Uma cerimónia austera e repleta de simbologia

Na catedral, o rígido protocolo não impediu a troca de olhares e gestos entre os noivos.

Durante as quase quatro horas que durou o acto da boda real, transmitido em mais de uma centena de países pelas TV e visto por mais de mil milhões de pessoas, Felipe de Borbón, de 36 anos, e sua esposa, de 31, princesa das Astúrias e futura rainha, não esconderam a emoção nem deixaram de trocar olhares, gestos e cumplicidades de amor e afecto nada protocolacares. Mostraram que foi um casamento por amor, como Felipe sempre exigiu, mas também de resposta aos interesses de Estado e de sintonia e proximidade com os cidadãos. Um acontecimento institucional e mediático, apenas desluzido pela chuva torrencial que caiu sobre Madrid e que, simbolicamente, começou um minuto antes de a noiva se dirigir do Palácio Real para a Catedral de Almudena.

Minutos depois de o noivo e de o resto dos convidados terem entrado no templo - sem chuva -, dá-se uma improvisação no protocolo externo: Letizia , a mais esperada, teve que fazer o trajecto de 200 metros de passadeira vermelha que a separavam da catedral num Rolls-Royce, e não a pé, como estava previsto.

Aclamada pela multidão mais resistente, que a esperava nas ruas, sob um forte aguaceiro, Letizia entrou na igreja «espetacular, guapíssima», como diziam os populares entrevistados pelas televisões.

O vestido de seda natural, branco-marfim, com gola de chaminé, cauda de 4,5 metros e bordado com motivos heráldicos, desenhado pelo prestigiado modista espanhol Pertegaz, aproximavam-na, segundo os comentadores, de uma princesa de um conto de fadas medieval. Apesar disto, nem a sumptuosidade do traje conseguiu disfarçar os quilos que Letizia tem perdido.

No interior de Almudena, pouco antes das 12.00, após o príncipe pedir o consentimento do pai e Rei de Espanha, como indica a tradição monárquica, os noivos pronunciavam o «sim, quero» e prometiam-se amor eterno, perante o arcebispo, cardeal de Madrid e presidente da Conferência Episcopal, Antonio Maria Rouco, que oficiou a cerimónia religiosa.

Ao som do allegro, do concerto para órgão e orquestra Opus 7 número 3 de Handel, os noivos trocaram as alianças e receberam as arras - 13 moedas de ouro, símbolo tradicional da boa economia do lar. Como testemunhas, a família real, os máximos representantes do Estado espanhol, dos partidos políticos, da sociedade, membros de mais de 30 casas reais, entre elas a portuguesa, e de uns quinze chefes de Estado, como o português Jorge Sampaio ou o histórico Nelson Mandela.

Fora da catedral, assistiam mais de mil milhões de telespectadores de todo o mundo que seguiam o acto pela TV, ou de meia Espanha, que quase paralisou durante o casamento. Uma simbiose de tradição e de modernidade, que marca o início e sintonia de uma nova etapa da monarquia espanhola.

A cerimónia religiosa, com um guião litúrgico austero, repleto de simbologia, não deixou esconder, no entanto, a emoção dos noivos. Além dos textos litúrgicos, o cenário foi acentuado pela música e pela transmissão televisiva que não escondeu alguns pormenores anedóticos - que também os houve -, e , de modo especial, a sensibilidade emotiva e cúmplice com que os Reis Juan Carlos e Sofia viveram a cerimónia.

A chuva terminou um pouco antes de os recém-casados saírem - com a família real em peso -, à varanda do Palácio do Oriente, para saudar os cidadãos. Perante o tradicional beijo - que não passou de um beijo na face -, os madrilenos aplaudiam na praça, numa altura em que, finalmente, começava a despontar o sol.

Convidados

Os portugueses e outros mexericos

À última hora, Maria José Ritta desistiu do duvidoso vestido verde-ervilha e optou por um conjunto salmão; Jorge Sampaio surgiu na «foto de família» da boda mesmo ao centro, ao lado de Juan Carlos; Jorge Arnoso, José Manuel Espírito-Santo, Ricardo Salgado e Francisco Cruz Martins foram os amigos portugueses convidados pelo rei, e dois Joões - Brito e Cunha e Pereira Coutinho - pelo príncipe.

Todos com as respectivas mulheres. A rainha da Holanda faltou à boda. Voltou ao seu país na tarde do mesmo dia em que chegou.

Ernst de Hanôver, o marido de Carolina do Mónaco, também desapareceu.

Aguentou até ao jantar mas não acompanhou a mulher à catedral nem ao almoço. Até ao fecho desta edição, ninguém sabia dele.

Dão-se alvíssaras.

Votos

«Sou feliz, casei-me com a mulher que amo»

«Soy un hombre feliz, me he casado con la mujer que amo.» Foi com estas palavras que o príncipe Felipe deu início ao almoço celebrado ontem no Palácio Real. Durante o brinde, o herdeiro do trono espanhol não escondeu a sua emoção. «Não posso nem quero escondê-lo, imagino que salte à vista: sou um homem feliz. E tenho a certeza de que esta condição vem da emoção de ver e protagonizar a realização de um desejo: casei-me com a mulher que amo.»

Ao seu discurso, o primeiro depois de casado, não fugiu o sentido de Estado. «Responsabilidade», «trabalho» e «compromisso pessoal e institucional para com Espanha» foram outras das palavras ouvidas.

Mesmo porque Felipe sabe que o seu casamento está longe de lhe pertencer apenas a si. «O compromisso que Letizia e eu assumimos hoje transcende o meramente pessoal. Desde muito pequeno que tomei consciência das minhas responsabilidades. A lealdade ao Rei e o sentido de dever guiaram a minha vida».

O mesmo foi lembrado pelo seu pai, Juan Carlos. O Rei pediu aos noivos que «pensassem sempre em Espanha», «com amor e devoção», e que dedicassem «os seus esforços aos espanhóis, para unir as suas esperanças e compartilhar as suas ilusões». E para a princesa das Astúrias: «Querida Letizia , recebemos-te de braços abertos e com o maior carinho na nossa família. A Rainha e eu desejamos que tenham uma vida repleta de felicidade e entrega mútua.» O casamento é «um símbolo de esperança, de continuidade e de estabilidade da monarquia». Perante os 1700 convidados do banquete, Juan Carlos não se cansou de expressar a sua felicidade, «sempre difícil de conter, quer como pai, quer como Rei».

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A manchete deste dia 19 de setembro de 1923 fazia-se de notícias do país vizinho: a ditadura em Espanha. "Primo de Rivera propõe-se governar três meses", noticiava o DN, acrescentando que, "findo esse prazo, verá se a opinião pública o anima a organizar ministério constitucional". Explicava este jornal então que "o partido conservador condena o movimento e protesta contra as acusações que lhe são feitas pelo ditador".