Unidos desfez-se ao fim de 50 anos

"Não eram propriamente casas bonitas. Mas os clientes vinham cá porque gostavam das pessoas e do serviço", diz Estrela Paixão, espreitando por entre as grades da fachada da pastelaria Doce e Pão, uma das cerca de 30 pertencentes à Unidos Panificadores que fechou portas este ano. Cristina Duarte, colega e funcionária de outro balcão desta emblemática panificadora de Setúbal, acrescenta: "As pessoas confiavam. Se eu dissesse que o bolo era de hoje acreditavam, mesmo que até nem fosse."


As três funcionárias, que olham desoladas para o estabelecimento encerrado, consideram a aposta em novos funcionários, sem relação com a clientela, mais um erro entre os muitos que dizem ter sido cometidos pela última direcção da fábrica. Acções que, a juntar a uma crise que já vinha de trás, foram decisivas para a unidade decretar falência no início deste ano, ao fim de dezenas de anos a abastecer todo o distrito de Setúbal de pão e bolos. Para trás ficam 10 anos de trabalho na fábrica, no caso de Estrela, de 34 no de Leone e sete de Cristina. E mais de 80 pessoas no desemprego, entre elas alguns como Joaquim Viana, que trabalhou na Unidos durante 48 anos e acaba de passar na rua.


José Graça, 53 anos, encarregado de expedição e distribuição na fábrica, não atribui tanto as culpas à gestão da última direcção, mas a todo um processo que já vinha a correr mal há muito tempo. Ao olhar para a unidade encerrada, já com ervas daninhas a crescerem entre o cimento da entrada, recorda também o dia em que a ASAE entrou pela fábrica dentro, às 3 da madrugada, e era ele o responsável de seviço. "Foi um dia muito complicado. Na zona de expedição estava tudo preparado para os fretes das padarias mas o fabrico parou por ali", conta, afirmando que é muito difícil cumprir todas as especificações da lei que a ASAE anda a fiscalizar. Por exemplo: acabar com os tabuleiros de madeira e os carrinhos de ferro ou impedir que os azulejos da parede estejam falhados, pois assim são uma fonte de contaminação. "Estivemos cinco dias fechados, e a partir daí nunca recuperámos."


Na sua opinião, a crise e a falta de poder de compra dos cidadãos não são fenómeno deste ano, nem derivam do aumento do preço dos combustíveis e das matérias-primas. "Já se sentia que as pessoas consumiam menos e há muito tempo que deixaram de tomar o pequeno-almoço nas pastelarias."

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