'Creio que Joana foi abusada sexualmente'

Paulo Cristóvão, um dos investigadores do caso Joana e um dos acusados da "tortura" da mãe da menina, narra em livro tudo o que descobriu. E adianta uma nova teoria para o crime: a criança teria sido morta para não denunciar os abusos de que seria vítima.

"Falta a prova cabal do abuso sexual, até porque falta o corpo. Mas acredito que a Joana foi alvo de abusos e que foi morta por causa disso. Estavam lá presentes todos os indícios. São as minhas convicções e assino por baixo". Três anos depois do alegado desaparecimento da criança que os media crismaram como "a pequena Joana", dois anos após o julgamento da sua mãe e do seu tio pelo homicídio e ocultação do cadáver da criança, um ano após a decisão do Supremo Tribunal que lhes reduziu a pena de 20 e 19 anos para 16, um dos investigadores destacados para o caso, Paulo Pereira Cristóvão, dá a conhecer em livro a sua tese sobre um dos casos que mais chocou o País - e que o desaparecimento de Madeleine McCann convoca irresistivelmente.


Um dos indícios mais fortes da convicção formada por Cristóvão de que a "história" contada aos seus colegas pelos Ciprianos para "justificar" a morte da criança - Joana teria surpreendido uma cena de sexo entre os dois e ameaçado contar ao padrasto - não seria a verdadeira é a reacção de João Cipriano quando o confrontou com a hipótese do abuso, já depois de o tio de Joana ter contado como cortou aos pedaços a sobrinha com "uma machadinha" e "um serrote".


Narra o ex-polícia, que na obra fala de si na terceira pessoa: "João levanta a cabeça, arregala os olhos e numa postura de indignação disse uma frase que ficaria para sempre na cabeça de Cristóvão. 'Eu não lhe fiz mal. Eu só a matei!'" Conclusão do autor, agora de viva voz, ao DN: "Isso para mim é um dos factores essenciais. Para João Cipriano, o matar ou esquartejar não é assim tão grave. O que ele não queria admitir era ter abusado da menina". Outros indícios, mencionados no livro, passam por manchas de "material biológico" não identificado (mas que os investigadores acreditaram ser esperma) na coberta e no colchão da cama da criança, assim como o facto de só terem encontrado umas cuecas da criança - e estas com material biológico que foi identificado como sendo de "um determinado indivíduo" (este facto, não mencionado no livro, foi "desconsiderado" na investigação por se pôr a hipótese de ter havido "transferência" do dito material) - e de esta evidenciar, no seu comportamento descrito, algumas das "marcas características" de uma criança abusada, como "introspecção", "maturidade anormal para a
idade", etc.


"Nestas coisas da investigação, as melhores hipóteses são as simples", diz Cristóvão, que desde o início do seu envolvimento no caso, de acordo com o que escreve no livro, sentiu que faltava uma peça do puzzle. Para além, claro, do corpo, que teria permitido saber tudo - ou quase tudo - e cujos pedaços João Cipriano garantiu terem sido levados, dentro de sacos de plástico, por Leandro, o companheiro de Leonor (e "padrasto" de Joana), e por Carlos, um amigo e colega deste no ferro-velho, para Espanha, onde o colocaram num carro que depois seria "compactado".


A simplicidade da hipótese inicial colocada pela polícia - o rapto - terá no entanto sido responsável pela "cegueira" perante os indícios existentes na casa. O que permitiu que, quase um mês após o início da investigação, a equipa de Cristóvão tenha encontrado, sob o sofá da sala e sob a cama da menina, as duas chinelas que, segundo as descrições, a criança calçaria quando "desapareceu". "É verdade, estavam lá as chinelas. A investigação criminal como se vê na série CSI não existe em lado nenhum. Isto tem tudo a ver com a primeira hipótese que é formulada - e seguem-se as pistas que têm a ver com essa hipótese. Uma coisa é quando se vai investigar um homicídio, outra é quando se vai investigar um desaparecimento. Acho compreensível à luz do enquadramento que os meus colegas de Faro não tivessem encontrado as chinelas. Até porque aquela casa era uma absoluta espelunca. E a partir de determinado momento a linha de investigação foi concentrada na procura do corpo."

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