Abusos em lares: a culpa é do sistema?

Jovens institucionalizados, frágeis e carentes, são alvo fácil para os predadores sexuais. E, às vezes, tornam-se eles próprios agressores. Há um 'sistema' a criar ciclos de abusos? Isso não é regra, mas sim exceção, reagem os especialistas na matéria.

São crianças inseguras e tímidas, as mais "frágeis e carentes" entre os milhares que se veem institucionalizados. Sofrem abusos, físicos, psicológicos e sexuais. Uns ficam marcados para a vida, outros conseguem recuperar (ainda que nunca esqueçam). Alguns tornam-se, eles próprios, abusadores. Outros não. Assim se descreve - pela voz dos pedopsiquiatras Álvaro de Carvalho, Daniel Sampaio e Fernando Santos - o "sistema" onde vivem as crianças e jovens institucionalizados que são vítimas de abusos - como os da Casa Pia, um mundo onde não há certezas absolutas.

Não existe um perfil-tipo de uma criança ou jovem vítima de abuso sexual - seja em instituições ou fora delas. Na Casa Pia eram "as mais desgraçadas em termos de história pessoal", diz Álvaro de Carvalho, pedopsiquiatra e presidente da Rede de Cuidadores (ver entrevista ao lado). E, regra geral, em todos os casos há características comuns: são crianças "frágeis e carentes, devido ao que lhes aconteceu na vida [e levou a que fossem institucionalizadas]", diz Fernando Santos, pedopsiquiatra do Hospital da Luz. E "essa fragilidade vem ao de cima, levando a que o abusador se aproxime, mostre como amigo, esteja disponível, dê coisas. É um processo de sedução e criam-se relações de dependência", explica o médico. E, com os abusos, tudo piora: as crianças tornam-se "inseguras, tímidas, receosas do contacto com adultos, com sintomas depressivos e ansiosos, dormem mal, podem ter problemas de apetite, manifestam por vezes irritabilidade e choro fácil", descreve Daniel Sampaio, psiquiatra no Hospital de Santa Maria.

O risco é o futuro: serão os jovens abusados de hoje os potenciais abusadores de amanhã? A história mostra o exemplo da Casa Pia, onde Carlos Silvino diz ter sido violado em criança e os abusos entre internos eram prática comum. E, na última década, sucederam-se denúncias de casos similares em instituições de acolhimento como o Lar Juvenil de São João Bosco (Vila Real), a Casa do Gaiato de Paço de Sousa (Penafiel) e as Oficinas de São José (Porto).

Contudo, os especialistas são contra a generalização. A transformação do abusado em predador sexual "acontece em muitos casos, mas não é regra", adverte Daniel Sampaio. E Fernando Santos contesta a ideia de que exista um "sistema" que propicia os episódios de abusos em instituições de acolhimento. "É importante perceber que essa ideia [da vítima que se torna agressor] não está ligada às instituições ou ao facto de o abuso ter acontecido quando estavam numa instituição. O abuso pode acontecer em qualquer lado, muitos acontecem em ambiente familiar. E essa reação tem a ver com a valorização que se faz do que aconteceu, no futuro", aponta.

Ou seja, sair do "sistema" "depende do trauma e do tipo de apoio que existiu, familiar, institucional e profissional", afirma Daniel Sampaio. Carlos Silvino, por exemplo, nunca terá saído desse "sistema" - mas sobre ele, sem o conhecerem, os especialistas preferem não falar. De resto, embora as reações variem de caso para caso - "tudo depende da qualidade do trauma e da personalidade da pessoa", diz Álvaro de Carvalho -, o trauma do abuso fica para sempre. "Fica e deixa marcas profundas. E o que interessa é apoiar as crianças de modo a minorar esse trauma", completa Daniel Sampaio.

Porém, no meio desse trauma, como explicar as contradições de algumas das testemunhas do processo Casa Pia, que vieram desmentir as acusações antes feitas em tribunal? Além do aliciamento das vítimas, de que Álvaro de Carvalho fala, Fernando Santos recorda o"impacto emocional" do processo - que muitas testemunhas não aguentaram bem. E Daniel Sampaio também desvaloriza a situação: "Existem sempre contradições em situações complexas. Eu acredito totalmente nos primeiros testemunhos. E não esquecerei que houve muitas crianças abusadas em local da responsabilidade do Estado e onde deveriam estar em segurança."

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