Alípio Ribeiro "deixa cair" caso Maddie

A afirmação do director da PJ sobre a "precipitação" na constituição do casal McCann como arguido é vista como uma preparação da opinião pública para a não acusação dos pais.

Ao admitir ter havido "precipitação" em constituir arguidos os pais de Madeleine McCann pelo desaparecimento da filha há nove meses na Praia da Luz, perto de Lagos, o director nacional da Polícia Judiciária (PJ), Alípio Ribeiro, estará a preparar a opinião pública para a possibilidade de não ser formulada qualquer acusação por falta de provas consistentes.

A ideia que fica das posições que o director da PJ tem assumido em declarações públicas é que "terá deixado cair" o processo, conforme admitiram ao DN fontes que têm acompanhado a investigação ao caso Maddie desde o início.

Com advogados de peso, tanto em Inglaterra como em Portugal, que já exploram as declarações de Alípio Ribeiro, e uma estrutura profissional de apoio, o casal McCann poderá dentro de meses ser mesmo ilibado do estatuto de arguido, em que está sujeito à medida de coacção mais leve prevista no Código de Processo Penal, o de Termo de Identidade e Residência, para o qual indicaram a sua residência na cidade inglesa de Rothley. Recorde-se que, depois de Alípio Ribeiro ter dito numa entrevista à Rádio Renascença e jornal Público que terá havido precipitação na constituição do casal como arguido, um dos advogados do casal Rogério Alves veio dizer que a defesa iria pedir que Kate e Gerry McCann deixassem de ser arguidos no processo, que tem como primeiro arguido o luso-britânico Robert Murat.


Possível arquivamento


O consequente arquivamento do processo poderá ser o caminho a seguir, numa perspectiva mais pessimista de fontes ligadas ao assunto contactadas pelo DN, embora a PJ no Algarve continue empenhada em desvendar o mistério, mantendo como mais forte a linha de investigação sobre a tese da morte acidental da criança inglesa no apartamento 5A do "Ocean Club", na Praia da Luz. Daí que as palavras de Alípio Ribeiro tenham provocado o mal-estar que se sente no seio da judiciária.

Se o processo for mesmo arquivado, ficará para muitos a convicção de que houve "cem por cento de pressões políticas" por parte dos ingleses. Como o DN já referiu, um sentimento de "revolta" continua instalado entre os investigadores face às recentes declarações de Alípio Ribeiro, embora o director nacional da PJ tenha tentado apaziguar os ânimos com um pedido de desculpas, procurando fazer crer ter sido mal interpretado quando falou em "precipitação" na constituição do casal McCann como arguido.


"Não sei se haverá prisões"


No entanto, as referências ao caso por Alípio Ribeiro não se ficaram por esta afirmação feita à Rádio Renascença. Já em entrevista publicada a 17/11/2007 no semanário Expresso, depois de considerar que "trabalhamos agora melhor do que no início da investigação", com "mais contenção e serenidade", o director nacional da Polícia Judiciária tinha deixado um aviso: "Não sei se haverá prisões no caso Maddie."

Uma posição contrariada por investigadores, para os quais existirão indícios que poderão levar à prisão de Kate McCann por suspeita de envolvimento na morte e ocultação do corpo da sua filha, que teria sido enterrado ou lançado em alto mar dentro de um saco.

Apesar de Alípio Ribeiro ter feito estas sucessivas declarações públicas - primeiro, que não deveria haver prisões no processo de Mad-die, depois, que teria havido precipitação na constituição do casal Mc-Cann como arguido -, a PJ nunca acreditou na versão de rapto transmitida pelos pais e estes foram constituídos arguidos em Setembro depois de os cãos ingleses terem sinalizado vários locais por onde teria passado o cadáver de Madeleine McCann , então com três anos, desde o apartamento onde estava a passar férias com os pais e os dois irmãos gémeos até à Igreja de Nossa Senhora da Luz, em direcção à praia.

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