Fúria racista no Bairro Alto

Os skinheads voltaram a atravessar o rio e invadiram o Bairro Alto, na madrugada de ontem. Objectivo: agredir negros. Resultado: 12 feridos. Um deles ficou em coma. As portas dos bares fecharam-se à passagem de jovens em fúria

Armados de ferros, paus, soqueiras e muita raiva, cerca de 50 jovens, muitos deles de cabeças-rapadas, sondavam já o Bairro Alto pelas 23 horas, em noite de sábado, de “Festas da Cidade” e de uma vitória histórica do Sporting. Pela 1.30 da manhã, chegavam ao cimo da Rua Diário de Notícias, à Travessa da Cara e Rua Teixeira. Ali concentrava-se muita gente que, às portas dos bares, “bebia uns copos”.

Começaram as provocações, as respostas, ambas a descambarem nas agressões. Quem assistiu diz que eles chegaram ali determinados a “partir tudo”. “Vinham aos gritos, metiam medo”, contou ao DN o dono de um estabelecimento do bairro.

O alvo eram os negros. Tudo se agravou quando uma barra de ferro atravessa a cara de um jovem imigrante, “de um lado ao outro”. Os companheiros “perderam a cabeça”. Desmontaram um andaime que estava por perto e “foi pancadaria até dizer chega”, descreveu outro “nascido” no bairro, também proprietário de um bar e que se envolveu na rixa.

Apesar de não “gostar de jornalistas”, acabaria por dar ao DN uma imagem do que se passou. “A confusão foi tanta que começou toda a gente a fechar as portas com medo que os cabeças-rapadas entrassem”. Foi o pânico. “As pessoas desataram a fugir, a tentar refugiar-se nos restaurantes e bares e ninguém deixava entrar”, ao mesmo tempo que as agressões violentas aumentavam. “Eles vieram de Cacilhas e de Almada”, contava o mesmo homem, que ostentava as mãos inchadas de “tantos murros”.

Curiosamente, de acordo com alguns moradores, “nunca antes se vira tanta polícia por estes lados”, talvez receando reacções demasiado animadas à vitória do Sporting na Taça de Portugal.

Julgamento hoje

Pelas três horas da madrugada, a PSP conseguia pôr cobro à confusão. Foram detidos sete homens e duas mulheres e 12 jovens negros encaminhados para as urgências do Hospital de São José. A maioria teve alta, após os tratamentos a ferimentos sem gravidade, mas um deles, Alcindo Bernardo Monteiro, de 27 anos, encontrava-se ontem “em estado grave, com traumatismo craniano e provavelmente com traumatismo na coluna, disse fonte do Hospital de São José. Apesar de ligado a um ventilador, a situação clínica era “estacionária”, disse a mesma fonte.

Os detidos deveriam apresentar-se ontem no Tribunal Criminal de Lisboa, mas a greve de juízes obrigou a adiar a sessão para hoje de manhã, soube o DN.

As reacções ao sucedido não se fizeram esperar. A UDP condenou a acção dos alegados skinheads, considerando tratar-se de uma “consequência lógica dos apelos transmitidos pelo bombista Alpoim Calvão e pelo fascista Kaúlza de Arriaga, durante as comemorações fascistas de 10 de Junho”. Acusa também Jaime Neves e os promotores das comemorações de “instigarem a violência racista” e considera-os autores morais da violência desencadeada no Bairro Alto.

Ao fim da manhã de ontem, poucos eram os “verdadeiros” habitantes do bairro que tinham dado conta dos distúrbios. “É que confusões há todos os fins-de-semana, não há caixote de lixo que se aguente em pé com as bebedeiras. Já nem venho à janela”, dizia uma idosa, que “já não aguenta viver no Bairro Alto”. Só que os distúrbios da madrugada de ontem reflectiram questões bem mais graves do que mais uma noitada de “copos”.

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