Entrevista: Holden Roberto, Líder histórico da FNLA

«Enviei uma delegação da FNLA ao Sal»

Esteve ou não presente no encontro que os presidentes Spínola e Mobutu efectuaram na Ilha do Sal?

Não estive, mas enviei uma delegação da FNLA composta por Johnny Eduardo Pinnock e por Hendrick Vaal Neto. E foi também Daniel Chipenda. Foram todos no avião do Presidente Mobutu.

Porque não foi?

Achei que não era importante. Só enviei uma delegação da FNLA por respeito ao Presidente Mobutu e porque ele insistiu e pressionou até que lhe disse que sim, mas só porque ele pedia.

Porque é que estava tão renitente?

Porque depois de ter lido o livro do general Spínola [Portugal e o Futuro] fiquei com a impressão que ele não dava garantias nenhumas e que era muito ambíguo quanto à questão da independência.
Além disso, as nossas informações indicavam que o general Spínola não tinha tanto poder quanto isso. Conheciamos a situação em Portugal e sabíamos que tudo podia acontecer.

O que é que foi discutido no Sal?

A formação de um governo para Angola.

Com ou sem a participação do MPLA?

Com o Chipenda, que nessa altura estava em ruptura com o Agostinho Neto. Tinha havido aquele congresso de Lusaca...

E esteve presente Pinto de Andrade ou algum elemento da "Revolta Activa"?

Que eu saiba, não.

E Jonas Savimbi?

Esse é um caso curioso. Estava para ir, foi contactado, mas desapareceu.
Na véspera do encontro procuraram-no, procuraram-no, mas ninguém o encontrou.

O que é que sucedeu?

Acho que foi pressionado.

Por quem?

Militares e outras pessoas.

Mas quem, em concreto?

Não posso dizer...

Eram portugueses?

Não posso dizer.

Quem lideraria esse governo?

Não chegámos aí. Só estava em discussão a ideia, o princípio de um acordo sobre o governo. Depois se veria.

Seria o senhor? Seria Chipenda?

A minha ideia é que fosse Savimbi, mas não chegámos aí.

Quanto tempo teria a transição?

Também não se discutiu isso.

Como reagiu o Presidente Mobutu?

Vinha animado. Por acaso, até vinha muito animado. Acreditou no general. Spínola impressionou-o muito, talvez por os dois serem militares.

E a sua delegação? O que é que lhe transmitiu?

A minha delegação estava muito reticente. Diziam que Spínola só queria afastar o MPLA, só queria afastar os comunistas de Angola. Mas o encontro devia continuar em Lisboa.

Quando?

Depois do Sal.

Mas não continuaram...

O presidente Mobutu fez uma préssion terrible para que eu me encontrasse com Spínola. Mas fomos atrasando as coisas.
Como o Presidente Mobutu tinha de viajar para a Tanzânia, combinámos que partiríamos depois do seu regresso.

O que é que sucedeu?

Houve o golpe de Estado e Spínola foi afastado.

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