ENTREVISTA António Gonçalves Ribeiro, general

A história da ponte aérea por quem a tornou possível. O transporte de emergência que trouxe centenas de milhares de 'retornados' não estava previsto. Deve-se a este homem


No Verão de 1975 vem a Lisboa falar com o presidente Costa Gomes.
Com que estado de espírito?


Desesperado. Acompanhara todo o processo que, desde Abril de 74, tinha determinado a derrocada, a destruição do tecido económico e social de Angola. Via que se estava a preparar a desgraça.
É quando me apercebo de que a desgraça era completamente desgraçada, já com a guerra civil, que venho cá.

Como objectivo de preparar o êxodo...

Não queria tirar as pessoas de Angola, mas dar condições a quem queria vir. A partir do momento em que no dia 10 de Novembro saísse o último militar português não podia ficar o cais ou no aeroporto gente desesperada a rogar pragas a tudo o que eram militares portugueses, Portugal e o Estado português. Seria de todo inaceitável que lá ficasse um único cidadão que quisesse vir. Mas para isso tornava-se indispensável um incremento no transporte aéreo e marítimo.

Que acolhimento teve?

Muito fraco. Estava o célebre V Governo Provisório, o último a ser liderado por Vasco Gonçalves... Era difícil encontrar interlocutores credíveis, com capacidade de decisão política, de gizar soluções.

Diz no seu livro de memórias, A Vertigem da Descolonização, que o único interlocutor válido seria o presidente. Mas a descrição que faz do encontro com ele é no mínimo bizarra...

Fui ter com Costa Gomes acompanhado de um administrador da TAP, o engenheiro Norton, que disse não ser possível aumentar a capacidade de transporte. O presidente e os que estavam com ele consideraram: «Pronto, foi feito tudo aquilo que podia ser feito, é impossível fazer mais.» Alguém até disse: «Não há aviões. Eles que comeram a carne que roam os ossos.» Não aceitei essa impossibilidade.

E recoloquei a questão: tem de haver uma via, seja qual for.
O engenheiro referiu a capacidade de transporte aéreo estratégico dos americanos. Aí, levantei-me, procurei numa lista telefónica o número da embaixada americana e liguei para lá.
Costa Gomes mantém-se «calado e imperturbável»... E o então tenente-coronel Gonçalves Ribeiro sai, direito aos americanos, sem mandato de ninguém.
Só num quadro político-militar como aquele é que se compreende o que se passou... Costa Gomes sabia onde eu ia. Houve um deferimento tácito, aderiu pelo silêncio. Como o embaixador Frank Carlucci não estava, falei com o número dois. Fui ter a casa dele, à hora do jantar ...
Ele diz que os EUA ajudarão, desde que haja uma carta do PR.

Que o senhor redige... Do ponto de vista da hierarquia militar e do Estado, nada faz sentido.

Tudo isso estava transponível e transpunha-se. Havia uma ausência de liderança, de referências... As referências que existem normalmente em qualquer sociedade organizada, incluindo a do bom senso, estavam pulverizadas. E eu, falando por mim, senti que, se fosse preciso, iria às últimas consequências.

Que acha que teria sucedido se não tivesse feito o que fez?

É-me difícil imaginar. Não sou de puxar os galões, mas está-me a perguntar, tenho de responder.
Houve em todo o caso civis deixados para trás: no Huambo, por exemplo.
Isso porque o dispositivo militar português foi contraindo e até muito tarde houve a preocupação de nunca incentivar a saída dos portugueses. Tentámos não dar sinais de alarme: as pessoas faziam o estudo da situação envolvente, e decidiam. Mas quando as coisas começam a aquecer, percebe-se que aquela gente tem de sair...

Não aqueceram de um tempo para o outro... Portugal não foi irrealista em manter a sua parte do Acordo de Alvor, a independência a 11 de Novembro?

Uma descolonização numa revolução é um casamento contranatura! Aqui havia a campanha «Nem mais um soldado para África», lá os movimentos tinham armas na mão. E ninguém queria adiar a descolonização, nem poderia fazê-lo se quisesse. As famílias queriam os soldados de volta, diziam: vão apertar o gatilho contra quem, porquê? Era uma pergunta sem resposta!
«Não gosto de palmadas nas costas»

Conta no livro que disse a um comandante de tropas: «Portugal, ao fim de séculos de permanência em Angola, não pode sair com as calças descidas até aos calcanhares. No mínimo, há que agarrá-las pelos joelhos.» Afinal, por onde estavam as calças?

Muito próximo dos calcanhares. Não foi uma saída bonita. Mas com as calças a arrastar pelo chão era se a certa altura batêssemos com a porta e disséssemos: «Fica quem fica, não temos nada com isso.»
Ofereceram-lhe o cargo de último alto- -comissário de Angola e a patente de general . Recusou... [Levaria 14 anos a chegar a general]
Porque estava concentrado na solução para aquelas gentes, na organização daquela saída. Foi só isso.
O cargo foi para o almirante Leonel Cardoso, que no discurso de 10 de Novembro diz: «Portugal parte sem sentimentos de culpa e sem ter de que se envergonhar..Não foi bem assim...
Creio que quando ele fala de sentimento de culpa não é em relação à forma como a descolonização foi feita, mas ao futuro de Angola.
Repare: foram pessoas, não instituições, que a certa altura tiveram de lidar com um problema de dimensão histórica. As coisas foram feitas conforme podiam ser feitas...

Mas sem vergonha?

[Silêncio] Estou a pôr-me naqueles últimos momentos lá. Já não havia gente nossa a berrar. Quem quisesse, e não só portugueses, também angolanos, tinha partido. O presente era o preparado pelos filhos de Angola, o futuro o que quisessem.
No seu livro, narra a cena de um casal de meia-idade, com um cão, que está para embarcar no último avião que sai do Huambo.

O homem diz que não vai, não quer deixar o cão. É um símbolo?

Sim. Aquele homem naquele momento simbolizou o que se passou com todos os portugueses que consideravam aquele país a sua terra.
Agarrou-se ao pretexto do cão para dizer «eu não vou». Porque a maior parte deles não queria vir: queriam lá ficar, disponíveis para ajudar a progredir Angola independente. Toda a gente saiu forçada.

Continuou ligado à questão, como alto--comissário para os Desalojados.
Que balanço faz, trinta anos depois?

Não foi preciso esperar tanto. O sentimento geral, cinco, dez anos depois, era de integração completa: já não se ouvia falar de retornados. Sabe, os que vieram eram diferentes dos de cá.
Vinham de um lugar onde não só havia mais espaço e mais silêncio como mais liberdade, onde a aventura ainda era possível. Eram mais dinâmicos. Foram capazes de dar a volta por cima ao seu drama pessoal. A sua tragédia acabou por ser, no colectivo, uma história de sucesso.

Crê que o seu papel nessa história foi suficientemente reconhecido?

Que se deve entender por ser reconhecido? Entendi que devia fazer algo e fi-lo. Nunca me passou pela cabeça cobrar dividendos de ordem social, económica ou política. A memória dos homens é curta...

Sente-se injustiçado?

[silêncio] Já me têm dito que o problema não teve a dimensão que podia ter tido. E um ou outro dá-me uma palmada nas costas.
Ficam-se por aí. Mas só se me apanharem desprevenido: não gosto de palmadas nas costas.

Perfil

António Gonçalves Ribeiro
General

Ele não quis deixar ninguém para trás
Colocado em Angola desde 1972, será secretário de Estado no governo provisório da (ainda) colónia e membro da delegação portuguesa às negociações que em Alvor reconhecem no MPLA, FNLA e UNITA «os únicos legítimos representantes do povo angolano», e acordam os termos da independência. É como secretário geral do Alto-Comissariado de Angola (declina a «honra» de ser o último comissário) que vem a Lisboa falar com Costa Gomes. Alto-Comissário para os Desalojados de 1976 a 79, termina a carreira, em 2002, como director-geral de Política de Defesa Nacional.

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