Advogado de Gertrudes Nunes já foi presidente de câmara

O único advogado que conseguiu a absolvição de um arguido na Casa Pia é o de quem menos se fala. Ele prefere passar despercebido.

O advogado que conseguiu a absolvição de Gertrudes Nunes no processo Casa Pia já foi autarca. Manuel Gonçalves Silva, 72 anos, assumiu a presidência da Câmara Municipal de Elvas logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, tendo ficado à frente da comissão administrativa que preparou a realização das primeiras eleições, dois anos depois.

Este foi o seu único envolvimento na política activa. Nunca voltou à ribalta, não se candidatou a cargos públicos e nem lhe são conhecidas simpatias de natureza partidária. "Não é pessoa para se deixar enredar nessas guerras", diz quem o conhece.

Discreto, Manuel Gonçalves Silva recusa dar entrevistas. "Não gosta que falem dele", sublinha uma fonte próxima. Ao DN, ele diz que só irá quebrar o silêncio depois de o processo Casa Pia ter transitado em julgado.

A quente, após o colectivo de juízes ter absolvido Gertrudes Nunes quando os outros arguidos foram condenados a pesadas penas de prisão, falou em "meia vitória" - talvez já a contar com uma batalha no Tribunal da Relação de Lisboa. "[Gertrudes Nunes] conseguiu a absolvição, o que é justo, mas não houve literalmente nada na casa desta senhora [casa de Elvas]", disse.

Filho de advogado, Manuel Gonçalves Silva acaba de festejar os 50 anos da sua licenciatura em Direito. Inscreveu-se no conselho distrital de Lisboa (o conselho distrital de Évora só foi criado anos depois, em 1973, aquando da instalação do Tribunal da Relação de Évora). Um irmão, já falecido, fez também carreira na advocacia. E o gene passou para a geração seguinte: Manuel Silva partilha o escritório, um dos mais influentes de Elvas, com a sua única filha.

Também entre os pares prima pela discrição, apenas tendo aceitado cargos na década de 90 e por convite do então bastonário António Pires de Lima: foi membro do Conselho Superior da Ordem dos Advogados entre 1999 e 2001.

Primeiro em Campo Maior, depois em Elvas, o advogado de Gertrudes Nunes tornou-se conhecido como conservador do Registo Civil, função da qual se aposentou em 2000, passando a exercer a advocacia a tempo inteiro.

"A lealdade e a honestidade profissionais são suas companheiras inseparáveis", diz Caldeira Fernandes, amigo e colega de profissão. "Quem o engana uma vez, e é preciso ter sorte..., não o engana segunda." Rigoroso e exigente são outros dois adjectivos utilizados para descrever o homem que se viu envolvido no centro do processo mais mediático da justiça portuguesa.

Um colega de profissão, que pede o anonimato, não ficou surpreendido com a sua prestação no processo, quase sempre longe dos holofotes. "É uma pessoa de pouco ou nenhum espalhafato, e muito menos na sala de audiências, mas extremamente eficaz na preparação dos processos."

Manuel Gonçalves Silva estudou no Colégio Elvense, tendo feito os exames de liceu em Portalegre e Évora antes de seguir para Coimbra, onde concluiu o curso com 16 valores. Entre os seus colegas conta-se Figueiredo Dias (professor catedrático de Direito Penal e membro do núcleo fundador do PSD). Ainda em Coimbra, fez o estágio de advocacia com César Abranches, inscreveu-se na Ordem dos Advogados em 1962 e regressou a Elvas, cidade onde fez toda a sua carreira.

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