Desaparecimento de Joana ainda é um mistério

Foi no dia 12 de Setembro, ao princípio da noite, quecomeçou o mistério que abalou a aldeia de Figueira, perto de Portimão.

A população estava no Festival do Berbigão, deixando as ruas desertas, e Joana Cipriano, a criança de oito anos que vivia com a mãe, o padrasto e dois irmãos mais novos, desapareceu após ter ir comprar duas latas de conserva de atum e um pacote de leite a um café situado a mais de 500 metros de sua casa. Foi vista pela última vez junto à igreja.

Três horas antes, Leonor Cipriano, a progenitora que mandou a criança às compras, fora buscá-la a casa da avó adoptiva, na vizinha vila da Mexilhoeira-Grande, onde a filha estava numa festa de aniversário. A miúda, que só deveria voltar à Figueira um ou dois dias depois, acabou por ceder à insistência da mãe que a queria levar para casa, onde se encontrava um familiar que raramente ali aparecia. «O tio está à espera para irmos à festa do berbigão», terá sido a justificação dada pela mãe.

Depois do desaparecimento de Joana, Leonor Cipriano disse recear que a filha pudesse ter sido raptada. Mas só a pressão de uma vizinha a levou a contar nessa noite o sucedido à GNR de Portimão.

No dia seguinte, revelando-se «descontraída» garantiu ter procurado a criança em todo o lado, inclusive na casa do pai de Joana, residente em Lagoa, bem como na de outros familiares. A GNR alertou a Polícia de Segurança Pública, a Polícia Judiciária (PJ) e o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, tendo o desaparecimento sido igualmente comunicado à Interpol e Europol.

Foram feitas buscas com cães e inquiridos familiares de Joana e populares. Ao mesmo tempo, a família afixou cartazes com a fotografia da criança, a solicitar ajuda.

Uma semana depois, a PJ suspeitou que Joana tivesse sido vendida pela própria mãe a um casal alemão. Mas passados poucos dias, Leonor Cipriano e o irmão João foram presos por suspeita de homicídio qualificado e ocultação do corpo, alegadamente pelo facto de a menor se ter apropriado de «pequenas importâncias em dinheiro».

As buscas para encontrar o corpo revelaram-se até agora infrutíferas, tendo a mãe e o tio indicado, num mês, mais de 60 pistas falsas.

Uma delas apontava para a possibilidade de o corpo da criança ter ido para o lixo. Mesmo assim, após várias pesquisas da Polícia Científica, os inspectores continuam a investigar hipóteses, uma delas a de o corpo ter sido esquartejado e lançado aos porcos.

Vestígios de fragmentos de osso e de cabelo, além de fibras coincidentes com a tonalidade da roupa da menina, detectados em suiniculturas na Figueira e enviados para análise laboratorial, terão ajudado a reforçar essa ideia.

A última versão da PJ apontava para a hipótese de Joana, ao chegar a casa, ter presenciado uma cena de incesto praticada pela mãe e pelo tio. Perante tal, a PJ acredita que o tio terá espancado a criança.

O tribunal de Portimão reavaliou, na passada semana, as medidas de coacção aplicadas há três meses e manteve os dois suspeitos em prisão preventiva.


População de Figueira está revoltada com a Judiciária


A maioria dos habitantes da aldeia da Figueira, em Portimão, não acredita que Joana Cipriano tenha sido morta na casa onde vivia, esquartejada e lançada aos porcos pela própria mãe e pelo tio, como admite a Polícia Judiciária. O dono de uma das suiniculturas onde a polícia procedeu a investigações garante: «Quem dá comida aos animais sou eu ou o meu pessoal e ninguém viu nada de anormal.»

Muitas pessoas pensam que a criança, vista como «sossegadinha, triste e muito responsável, sabendo cuidar da casa e dos irmãos», foi vendida e que estará viva no estrangeiro. Essa é também a ideia do padrasto de Joana, Leandro Silva, e de familiares deste que suspeitam do tio da menor, João Cipriano. Admitem que Joana possa ter servido de troca «para pagar uma possível dívida de droga».

Naquela localidade, onde se alvitra a hipótese de estar alguém por detrás do desaparecimento de Joana a impor silêncio à família sobre o paradeiro da menor, há quem se recorde de um carro vermelho de marca Porsche rondar a zona aos fins-de-semana e que nunca mais foi visto desde o estranho caso.

«A culpa é da PJ, que só começou a fazer exames periciais naquela casa uma semana após a miúda ter desaparecido. E ainda se queixa de que as provas foram destruídas. A investigação começou tarde de mais e por pressão da comunicação social», comentam populares.

Uma opinião partilhada por agentes da autoridade e por fontes ligadas ao processo. O caso Joana tem provocado tempestades e mudanças na PJ no Algarve. A certa altura, entraram em acção inspectores de Lisboa, pertencentes à Divisão Central de Combate ao Banditismo.

Em duas festas de Natal para crianças na Figueira, uma na escola e outra na sociedade recreativa, ninguém quis recordar Joana.

Uma senhora admitiu fazê-lo mas, como confessou ao DN, «para não estragar o ambiente e como outros pais terão pensado o mesmo, preferi não me manifestar».

Acrescentou que «este silêncio é também um sentimento de revolta contra a PJ pela falta de informação sobre o caso, apesar de o director nacional ter dito há cerca de dois meses que estaria para breve uma explicação. Muita gente tem colaborado e ajudado nas investigações e, afinal, nem nos dão qualquer satisfação».

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG