“Skinheads” do Porto mataram militante do PSR

Um ex-activista de esquerda português, infiltrado no movimento de extrema-direita, revelou à revista “Interviú” que foram dois skinheads do Porto que mataram José Carvalho, militante do PSR

Numa entrevista divulgada na semana passada à revista espanhola “Interviú”, Artur Castro Cardoso da Silva revelou que os “cabeças-rapadas” são um grupo que leva a cabo acções violentas, planeadas pelo Movimento de Acção Nacional (MAN), de extrema-direita, que recebe treino de militares e polícias portugueses, tendo citado alguns nomes.

De acordo com o entrevistado, os skinheads recrutaram no Porto dois indivíduos conhecidos como “o Joãozinho”, já falecido num desastre de mota, e o “Paulo Maluco”, agora a cumprir serviço militar em Tancos. Estes terão matado José Carvalho, do PSR, em 28 de Outubro do ano passado.

Artur Cardoso da Silva afirmou militar na esquerda revolucionária portuguesa há mais de 20 anos e ter editado livros de poemas, muitos dos quais foram publicados no Jornal de Letras. O seu pai, engenheiro, foi um personagem muito ligado ao salazarismo.

Este português que diz ter-se infiltrado no movimento de extrema-direita apresentou-se como cunhado do dirigente do Movimento de Acção Nacional, João Eduardo Lourenço Milhares e referiu ser Luís Henriques outro dirigente daquele movimento, tendo-os responsabilizado pelo planeamento da acção que vitimou o dirigente do Partido Socialista Revolucionário (PSR).

Entre outros membros, referiu também o francês Gilles Malliarakis e os portugueses Dório de Castro, José Lopes, António José de Brito, Luís Baião e Mário Rui Pinto.

Três a cinco mil "skins" portugueses

Segundo afirmou, haverá em Portugal entre três a cinco mil skinheads. “De uma forma geral, usam camisas brancas ou de quadrados, calças de vaqueiro muito justas, botas cardadas e, em vez de cabeças-rapadas, receberam ordens para se disfarçarem um pouco”. São recrutados em bairros pobres de operários e sobretudo nas zonas da Grande Lisboa, assim como Barreiro, Almada, Amadora e Benfica.

No Norte são recrutados essencialmente em Matosinhos, Vila Nova de Gaia, Espinho, Mirandela, Guimarães, Braga e Coimbra. Recebem treino sistemático e, a nível individual, apoio da vários militares e alguns polícias, sobretudo por parte dos comandos, afirmou o “infiltrado”.

Acrescentou que alguns destes treinos chegam a ter lugar dentro do Quartel-General do Porto e na serra de Valongo. A sua preparação é feita à base de artes marciais, uso de matracas e formação de guerrilha, utilizando manuais de Che Guevara e do brasileiro Carlos Marighela.

Referiu que polícias e militares portugueses simpatizam com os skinheads e, exemplificando, disse que em 30 de Abril, quando foi detido por um elemento da polícia, este lhe afirmou: “Os skinheads são boa gente porque fazem o trabalho que gostaríamos de fazer, ou seja, acabar com os negros, anarquistas, comunistas e homosexuais. A mim não mo deixaram acabar em Angola e agora eles estão a acabá-lo aqui”.

Artur Cardoso da Silva acrescentou que os skinheads em Portugal são financiados por empresários e industriais do Norte. Revelou também que o MAN está por detrás de um grande número de publicações, como Vento Norte, Jovem Revolução; Ofensiva, Nova Lusitânia, Combate Branco e Último Reduto. Considerou que a ideia que os anima é a perspectiva de mudança política na Europa em 1992, com um futuro colapso capitalista que dará aos neofascistas a sua oportunidade.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

Legalização da canábis, um debate sóbrio 

O debate público em Portugal sobre a legalização da canábis é frequentemente tratado com displicência. Uns arrumam rapidamente o assunto como irrelevante; outros acusam os proponentes de usarem o tema como mera bandeira política. Tais atitudes fazem pouco sentido, por dois motivos. Primeiro, a discussão sobre o enquadramento legal da canábis está hoje em curso em vários pontos do mundo, não faltando bons motivos para tal. Segundo, Portugal tem bons motivos e está em boas condições para fazer esse caminho. Resta saber se há vontade.

Premium

nuno camarneiro

É Natal, é Natal

A criança puxa a mãe pela manga na direcção do corredor dos brinquedos. - Olha, mamã! Anda por aqui, anda! A mãe resiste. - Primeiro vamos ao pão, depois logo se vê... - Mas, oh, mamã! A senhora veste roupas cansadas e sapatos com gelhas e calos, as mãos são de empregada de limpeza ou operária, o rosto é um retrato de tristeza. Olho para o cesto das compras e vejo latas de atum, um quilo de arroz e dois pacotes de leite, tudo de marca branca. A menina deixa-se levar contrariada, os olhos fixados nas cores e nos brilhos que se afastam. - Depois vamos, não vamos, mamã? - Depois logo se vê, filhinha, depois logo se vê...