PIDE ignorava data certa do golpe

O 'número dois' da polícia política estava tranquilamente em Paris no 25 de Abril

O director do SDECE, Alexandre de Marenches, ao receber na sede dos serviços secretos franceses Barbieri Cardoso, ter-lhe-á dito: «Oh! Senhor inspector, parece-me que está a acontecer qualquer coisa no seu País.» O número dois da hierarquia da PIDE/DGS (alguns observadores sustentam que era quem, de facto, superintendia a polícia política), que se deslocara a Paris, terá respondido: «Oh! No meu País nunca acontece nada.» Otelo recorda esse episódio para demonstrar que «a PIDE foi perfeitamente apanhada de surpresa com o 25 de Abril».

Ninguém tem a estultícia de julgar que a polícia do regime ignorava as movimentações do MFA, mas com a prisão de 200 militares, no 16 de Março, sobretudo os spinolistas Almeida Bruno, Manuel Monge e Casanova Ferreira, «a PIDE terá ficado tranquilizada, porque o terror para o Governo era, de facto, o general», considera Otelo.

Na entrevista sobre A Fita do Tempo, Vítor Crespo sublinha que a planeada «diversão» de que o golpe era para depois do Dia do Trabalhador «teve algum efeito». Otelo concorda com essa análise, acrescentando que, então, previu que a PIDE ia «passar o mês de Abril a prender os comunistas, a extrema-esquerda, por causa do 1.º de Maio».

O ex-director da PIDE Cunha Passo (que também dirigia o gabinete nacional da Interpol e, estava, no 25 de Abril, numa reunião da NATO, em Bruxelas), reconhece, num depoimento prestado a Bruno Oliveira Santos, para o seu livro apologético Histórias Secretas da PIDE/DGS, que «pensávamos que estava programado só para Maio».

Garcia dos Santos também tem «a certeza absoluta que a PIDE sabia, antes do 25 de Abril, o que se estava a passar», evocando mesmo uma conversa com o subdirector- -geral. «Eu conhecia pessoalmente o Barbieri Cardoso e, em data que não posso precisar, estive numa festa de aniversário de uma filha dele, na casa que eles tinham em Linda-a-Pastora. E, a certa altura, o Barbieri Cardoso chama-me de parte e faz-me a seguinte pergunta: "Oh! Amadeu, parece que andam para aí umas reuniões de uns oficiais, uns capitães, qualquer coisa assim. Você sabe de alguma coisa?" Eu, que já estava até aqui acima, respondi: "Não. Nunca ouvi nada, nunca vi nada, nem sei de nada." [E o anfitrião rematou a conversa] "Se souber de alguma coisa, diga".»

Também Vítor Crespo pensa que a PIDE/DGS «estava por dentro do essencial da questão, isto é, de que havia uma organização a preparar-se para derrubar o regime». Além disso, «não me esqueço» do Alpoim Calvão «dentro da PIDE, na noite de 24.» Logo, aquele que era então apontado como o próximo director-geral da polícia política, «sabia tudo o que se ia passar e que era naquela noite», porque «já lá estava às 22.30, quando nós começámos» - e «esteve toda a noite na PIDE».

Outro inspector adjunto da DGS, Óscar Cardoso, no depoimento para o livro de Oliveira Santos, dá credibilidade a esta versão de Vítor Crespo, relatando mesmo que foi, com Alpoim Calvão, ao Arsenal da Marinha, para tentarem arranjar um morteiro de forma a calarem o Rádio Clube Português, que emitia os comunicados do MFA. «Sabe o que nos enganou? Estávamos convencidos de que o Spínola dominava a situação», conta Cardoso.

A versão de Otelo será menos consistente, quando diz - no que será corrigido por Crespo - que Alpoim Calvão só «às sete e tal da manhã», «quando há conhecimento de que as coisas estão em marcha, vá à sede da PIDE para ordenar a destruição de toda a documentação». De facto, as lareiras da sede da DGS, na Rua António Maria Cardoso - onde se interrogava e espancava, torturava e matava - ficaram chamuscadas de tanto papel ali queimado até ao dia 26 de Abril.

«Evidentemente que a PIDE sabia alguma coisa sobre o Movimento», reconhece Lopes Pires. «Podia não saber em pormenor, mas sabia o que se estava a passar - e baseio isto na minha experiência pessoal. Desde Janeiro que tinha, 24 horas por dia, um carro com três elementos da PIDE à porta. E como tinha o azar ou a sorte de morar por cima do marechal Costa Gomes, eles faziam serviço para os dois lados.» Portanto, a PIDE «sabia que havia qualquer coisa e quem eram os principais elementos», pelo que «não terá sido colhida de surpresa.»

É, de resto, o que sustenta o pide Abílio Pires, que à meia noite ainda estava na António Maria Cardoso. «Na noite anterior, os militares foram buscar os aparelhos de rádio ao Quartel de Cascais.

Se existiam dúvidas sobre a possibilidade de eclodir uma nova revolta, elas ficaram logo dissipadas», afirmaria.

Mas há um outro dado: a PIDE não gostaria de prender militares.
Sanches Osório conta que, no 16 de Março, houve «uma ordem de prisão do ministro Andrade e Silva, em relação a certos oficiais, dada ao major Silva Pais, à qual este respondeu: "Não. Esse não era o papel da PIDE. Prender militares é uma questão com os militares".»

Otelo, que viu no 16 de Março o capitão Farinha Ferreira ser algemado por Óscar Cardoso a uma árvore, quando saía de casa de Almeida Bruno - «os militares pediram-me para deitar a mão ao Almeida Bruno e aguentar as coisas enquanto eles não chegassem», confirma o pide no citado livro, onde também admite que o «mandaram ir prender o major Manuel Monge» -, questiona o seu colega da Pontinha: «Mas sabes isso de fonte segura?»

A fonte, revela Sanches Osório, «foi o próprio Silva Pais, porque, depois do 11 de Março, estive com ele na mesma cela, em Caxias, e, portanto, conversámos um bocado sobre estas coisas.» Aliás, «tive a sina de ter dois directores da PIDE presos comigo» - o outro era o coronel Homero de Matos.

Rendição

Costa Gomes terá facilitado uma fuga

«Ligue para a PIDE, para se render imediatamente», ordenava Spínola, que já tinha chegado à Pontinha e dava pancadas no braço do ministro do Interior. Moreira Baptista, lembra Sanches Osório, «não sabia o número de cor, tirou a agenda, depois não conseguia ler na agenda, tirou os óculos, deixou cair os óculos.» Para Vítor Crespo, «estava a fazer fita», mas Osório pensa que era mesmo «pânico».

A urgência justificava-se porque, àquela hora, já tinham sido assassinadas cinco pessoas com uma rajada disparada de uma janela da António Maria Cardoso, onde havia um arsenal que ia das metralhadoras israelitas Uzi às bazookas russas RPG-2.

E que posição tinham Spínola e Costa Gomes sobre a PIDE? Lopes Pires lembra que o «inspector Silva Coelho era o homem escolhido pelo general Spínola para ir chefiar a PIDE». Sanches Osório contrapõe que «tenho ideia de que quem queria manter a PIDE era o marechal Costa Gomes, mas restringindo-a a África». Dias depois, acrescenta, recebeu uma ordem deste «para ir com o ajudante dele à messe de Pedrouços, onde estava escondido o São José Lopes» [ex--director da PIDE em Angola] e levarem-no ao aeroporto, «para embarcar não sei para onde».

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