Cardeal aconselhado a não comparecer no conclave

O cardeal e ex-arcebispo de Los Angeles Roger Mahony, implicado num escândalo de pedofilia nos Estados Unidos, poderá vir a ser aconselhado a não comparecer no conclave que irá eleger o novo papa.

Esta hipótese foi avançada pelo cardeal italiano Velasio De Paolis, numa entrevista ao jornal Repubblica, hoje divulgada.

O papa Bento XVI anunciou, na passada segunda-feira (11 de fevereiro), a sua resignação.

Um novo papa será escolhido até à Páscoa, a 31 de março, disse o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, anunciando que um conclave deve ser organizado entre 15 e 20 dias após a resignação do pontífice, prevista para o próximo dia 28 de fevereiro.

"É possível que Mahony seja aconselhado a não vir [ao conclave]", afirmou o cardeal italiano, especialista em direito canónico, realçando, no entanto, que tal intervenção só poderá ser feita a nível pessoal "por alguém dotado de uma forte autoridade".

"A prática comum é recorrer à persuasão. Não se pode fazer mais nada" para eventualmente convencer o cardeal norte-americano a não comparecer no conclave papal, disse De Paoli, falando de uma "situação desconcertante".

Uma associação de católicos norte-americanos, a Catholics United, lançou nos últimos dias uma petição online para impedir a presença do cardeal e ex-arcebispo de Los Angeles no conclave.

"Caro cardeal Mahony, fique em casa", pede a petição da associação, que recorda que Mahony foi acusado de ter encoberto centenas de acusações de abuso sexual de menores ao longo de várias décadas e que foi exonerado de "qualquer responsabilidade administrativa ou pública" pelo seu sucessor na arquidiocese de Los Angeles, o arcebispo de Jose Gomez.

"Se um cardeal é privado das funções públicas dentro da sua diocese, por que razão é recompensado ao ser autorizado a votar no próximo papa?", questionou a associação.

Na mesma entrevista ao jornal Repubblica, o cardeal italiano Velasio De Paolis recordou, porém, que "as regras em vigor devem ser respeitadas".

"O cardeal Mahony tem o 'direito-dever' de participar e votar no próximo conclave", acrescentou De Paolis, que é jurista, presidente emérito da prefeitura para os assuntos económicos e delegado do papa para a congregação religiosa Legionários de Cristo, cujo fundador, o padre mexicano Marcial Maciel, foi acusado de abusos sexuais.

Em última instância, "será a sua consciência que irá determinar se deve vir ou não", disse o cardeal De Paolis, considerando ainda improvável que o papa Bento XVI intervenha neste assunto.

Roger Mahony, de 76 anos, que participou no conclave que elegeu o papa Bento XVI em abril de 2005, é teoricamente membro do conclave constituído por 117 cardeais com menos de 80 anos.

O arcebispo de Los Angeles Jose Gomez divulgou no início deste mês, por ordem judicial, milhares de páginas de documentos confidenciais sobre os cerca de 120 padres alegadamente envolvidos em casos de pedofilia.

Em 2007, a arquidiocese de Los Angeles, na altura liderada pelo cardeal Mahony, aceitou pagar 660 milhões de dólares às cerca de 500 vítimas dos alegados abusos. O mesmo acordo previa a publicação dos dossiês pessoais dos padres envolvidos no escândalo.

Os documentos divulgados revelam troca de informações confidenciais entre Roger Mahony e um alto conselheiro, refletindo sobre os meios para impedir a punição dos alegados abusadores.

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