O dia em que Gromyko pediu calma a Portugal

Mário Neves foi o primeiro embaixador de Portugal na União Soviética após o 25 de Abril. Teve uma actividade intensa em Moscovo nos anos quentes de 75, quando o País vivia mergulhado numa revolução de tons vermelhos. Num mundo dividido entre duas superpotências - EUA e URSS -, as influências externas na situação portuguesa tiveram eco na capital do país dos sovietes. O DN revela hoje parte da «correspondência» do diplomata nesse ano decisivo, em que faz o relato dos seus encontros com os dirigentes do PCUS.Numa altura em que o futuro de Portugal era tema de conversa no Kremlin.

A instalação da Embaixada de Portugal na URSS, em 1974, na Rua Grokholsky, junto à Avenida da Paz, em Moscovo, foi rodeada de medidas de segurança apertadas. Mário Neves, primeiro embaixador português após o reatamento das relações entre os dois países, só possível devido ao 25 de Abril, conta que as instalações da embaixada foram inspeccionadas por Pedro Cardoso, o general responsável pela organização dos serviços de informações portugueses no pós-74.

«Para inspeccionar as condições de segurança» do edifício. Afinal, tratava- -se da capital do império vermelho e todos os cuidados eram poucos...
Embaixador de um país saído de uma revolução, Mário Neves esteve num posto-chave, numa altura em que a política portuguesa vivia na vertigem da «ameaça comunista», com lutas de poder internas, que se estendiam também às duas superpotências - Estados Unidos e União Soviética.
O seu primeiro testemunho já é conhecido, através do livro Missão em Moscovo (ed. Inquérito). Agora, o DN revela a «correspondência» do diplomata, enviada da capital soviética para Lisboa, em 1975, e que só este ano foi desclassificada.
Nas pastas do processo 330/URS, depositada no Arquivo Histórico- -Diplomático do MNE, são descritos, ao pormenor, todos os encontros com os líderes soviéticos, como Leonid Brejnev e Andrei Gromyko, ministro dos Negócios Estrangeiros. A par da análise das visitas a Moscovo do ministro dos Negócios Estrangeiros, Mário Soares, em Janeiro de 1975, e do presidente Costa Gomes, em Outubro de 75.
A «ameaça comunista», com ou sem apoio dos soviéticos, dominava a agenda em Lisboa e Washington. De Moscovo, Mário Neves vai repetidamente transmitindo, por carta, as garantias dos soviéticos de «não ingerência» na revolução portuguesa.
Em carta confidencial, o diplomata que foi jornalista relata um dos seus encontros com Gromyko. Foi a 1 de Abril de 1975.
Falaram longamente sobre o golpe de 11 de Março, e Neves abordou as notícias sobre as tentações intervencionistas de Moscovo - «notícias susceptíveis de criar perturbações» no «clima em que se insere na aproximação entre Portugal e a URSS». A resposta do ministro é a de sempre, na mesma linha do que o líder soviético, Leonid Brejnev, transmitiu, mais tarde, a Costa Gomes.
Excerto do relatório de Moscovo, datado de 5 de Abril:
«A URSS não tem qualquer intenção de interferir nos assuntos internos de Portugal, acerca de cujos destinos só o povo pode decidir. Gromyko acrescentou: - Tudo o que se disse em contrário não passa de mera especulação.
Disse ainda: - São campanha pagas e nós sabemos quem as paga!
Aconselhou-me, a seguir, a não me deixar impressionar pelas notícias ou comentários de imprensa internacional e prosseguiu dizendo: - Não perca a calma!»
Andrei Gromyko não deixou, porém, de manifestar, na reunião com o diplomata português, as suas simpatias pelo PCP, liderado por Álvaro Cunhal, que visitara Moscovo logo após o 25 de Abril.
«Somos um país socialista e, pela nossa experiência, estamos convencidos das vantagens do sistema que nos tem proporcionado melhores condições de vida. É, pois, natural, que vejamos com simpatia os esforços de outros povos para alcançarem uma vida melhor. Mas, decididamente, não queremos imiscuir-nos em assuntos que só aos próprios povos cumpre resolver.»
A exemplo das divisões na administração americana quanto a Portugal, também em Moscovo existiam divisões. Se Brejnev e Gromyko optaram pela moderação, o mesmo já não se pode dizer de Mikhail Suslov ou Boris Ponomarev. Suslov defendeu mesmo, num encontro com François Mitterrand, uma aliança entre o PCP de Cunhal e os esquerdistas.
O embaixador percebeu essas nuances numa conversa, a 4 de Junho de 1975, com Alexy Chitikov, do Soviete Supremo da URSS, testemunhada por uma delegação da Comissão Portuguesa para a Paz e Cooperação.
Chitikov alertava que Portugal tinha muitos «inimigos», desde logo os EUA. E fez um pedido à delegação portuguesa: É preciso «que os portugueses exerçam vigilância, vigilância, muita vigilância!».
Depois, veio a frase que fez soar as campainhas de alarme a Mário Neves: «Assumo a responsabilidade de lhes dizer que o nosso país não lhes faltará com a sua solidariedade e que está disposto a prestar-lhes a sua ajuda de qualquer tipo.» Podia não ser um prenúncio de qualquer tentação intervencionista, mas, anota o embaixador, foram as declarações «mais peremptórias quanto (...) ao processo revolucionário». O embaixador percebeu a mensagem.

Visita
Um diálogo muito discreto no Kremlin

O Presidente da República português fez uma visita à União Soviética em Outubro de 1975. O general Costa Gomes teve então uma longa conversa a sós com o líder soviético, Leonid Brejnev, no Kremlin.
Não há muitos relatos desse diálogo. No entanto, no livro Costa Gomes - O último Marechal (uma longa entrevista a Maria Manuela Cruzeiro) o general abre um pouco o jogo. Será que a URSS queria apoiar ou mesmo permitir a instauração de um regime comunista em Portugal? A resposta de Brejnev, segundo diz o general, foi categórica: «Não fazia parte das suas intenções ou, pelo menos, diziam que não fazia. O Brejnev, por exemplo, disse-me uma vez: "Nós sabemos muito bem que vocês são um povo maioritariamente católico e, portanto, não podem aceitar um regime como o nosso, onde a religião está, não de todo banida, mas muito atenuada".»

Notas de Moscovo
Mário Soares com Andrei Gromyko

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Mário Soares, esteve em Moscovo em Janeiro de 1975. O «apontamento» da conversa com o chefe da diplomacia soviética, Andrei Gromyko, está arquivado no processo 330/URS, no Arquivo Histórico-Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
De acordo com esse relato, o líder histórico do PS explicou a Gromyko, e ao pormenor, a situação política em Portugal.
«Duas forças não podem ser esquecidas: a Igreja, comprometida com o antigo regime mas com grande influência, e grupos económicos poderosos do tempo de Salazar e Caetano, onde há quem não queira jogar o jogo democrático», pode ler-se no texto.
E deixava claro que se opunha a uma radicalização da vida política portuguesa, justificando assim o lançamento de um programa económico especial para não «afastar capitais» e «tranquilizar as classes médias».
E a questão da ingerência dos soviéticos em Portugal? O ministro soviético repete a «cartilha» de que a URSS nada fará. É o povo que escolhe o regime em quer viver. «É o direito de cada povo ter simpatia ou antipatia por dado regime», resumiu Gromyko.
Resposta atribuída a Mário Soares no «apontamento»: «Era isso que esperávamos.»
«A União Soviética é um Estado amigo do povo português e desejaria ver em Portugal um país livre e independente», concluiu o governante soviético, já no final da conversa.
Os dois ministros analisaram ainda longamente o processo de descolonização.
Mário Soares deixou também muito claro que Portugal mantém os seus compromissos e que continuará na Aliança Atlântica.
A revolução portuguesa na Praça Vermelha
Na pasta das relações Portugal- -URSS há uma carta com apenas cinco linhas, datada de 7 de Maio de 1975 enviada da Embaixada de Portugal em Moscovo. «Tenho a honra que junto enviar a V.
Exa. fotocópia de notícia aqui divulgada pela agência TASS relativa às comemorações do 1.º de Maio e à saudação que, durante a parada tradicional na Praça Vermelha, foi dirigida às forças do progresso em Portugal.» E lá está o recorte da notícia em russo, acompanhado de competente tradução para português.
E sempre que algum jornal publicado em Moscovo fazia uma referência à revolução portuguesa, era certo que seguia uma comunicação para Lisboa. Foi o que aconteceu quando o jornal Estrela Vermelha, do Exército soviético, noticiou um discurso de Boris Ponomarev, do Bureau Político do Comité Central do PCUS, durante uma conferência dos trabalhadores da frente ideológica do Exército. «O sr. Ponomariev considerou, na parte do seu discurso dedicada à actividade dos partidos comunistas, que a "revolução democrática em Portugal demonstrou as crescentes possibilidades que, nas condições do desanuviamento, as forças democráticas têm na luta contra as ditaduras fascistas"» e que, em Portugal, a «situação continua a ser complexa».
Além disso, segundo Ponomarev, «ao Partido Comunista Português corresponde o importante papel no processo democrático do país», mantendo, dentro da linha marxista-leninista, a unidade com todas as correntes democráticas esquerdistas e principalmente com o Movimento das Forças Armadas». O objectivo era «evitar a restauração da situação antiga».
Brejnev e a palmada nas costas
O embaixador descreve, no seu livro Missão em Moscovo, o encontro em que conheceu Leonid Brejnev, numa cerimónia, no Palácio dos Congressos, para assinalar o aniversário da Revolução de Outubro.
O chefe do protocolo apresentava os embaixadores em Moscovo.
A descrição da cena é quase épica. «Ao chegar a minha vez, aquele alto funcionário deu conta da presença do embaixador de Portugal, fazendo-o com especial entoação, talvez por ser a primeira ocasião, na história da União Soviética, em que o nosso país aparecia oficialmente representado numa cerimónia pública de grande projecção.
O desfile deteve-se perante a expectativa do próprio secretário-geral [do PCUS], que, olhando-me com um sorriso aberto, exclamou: "Portugal!..." E manifestando a sua expressa satisfação pela presença do primeiro embaixador português na URSS, apertou-me a mão efusivamente e não resistiu a sublinhar a saudação com uma forte e significativa palmada num ombro.»
Mas na cerimónia o diplomata cruzou-se também com uma figura lendária do mundo comunista. Lá estava também, Dolores Ibárruri, La Passionaria, mítica dirigente do Partido Comunista Espanhol.
«Dirigiu-me palavras de entusiástica esperança quando lhe referi a minha reportagem de Badajoz [durante a guerra civil de Espanha], acentuando com um beijo a satisfação de me encontrar.
- Em breve se me deparará a oportunidade de voltar a Madrid...
Franco está no fim - acentuou com um sorriso de confiança.» E o «franquismo» caiu mesmo nesse ano.

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