Manuel Loff: "Branqueamento de Salazar até já o fez antifascista"

"O Governo de José Sócrates, mas não é o único, tem vindo a reforçar e a tentar criar como fonte de sustentação uma linguagem legitimadora do autoritarismo”

No seu livro O Nosso Século é Fascista! - O Mundo Visto por Salazar e Franco analisa as ditaduras ibéricas. Houve mesmo fascismo em Portugal?

É claro que houve fascismo em Portugal. O salazarismo foi a adequação que as direitas portuguesas fizeram de um modelo fascista à conjuntura portuguesa. Neste livro sustento que o salazarismo é claramente o fascismo.

António José de Brito, que se assume como fascista e de extrema-direita , diz que há apenas afinidades entre o Estado Novo e o fascismo.

A ultradireita do regime defende isso. Não nos esqueçamos de que Jaime Nogueira Pinto sustentava a tese, em 1971 ou 1972, de que Marcelo Caetano era um criptocomunista… Melhor que António José de Brito, José Hermano Saraiva, em determinado momento, chegou a dizer que Salazar teria sido um antifascista, porque teria mandado prender fascistas. O Hitler mandou matar nazis, não é nazi, está visto; Estaline mandou matar 700 mil comunistas, entre 36 e 38, então não é comunista. Isto é absurdo, é óbvio que a pluralidade interna do regime incluía sectores, sobretudo da área intelectual e sectores de uma pequena burguesia mais moderna que do ponto de vista cultural imitava directamente o caso italiano ou caso alemão.

E queriam um regime mais radical?

Queixaram-se da falta de solidez ideológica do regime e consideraram, por exemplo, que Salazar era contra-revolucionário. Salazar falou da revolução a vida toda! O 28 de Maio não era outra coisa senão uma revolução nacional: o ditador recordou nos anos 30 e anos 60, durante a Guerra Colonial, que era necessário restaurar o espírito do 28 de Maio. Uma das coisas que procuro analisar neste livro, no capítulo da natureza ideológica, é como o salazarismo se descreveu a si próprio como o novo, o revolucionário, o moderno. Evidentemente não cumpriu todas as expectativas daqueles que queriam mudança mais radical.

Em que base se apoia Salazar para dizer que o seu século, o século XX, era fascista?

Salazar usa outra fase: diz que existe uma linha geral europeia que os triunfos da Alemanha nazi e da Itália fascista têm vindo a consagrar. Salazar não gosta de utilizar o termo fascista, porque sabe que está a usar um termo criado por estrangeiros, e um ultranacionalista não gosta de dizer que o seu regime é uma imitação. Portanto, fala de um nova ordem, como falavam também Hitler, na Alemanha, Mussolini, em Itália, e Franco, em Espanha. A transformação que a Alemanha estava a produzir na Europa, entendia Salazar, iria consagrar o triunfo dessa via. As direitas ibéricas imaginaram no triunfo da Alemanha uma espécie do fim da história: o triunfo definitivo para o resto do século daquilo que seria a nova ideologia.

Essa ilusão esvai-se com a derrota da Alemanha.

Podemos chegar um bocadinho para trás. Em 1943, Salazar arrasta os pés, mas é obrigado a ceder as bases dos Açores. A situação militar na Europa já é muito diferente; e o predomínio anglo-americano nos mares e no Atlântico, em concreto, é tão esmagador. Salazar não tem outra saída: para sobreviver terá de ceder e criar a ilusão de que nunca foi fascista.

É uma mudança de discurso?

Sabemos que as mudanças em 1945 são cosméticas, ele não altera nada de estrutural no seu regime. Sabe, no entanto, que não há mais perspectiva de que as suas ideias vão vingar à escala internacional. Em Portugal conseguirá manter mais 30 anos do regime.

Quais são as provas documentais que analisou para o ajudarem a definir a natureza "intrinsecamente fascista das duas ditaduras ibéricas"?

No caso português, analisei documentação diplomática portuguesa e política produzida dentro do Governo português, na maior parte dos casos documentos confidenciais até agora desvalorizados. Quis perceber aquilo que até agora ainda não tinha sido feito na historiografia portuguesa: ver como é que Salazar imaginou, nos anos do triunfo fascista, o que seria o mundo. É aí que eu apanho estes documentos surpreendentes: o seu embaixador em Berlim, Tovar de Lemos, diplomata de carreira, um homem intrinsecamente salazarista, definiu no fim de 1941 que se havia regime na Europa com mais semelhanças com o regime nazi esse regime era o português.

Após 1945, Oliveira Salazar muda de discurso, pelo menos a nível externo. A nível interno, a violência permanece?

A violência não volta a assumir o mesmo nível que teve nos anos 30 e anos 40 até às eleições de Humberto Delgado, em 1958 - esse é um dos momentos de grande violência. Outra das características abertamente fascista do regime é que o grau de violência no final dos anos 30, período da Guerra Civil de Espanha, é o mais forte de toda a ditadura à escala portuguesa actual porque, evidentemente, não podemos esquecer a Guerra Colonial: os africanos sofreram muito mais violência a partir de 1961. O Tarrafal, não nos esqueçamos, é aberto em 1936, e é designado como campo de concentração.

"Há portugueses disponíveis para nova ditadura"

O salazarismo está a ser branqueado?

Vive-se uma crise do sistema democrático, o que faz emergir o cepticismo. Parte substancial da sociedade, de forma ligeira, vê como alternativa à crise da democracia o regresso ao passado. Nesse sentido, há uma infinidade de actores, políticos, intelectuais, na comunicação social, na universidade, que produz um discurso branqueador, que tem audiência: o salazarismo aparece como período de serenidade e de crescimento económico.

É a humanização do ditador?

Nos últimos anos, do ponto de vista editorial, têm surgido iniciativas nesse sentido. Como nas histórias para as crianças, o ditador parece como o rei bom que desconhece as malvadezas dos seus.

Há condições para o regresso da uma ditadura?

Não estou a dizer que temos a aproximação de uma ditadura, o que vivemos é o período no qual uma parte da sociedade, exasperada pelos problemas económicos e sociais, está disponível para formas mais ou menos mitigadas de ditadura, para suspensão de direitos, reforço do poder da autoridade do Estado.

O Governo de Sócrates vai nesse caminho?

Acho - e agora não é historiador a falar - que o actual Governo, mas não é o único, tem vindo a reforçar e tentar criar como fonte de sustentação do seu apoio uma linguagem legitimadora do autoritarismo. Um discurso que diz que é preciso, em determinado momento, ignorar a sociedade e exercer a poder a partir de cima: isso é a essência do autoritarismo. Se me pergunta se José Sócrates é o Salazar, eu digo: não, não acho. 

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.