Solidariedade e ausências sentidas

Passaram seis meses. Aos poucos assistimos ao desaparecimento das notícias sobre o tsunami ocorrido no dia 26 de Dezembro de 2004, em plena época natalícia. Desapareceram das primeiras páginas dos jornais e dos noticiários. Desapareceram das conversas de rua e de café. Mas seis meses depois importa recordar, ou pelo menos alertar, que as consequências da devastação provocada pelo maremoto permanecem bem reais nas vidas dos sobreviventes. Importa também informar que ao nível da ajuda humanitária muito tem sido feito e conseguido nestes últimos seis meses.

Apesar do longo caminho já percorrido, muito há ainda por fazer. Alguns dos piores cenários previstos - subnutrição e epidemias - não se registaram, pelo menos nas proporções inicialmente previstas e temidas. Isto não quer dizer que tudo voltou ao normal e que a missão de ajuda humanitária está concluída. Infelizmente, não é esse o caso. Encontramo-nos na fase de reabilitação e desenvolvimento, o que implica uma intervenção a longo prazo. Refazer o tecido social perdido, aliviar o stress pós-traumático, restabelecer infra-estruturas sociossanitárias, reconstruir alojamentos, apoiar iniciativas de microcrédito a quem tudo perdeu, etc., não se faz em seis meses.

Como cidadã e representante de uma organização não governamental com projectos a decorrer no Sri Lanka, desde o dia 29 de Dezembro de 2004, devo confessar que é perturbador verificar que poucos profissionais da área da saúde continuam disponíveis para ir para o terreno, que as nossas autoridades governamentais contribuem pouco para os meios financeiros e humanos necessários e que o trabalho de reabilitação e desenvolvimento das zonas afectadas já não atrai audiências...

No calor do momento, todos fazem promessas. Apenas seis meses depois, constatamos que muitos dos apoios prometidos estão em falta e que da parte da comunicação social e da sociedade civil houve um distanciamento relativamente ao evoluir do período pós-emergência. Parece que passámos da exaustão da notícia à ausência da notícia.

É fundamental que todos mantenhamos o interesse no destino dos países mais afectados, nas comunidades destruídas, nos sobreviventes e nos familiares das vítimas. Não numa perspectiva de mediatismo ou de "culto da desgraça", mas num sentido construtivo. Os intervenientes na onda de solidariedade (organizações humanitárias, população em geral, comunicação social, poder político, doadores e financiadores) têm diferentes níveis de responsabilidade no restabelecer da normalidade das zonas afectadas, mas seria benéfico haver um compromisso entre a resposta solidária, imediata e sem precedentes e a desmobilização gerada poucas semanas depois que, inevitavelmente, conduz ao desinteresse. Perdemos, assim, uma boa oportunidade para o diálogo entre as várias partes.

Mobilizámo-nos no momento da tragédia.

Mobilizemo-nos também agora neste processo de reconstrução. Demora tempo e requer interesse continuado, mas a causa merece-o. Muitas organizações de ajuda humanitária continuam a sua intervenção nos países e regiões afectadas pelo tsunami. Um trabalho que não hesitamos em divulgar junto da sociedade civil. Gostaríamos por isso que os restantes estivessem atentos e interessados também a longo prazo; atentos às pequenas, mas significativas vitórias no reconstruir de vidas, atentos às necessidades financeiras e materiais de quem está no terreno. Partilhem esses momentos connosco, não deixando que o período pós-tsunami seja notícia de "arquivo morto"!

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