PJ teme que pista marroquina de Madeleine resulte em nada

A Polícia Judiciária considera "muito estranha" a "longa demora" por parte das autoridades de Marrocos no envio das imagens de videovigilância, solicitadas através da Interpol, captadas num posto de abastecimento de combustível de Marraquexe, onde uma turista norueguesa afirmou ter visto, há cerca de três semanas, Madeleine McCann , em pijama e acompanhada por um homem a quem perguntou, em inglês: "Quando é que posso ver a minha mãe?"

Embora resida nestas imagens a grande esperança da investigação da PJ para localizar a criança britânica desaparecida há 34 dias na Praia da Luz, o inspector-chefe Olegário de Sousa avisa desde já que o seu conteúdo, ainda não recebido pela polícia à hora do fecho desta edição, até pode ser "uma decepção". "As imagens poderão não ser reveladoras ou ter má qualidade", disse o porta-voz da PJ, sublinhando que, se tal vier a verificar-se, "infelizmente perderemos a pista de Marraquexe". Esta é, agora, a grande incógnita da Judiciária, numa altura em que o precioso tempo dispendido em buscas e pistas que se revelaram infrutíferas, corre cada vez mais contra a investigação.

Quanto à demora na entrega das imagens, Olegário Sousa explica que "há vídeos que gravam num disco rígido que se torna de leitura difícil". "Pode ser esse o problema", referiu.

Por outro lado, o posto móvel da Guarda Nacional Republicana instalado desde o desaparecimento de Maddie, junto ao apartamento ocupado inicialmente pela família McCann , no aldeamento The Ocean Club, foi desactivado ontem de manhã, embora se mantenha uma viatura de patrulha na zona, com dois militares. É que a habitação, selada por ordem do Ministério Público (MP) de Lagos após o rapto da menina, deixou de estar sob o controlo da GNR, uma vez que, adiantou ao DN Olegário Sousa, "tudo o que havia ali a fazer, já foi feito". "Todas as impressões digitais e vestígios para se definir ADN, entre outros aspectos, já foram recolhidos", esclareceu, desconhecendo, no entanto, se o MP já deu autorização ao resort para alugar o apartamento. O DN tentou confirmar junto do aldeamento esta informação, mas sem sucesso. Recorde--se que a família McCann pagou 1600 euros por uma semana de férias na casa de onde a filha desapareceu.

A PJ aguarda ainda parte dos resultados das perícias forenses efectuadas em várias buscas. Um deles tem a ver com a colheita de saliva a Murat (único arguido do processo), bem como à casa da sua mãe e viaturas ali estacionadas na altura em que o luso-britânico foi levado para a PJ.


Confronto público


O casal McCann foi confrontado ontem pela primeira vez, em público, sobre a decisão de deixar os três filhos sozinhos a dormir no quarto enquanto jantavam, na noite do desaparecimento da menina, a 3 de Maio, e do facto de terem sido considerados suspeitos. Na conferência de imprensa, em Berlim, e em resposta a uma pergunta formulada por uma jornalista de uma rádio nacional, Sabine Mueller, Gerard e Kate afirmaram: "Somos pais responsáveis e nunca ninguém nos considerou suspeitos no desaparecimento de Madeleine , muito menos a polícia portuguesa." Gerard recordou que, depois do desaparecimento da filha, viveu com a mulher os piores dias de sempre, mas "com o apoio da família e de profissionais, decidimos ser fortes e activos nas buscas em vez de ficarmos simplesmente à espera". Após o encontro com os jornalistas, o casal partiu, cerca das 17.00, para Amsterdão, na Holanda.

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