China e Vaticano em "posições muito díspares" quanto a normalização das relações

Pequim e Vaticano estão em "posições muito díspares" quanto à normalização das relações, com a China "sem pressa" e a Santa Sé olhando para aquele país como "a nova fronteira", sustenta o sinólogo italiano Francesco Sisci.

"Há um grande contraste entre as duas posições. A motivação não é igual. O Vaticano está muito interessado, mas para o Governo chinês a questão não é assim tão importante", disse aquele especialista à agência Lusa em Pequim.

Oficialmente, a igreja católica patriótica chinesa, a única autorizada e que é independente do Vaticano, tem cinco a seis milhões de fiéis, tantos quanto a chamada "igreja clandestina", que permanece ligada a Roma. No conjunto não chegará a um por cento da população.

Radicado há duas décadas em Pequim, Franscisco Sisci é autor de três livros sobre a China, um dos quais sobre as relações com o Vaticano, publicado em 2008 com o título "Santa Sé-China: A incompreensão antiga e o questionamento atual".

"A China é um país espiritualmente vazio, sem religião, sem fé. A Santa Sé quer preencher esse vazio, mas a estratégia que tem seguido, até agora, falhou", afirma Sisci.

Na sua opinião, ao contrário das igrejas protestantes, "a Santa Sé tem adotado uma atitude confrontacional" com a China, nomeadamente quanto à ordenação dos bispos, que segundo as leis chinesas são nomeados pela Igreja Patriótica e não pelo papa.

As igrejas protestantes "estão a crescer muito mais depressa" do que a católica, realçou Francesco Sisci.

Segundo estimativas ocidentais, o número de fiéis das igrejas protestantes já ultrapassará os 60 milhões.

Um porta-voz do Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros, Hong Lei, indicou na segunda-feira que a China estava interessada em "melhorar as relações" com o Vaticano, mas segundo "dois princípios básicos".

"Em primeiro lugar, o Vaticano deve cortar os chamados laços diplomáticos com Taiwan e reconhecer o Governo da República Popular da China como o único Governo legítimo de toda a China e que Taiwan é uma parte inalienável da China", disse o porta-voz, respondendo a uma pergunta da agência Lusa.

E o Vaticano "não deve interferir nos assuntos internos da China, incluindo interferências em nome da religião", acrescentou.

Esta foi a primeira reação oficial do Governo chinês ao anúncio da resignação de Bento XVI, no dia 11 de fevereiro.

O porta-voz escusou pronunciar-se sobre o pontificado de Bento XVI e quanto ao seu sucessor respondeu: "Esperamos que sob a liderança de um novo papa a Santa Sé adote uma atitude flexível e prática para criar condições à melhoria das relações bilaterais".

A Santa Sé, que mantém um embaixador em Taiwan (a ilha onde se refugiou o antigo Governo chinês depois de os comunistas tomarem o poder no continente, em 1949), é o único Estado europeu que não tem relações diplomáticas com a República Popular da China.

Bento XVI, 85 anos, anunciou que ia resignar a partir de 28 de fevereiro devido à "idade avançada".

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG