Freeport: Referências a Sócrates eram apenas "rumores"

Despacho final mostra que relatos como o que dizia que Belmiro tinha dado 500 mil contos ao líder do PS eram boatos.

Não foi só o facto de ficarem 27 perguntas por fazer que fez cair a tese de envolvimento de José Sócrates no caso Freeport. É que, de acordo com o despacho, todas as onze testemunhas que assumiram ter conhecimento que "titulares de cargos públicos, incluindo o ministro do Ambiente, haviam recebido quantias em dinheiro", a propósito do Freeport, sabiam-no apenas "por ouvir dizer".

Segundo concluíram os procuradores do processo, os depoimentos destas testemunhas - que inclui, por exemplo, a ex-funcionária da Smith & Pedro Mónica Mendes e o ex-ministro de Pinto Balsemão e advogado da RJ McKinney Augusto Ferreira do Amaral - "não assentam em conhecimento directo dos factos, mas sim do que se ouviu dizer a pessoas determinadas".

O facto de, muitas vezes, não passarem apenas de "rumores públicos" retirou credibilidade aos relatos sobre eventuais luvas pagas ao primeiro-ministro.

Mesmo os arguidos que foram interceptados, ao telefone, a sugerirem que José Sócrates seria corrupto acabaram por justificar no inquérito tratar-se de um conhecimento superficial.

O antigo vice-presidente do ICN José Manuel Marques, por exemplo, foi interceptado numa conversa telefónica a dizer: "Não, eu é que lhe disse: a investigar isto, vai é bater à porta do Sócrates, foi quem aprovou o Freeport em tempo recorde, em três meses, e sei que o gajo pediu três milhões de contos e que lhe pagaram quinhentos mil. Isso é que eu sei."

Porém, quando inquirido pelo MP, José Manuel Marques garantiu que este comentário "era resultado de meros rumores, conversas públicas que circulavam na altura em Alcochete e das quais fez eco".

Nessa mesma conversa telefónica, havia também levantado a suspeita sobre o presidente do ICN, Carlos Guerra, dizendo que este "foi quem enriqueceu de repente, com hotéis e com o caraças [sic]". Algo também oriundo de "rumores".

Outro dos aspectos sobre luvas a Sócrates que os investigadores não deram crédito foi o testemunho de uma funcionária da DRAOT (Direcção Regional do Ambiente e Ordenamento do Território). Fernanda Guerreiro disse à PJ que corria a "notícia" de que "Belmiro de Azevedo tinha pago ao Sócrates 500 mil contos para o processo não avançar", apresentando como justificação o facto de este não querer "perder dinheiro" por o Freeport ser uma forte concorrência ao Centro Comercial Vasco da Gama (pertencente ao grupo Sonae), em Lisboa. Mais uma vez, não houve factos concretos, sendo justificado como algo que circulava pela DRAOT. Nada, portanto, que desse margem aos investigadores para acusarem Sócrates.

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