é e não quem foste." Ou seja, "mais do que aquilo que fomos ou do que fizemos, temos de pensar naquilo que queremos ser. Isso é o mais importante."

Nos planos, uma certeza: voltar a estudar. Um primeiro passo para o seu grande objetivo: "Quero seguir em frente e ser patrão de mim mesmo." "Estou à espera de uma criança, e isso é um sinal de esperança", diz.

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG