Mais votos em branco do que cruzes em José Manuel Coelho

"Fiz 300 quilómetros para vir dizer que não concordo com nada disto", escreveu um eleitor no boletim de voto nas anteriores legislativas. Uns prescindem da caneta; outros rabiscam um desenho ou uma frase. Mas cumprem o dever de cidadania tal e qual como os que inscrevem uma cruz no quadrado, pois parecem acreditar nos mecanismos da democracia representativa; não confiam é na lista dos representantes que lhes dão para optarem.

Mas os votos de protesto, para efeitos de maioria presidencial, não são considerados validamente expressos e não contam. E, para evitar a disputa interpretativa, em 1982 tornou-se preceito da Constituição: "Será eleito Presidente da República o candidato que obtiver mais de metade dos votos validamente expressos, não se considerando como tal os votos em branco."

Enquanto os brancos e nulos eram em número irrelevante, podia não se atender ao fenómeno. O pior é quando, como sucedeu no domingo, há mais votos brancos (191 167) do que cruzes em José Manuel Coelho (189 351); mais boletins nulos (86 545) que votantes em Defensor Moura (66 092).

O mais grave é que se, pelo menos, os brancos fossem contabilizados, pois não há qualquer margem de dúvidas de que se trata de uma opção e não de um engano (como pode suceder num voto nulo), teriam forçado uma segunda volta: a margem de Cavaco Silva acima do limiar dos 50% foi de 185 mil votos; os brancos chegaram aos 191 mil. Ninguém estranhe que continue a haver quem escreva no boletim: "Vão trabalhar, ladrões!" F. M.

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