A DIANA ESPANHOLA

Letizia e Filipe casaram ontem. A maior pompa do mundo temperada com a descontracção espanhola. Tapas, salero, zarzuela no Palácio Real. Dizem que Sofia terá engolido alguns sapos para aceitar esta nora plebeia futura rainha de Espanha. Mas Letizia é telegénica.


E agora, sobretudo, fotogénica, já que com o seu futuro papel não pode manter o tom afirmativo da televisão.


Letizia é bonita e preexistia. Circulava no imaginário espanhol depois da desgraça do Prestige. Tinha conseguido empatia pública com aquele ar de repórter dinâmica no Inverno galego. O crude comia as praias e Letizia, de microfone na mão, mostrava-se e mostrava a tragédia. Do crude aos estúdios da TVE, como pivot do principal jornal espanhol, terá sido um pulo que as más-línguas dizem ter sido ajudado por mão real. Esta cara é hoje princesa.


A monarquia espanhola, apesar de bem mais descontraída que a inglesa, estava a precisar deste romance que lhe desse um ar mais mundano e popular. Letizia aprendeu nos dias que se sucederam ao anúncio do noivado a jogar um tímido sorriso e a inibir-se de dar grande expansão pública de sentimentos.


Há no olhar semitímido da nova Letizia qualquer coisa do olhar da primeira Diana de Gales. A timidez é uma arma de arremesso.


Usa-se a timidez para se convencer o outro de que se pode ser frágil e comandado. Mas o verdadeiro tímido é um manipulador.


No limite é ele quem controla a partir do seu lugar frágil.


Diana foi exímia nesta estratégia. E o pobre Carlos foi ficando cada vez mais isolado num casulo que se ia apertando.


Felipe não é Carlos. É divertido, simpático e não tem aquele ar emproado e enfadonho de Carlos. Mas será que Letizia conseguirá resistir à tentação de se tornar numa versão ibérica da rainha dos corações? Tem todos os condimentos. Vai formosa e muito segura.


Na conservadora mas aberta corte espanhola, Letizia poderá produzir um rasgão de consequências imprevisíveis.


A monarquia é no século XXI, se quisermos ser fundamentais ( e não necessariamente fundamentalistas), um absurdo. E um absurdo que se organiza como um paradoxo (ou melhor, um oxímoro, uma expressão contraditória na sua formulação) se pensarmos nas monarquias democráticas. A monarquia pode ser democrática na sua prática, mas é absolutamente totalitária (autocrática) na sua essência, na sua genealogia e natureza. E no princípio da exclusão do outro que a organiza. Ela só fará sentido enquanto sistema simbólico de auto-representação, se conseguir apresentar-se na sua auto-suficiência sacrificial. Como um sistema que, apesar do anacronismo da sua natureza, pode conter uma dimensão de serviço público. Mas para isso, para se ser rei apesar de tudo e apesar do tempo, é necessário observar um conjunto de regras e sacrifícios. E uma delas é a de que este sistema só tem legitimidade na sua endogamia. Príncipes e Princesas deixam de fazer sentido e transformam-se nos mais bizarros objectos contemporâneos se casarem com quem não o é.


Há um conjunto de mordomias e benesses no facto de se ser rei ou príncipe, mas isso exige um contraponto sacrificial. As monarquias abertas e modernas não fazem sentido. São a negação de si próprias.


Esperemos que Letizia e Filipe possam ser felizes. E que o fantasma de Diana seja só um fantasma.

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