Francisco Guerra quer ser cantor lírico

Testemunha-chave, Francisco Guerra foi acusado de assaltos e tentou o suicídio. Agora é empregado de mesa num hotel e estuda canto. Mas o passado atormenta-o:"Nunca estaciono o carro duas vezes no mesmo sítio, se vejo alguém muito tempo atrás de mim tento desviar-me, tenho sempre perto o contacto de polícias e hospitais"

Diz-se que "quem canta seus males espanta", e com Francisco Guerra foi "um bocadinho assim". "O canto lírico salvou a minha vida. Se não fosse o canto, eu, muito provavelmente, estaria acabado como alguns dos meus colegas. Nos momentos mais difíceis, tem sido o meu Xanax. Tomei muitos... agora já chega", conta o antigo casapiano, ao DN, como quem limpa a alma.

Durante a última década, Francisco Guerra foi apenas "FG" - as iniciais pelas quais era conhecido no processo que marcou a sua vida e do qual foi uma das principais testemunhas, devido à sua relação de maior proximidade com Silvino (ficou conhecido como o seu braço-direito). Até que em 2010, após a divulgação do acórdão de primeira instância, decidiu dar a cara, publicar um livro e revelar a sua história. Hoje, aos 27 anos, diz que é apenas alguém que "refez a sua vida e tenta sobreviver todos os dias como a maior parte dos portugueses". "Quero afastar o passado, mas nunca vou esquecer o que realmente aconteceu na Casa Pia", afirma.

Hoje, Francisco é alguém preocupado com o País", a fazer pela vida como a maioria dos compatriotas. Vive nos arredores de Cascais, é empregado de mesa num hotel no centro de Lisboa e cumpre uma rotina comum à de tanta gente: acordar cedo, apanhar o comboio para a capital, entrar no trabalho, sair a meio da tarde... e, depois, dedicar-se a um passatempo, que é mais uma "paixão": o canto lírico.

O gosto pela música não é recente - "sempre foi muito grande". Francisco, admirador dos tenores Pavarotti e José Carreras e de vozes mais pop com a de outro ex-casapiano, João Pedro Pais, chegou a tocar clarinete na banda da Casa Pia. Mas só depois de 2010, com o assentar da poeira do processo, se dedicou verdadeiramente ao canto. Primeiro aprendendo na Escola de Música de Cascais, agora com aulas particulares, três vezes por semana. "A música foi o que me salvou, foi o meu pilar de segurança", revela, agarrado ao sonho de um dia se tornar tenor profissional.

Agora, Francisco Guerra diz que encontrou um rumo, algo que durante oito anos lhe fora impossível: "Desde que o processo começou a minha vida foi muito difícil, sujeito a proteção policial, a sucessivos interrogatórios, a perícias médico-legais." Na verdade, as dificuldades começaram bem antes. Passou uma infância de abandono e maus tratos, desde que a avó que o criava faleceu, quando tinha quatro anos. Primeiro passou pelo Lar Evangélico Português, depois pela Casa Pia. "Foi aí que tive o azar de conhecer o Carlos Silvino, que era motorista", recorda.

Envolvido na rede de pedofilia, só se viu liberto aos 17 anos. E revolta-se com os rótulos que ganhou, de "mentiroso compulsivo, prostituto ou braço direito de 'Bibi'": "Nunca fui braço direito nem nada disso. Pura e simplesmente era mais chegado ao Carlos Silvino, pelo sonho de criança de ser motorista e por ter ali a figura de um pai." Sou um cidadão normal e os problemas que tive no passado foram claramente resolvidos", remata.

Os percalços foram muitos, da inadaptação aos sítios onde esteve alojado ao longo da investigação e do julgamento do caso ("então, só desejava chegar a casa, deitar-me, tomar os antidepressivos"), a tentativas de suicídio e acusações de assaltos a um restaurante e a uma loja de chineses ("tudo arquivado"). Hoje, o ex-casapiano agradece a quem o acompanhou nesses dias, dos agentes do corpo de segurança pessoal da PSP à "família" de então (da provedora da Casa Pia, Catalina Pestana, o pedopsiquiatra Pedro Strecht e o inspetor Dias André, entre outros). Ainda assim, o passado só começou a ser expiado em 2010, quando "FG" ganhou nome e rosto, lançando o livro Uma Dor Silenciosa. "Foi para que as pessoas pudessem conhecer o verdadeiro Francisco Guerra. Muita gente não tinha noção do que tínhamos passado."

Foi também só aí que o ex-casapiano contou a sua história aos amigos, que não compreendiam "porque não saía à noite com eles" e tanta vezes se afastava. Na altura "era tudo muito melindroso". Mas após a dar a cara, "os colegas da Casa das Histórias - Museu Paula Rego [onde trabalhou até ao mês passado] foram fantásticos". E Francisco vive menos complexado, apesar de manter os cuidados de há dez anos - "nunca estaciono o carro duas vezes no mesmo sítio, se vejo alguém muito tempo atrás de mim tento desviar-me, tenho sempre perto o contacto de polícias e hospitais próximos" -, resquícios do "curso intensivo" que recebeu do corpo de segurança pessoal da PSP.

Dez anos após a explosão do "escândalo, Francisco Guerra ainda arrasta algumas mágoas: extraprocessuais, como o diferendo com o ex-sócio do restaurante onde investiu a maior fatia da indemnização de 50 mil euros (ainda por resolver) ou o abandono familiar (não fala com o pai, "alcoólico", internado num lar, nem com o irmão mais novo, que vive com os tios em Peniche); e processuais, como os casos dos três arguidos iniciais que não foram a julgamento ("a justiça não foi forte o suficiente") ou dos ex-colegas que "caíram na toxicodependência" e vieram desmentir os testemunhos em tribunal.

"Nem que me dessem o mundo" faria um desmentido igual, garantindo: "O que quero é o que tenho hoje - a minha casa, o meu trabalho, uma vida normal, com amigos e namorada." No futuro, só gostava de "ser tenor... e não pagar impostos", brinca. E ri-se, pela primeira vez em horas de conversa, a espantar os fantasmas, como se estivesse a cantar.

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