Spínola e Mobutu afastam Agostinho Neto e o MPLA

Perdidas as apostas feitas na Guiné-Bissau e em Moçambique, o Presidente Spínola chamou a si a descolonização de Angola. A estratégia passava pela criação de uma frente alargada que excluísse Agostinho Neto, então muito fragilizado pelas divisões no seio do MPLA. Belém esperava contar com Holden Roberto, Daniel Chipenda e Jonas Savimbi, para além, naturalmente, de Mobutu. Faltavam Kaunda, Nyerere, Ngouabi e Banda. As "forças vivas" de Angola também deveriam estar presentes. Mas o braço-de-ferro com o MFA derrotou o general, reforçando as desconfianças iniciais dos angolanos

O encontro que António de Spínola manteve no Sal (14 de Setembro de 1974) com o zairense Mobutu era o primeiro de uma série que o Palácio de Belém estava a preparar com os presidentes da Zâmbia (Kenneth Kaunda), Tanzânia (Julius Nyerere), Congo-Brazzaville (Marien Ngouabi) e Malawi (Kamuzu Banda).
Tudo à revelia do MFA e tendo como objectivo encontrar uma solução para Angola, numa altura em que Portugal já reconhecera a autoproclamada independência da Guiné-Bissau e fixara idêntica data para Moçambique.
Excluídos, nesta fase, estavam os contactos com a África do Sul e a Rodésia.
Um projecto, relativamente ao qual não era indiferente a situação que se vivia dentro do MPLA, profundamente dividido desde o congresso efectuado em meados de Agosto, na capital zambiana. Desde então, tanto Agostinho Neto, como Daniel Chipenda (Revolta do Leste) reivindicavam a liderança do movimento, tendo pelo meio os dois irmãos Pinto de Andrade (Revolta Activa). Com tudo o que isso significava a nível militar, sabendo-se que o fiel desta balança pendia para Chipenda, deixando Neto reduzido aos guerrilheiros da floresta dos Dembos.
É esta divisão que impulsiona Spínola, decidido a tomar conta do processo de descolonização de Angola. Sobretudo agora que estavam perdidas as apostas feitas na Guiné-Bissau e em Moçambique, territórios onde a aliança entre os movimentos de libertação e parte do MFA impusera uma solução, derrotando as teses federalistas e o sonho da commonwealth à portuguesa que o autor de Portugal e o Futuro chegara a preconizar.
E é isso que explica também a presença de dirigentes angolanos no Sal, trazidos por Mobutu, numa altura em que o presidente zairense tentava disputar a liderança deste processo aos seus homólogos da Zâmbia e da Tanzânia. Especialmente ao último. Julius Nyerere já apadrinhara o processo de Moçambique - ostentava esse trunfo - e não queria, naturalmente, perder mais uma oportunidade.
Mesmo que as suas relações com o MPLA o tivessem levado, momentaneamente, a interceder junto da República Popular da China para que apoiasse a FNLA e Holden Roberto, um gesto seguido pela Coreia do Norte e pela Roménia.
Nesse período, o envolvimento dos EUA e da URSS na questão angolana ainda é muito tímido.
Resta a actividade do MFA de Angola e de alguns militares portugueses que sob o impulso de Rosa Coutinho - recém-nomeado presidente da Junta Governativa - tudo vão fazendo para contrariar os planos de Spínola. A começar pela neutralização dos antigos gendarmes catangueses, que acabaram por cair para o lado do MPLA e de Agostinho Neto.
O que talvez explique também a ausência de Jonas Savimbi e da UNITA no encontro do Sal, objecto que parece ter sido de sucessivas pressões - Neto, Chipenda, Holden e MFA.
Sobrevivente nato, Savimbi preferiu esperar, só reaparecendo nas vésperas do encontro de Mombaça, no Quénia, a reunião que antecedeu os Acordos de Alvor, em Janeiro de 1975.
Mais dificil seria o envolvimento da Revolta Activa e dos irmãos Pinto de Andrade numa solução governativa para Angola que excluísse Agostinho Neto, mesmo que alguns investigadores norte-americanos e britânicos, insistam na tese de que o general Spínola e Mobutu contavam com eles.
Segundo John A. Marcum (The Angolan Revolution: Exile Politics and Guerrilla Warfare, MIT Press, 1978) e Norrie Macqueen (The Decolonization of Portuguese Africa, Longman, 1997), o que Spínola e Mobutu tentaram no Sal foi construir uma aliança entre Holden Roberto, Chipenda, Savimbi e as forças vivas de Angola (partidos recém-criados e associações sócio-económicas), que dividiriam, entre si, as doze pastas do futuro executivo de transição: seis mais seis. O que pressupõe que Holden (FNLA), Savimbi (UNITA) e Chipenda (MPLA) ficariam com duas cada. O que permitiria explicar igualmente as reuniões que o general Spínola chegou a ter em Lisboa com várias delegações de angolanos, entre os quais o antigo comissário europeu e actual chairman da TAP, Cardoso e Cunha, nas vésperas da manifestação da Maioria Silenciosa (28 de Setembro).
Isto enquanto Mobutu se desdobrava em contactos com os seus homólogos da África Austral.
Mas o braço-de-ferro entre Spínola e o MFA levaria à renúncia do general-presidente pouco depois - 30 de Setembro de 1974 - deixando o que fora articulado no Sal sem nenhuma sequência.
Salvo uma. De acordo com o norte--americano Kenneth Maxwell, a aliança que Holden Roberto, Jonas Savimbi e Daniel Chipenda tentaram ressuscitar nos dias que antecederam a proclamação da independência de Angola por parte do MPLA e de Agostinho Neto (11 de Novembro de 1975), teria tido a sua génese no encontro do Sal, efectuado um ano antes..

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