O tsunami existiu?

Ainda se vive uma crise humanitária no Sri Lanka seis meses depois do tsunami? Há seis meses, milhões de pessoas viram na Ásia a vida alterada por um dos fenómenos naturais mais devastadores da história recente da humanidade. Subitamente, depois de um violento sismo ao largo da ilha indonésia de Samatra toda a região da costa próxima, e em especial na região de Banda Aceh, foi imediatamente varrida por um maremoto que, horas depois, foi destruindo as áreas costeiras da região com especial impacto nas costas do Sri Lanka.

Nessa altura o mundo estupefacto foi recebendo momento a momento a contabilidade crescente de vítimas e da destruição de infra-estruturas e do tecido social das áreas afectadas. A atenção, focada inicialmente nos grandes resorts de férias da Tailândia, onde muitos turistas foram também vítimas da força das águas e das mal preparadas estruturas de resposta a catástrofes, foi rapidamente dirigida para a Indonésia e Sri Lanka, onde o número de vítimas, por vezes famílias inteiras, crescia todos os dias e a crise humanitária se aprofundava dado os limitados recursos disponíveis nessas áreas. Dezenas de milhares, que logo se tornaram centenas de milhares, de mortos e mais de cinco milhões de deslocados, muitos deles feridos, estavam sem abrigo, água, electricidade e assistência médica e havia o perigo de se poder viver rupturas de alimentos. Esta situação foi levada a casa de cada um, por todo o mundo, através da rádio e televisão e criou uma onda de solidariedade universal. Os apelos dos organismos das Nações Unidas e de organizações humanitárias não governamentais, assim como das agências de cooperação e ajuda bilaterais dos países industrializados, foram respondidos, a nível institucional e individual.

Milhões de dólares de ajuda, seja em dinheiro seja em espécie, foram disponibilizados de uma forma sem paralelo, o que levou, por exemplo, a que, ao fim de três semanas de doações, os Médicos sem Fronteiras declarassem encerrada a sua mobilização de fundos - tinham já 40 milhões de dólares. Em Portugal houve a mesma resposta solidária da população e as campanhas de angariação de fundos multiplicaram-se, desde as grandes campanhas, como a que foi apadrinhada pela RTP, até à mobilização de fundos e de recursos a nível de autarquias e de cidadãos. A onda de solidariedade era então avassaladora. Com o apoio da cooperação portuguesa, três dias depois do maremoto, havia equipas de ONG portuguesas, entre elas Médicosdo Mundo - Portugal, a dirigirem-se para o Sri Lanka e, logo a seguir, uma equipa de médicos e de um hospital de campanha portugueses foi para a Indonésia.

Lentamente, à medida que o acontecimento deixou de envolver grandes contagens de corpos e de dramas humanos colectivos e individuais, foi ficando afastado das páginas dos jornais e das televisões. E verificou-se que, hoje, seis meses depois, muito pouco se fala da evolução da situação nas áreas mais afectadas.

Será que a ajuda foi convenientemente utilizada? Sabe-se que, nalguns casos, tem havido problemas de distribuição por parte de entidades governamentais e que no Sri Lanka as dificuldades levantadas no processo de desalfandegamento de materiais doados tornaram-se tão grandes que deixou de ser viável, ao fim do primeiro mês, enviar ajudas materiais, tendo-se optado por adquirir localmente os produtos necessários. Contudo, no geral, as ajudas têm estado a ser direccionadas para as populações carenciadas e a acção das ONG e de organismos das Nações Unidas ajudou a mitigar os efeitos da devastação material e humana.

Enquanto as doações iniciais se orientaram para a resposta de emergência, hoje continua a haver a necessidade de manter um nível de assistência ao desenvolvimento elevado, pois estima-se que em toda a região mais de quatro milhões de pessoas terão perdido os seus meios de subsistência. Uma das consequências pouco divulgadas do maremoto foi o enorme impacto que ele teve nas mulheres, mais que nos homens. Em algumas regiões, 75% dos mortos foram mulheres e a taxa de sobreviventes masculinos para femininos foi, em média, de três para um. Há, portanto, a necessidade de que, nas acções subsequentes de assistência e apoio ao desenvolvimento na região, se tenha particular atenção para as necessidades específicas das mulheres.

Ao reflectirmos sobre a situação ao final destes seis meses, é claro que ainda é necessário manter a ajuda aos países mais afectados pelo maremoto, contudo, sem esquecer que, segundo os órgãos das Nações Unidas, há pelo menos dois biliões de seres humanos em todas as regiões do planeta que são vulneráveis a situações de crise originadas tanto por desastres naturais como pelo maremoto de 26 de Dezembro de 2004, como as causadas pelo homem, como a situação de centenas de milhares de refugiados do Sudão e que, para eles, é necessário não baixar os braços e guardar a solidariedade só para outra grande crise.

Médicos do Mundo - Portugal está, desde o início, no Sri Lanka, e a pedido do próprio Governo do país, está numa área de difícil acesso a organizações humanitárias, a região da península de Jaffna, onde houve estragos humanos e materiais sobrepostos aos impactos de uma situação de guerra de duas décadas. Uma equipa de psicólogos e um enfermeiro estão também na região central da costa oeste que foi duramente atingida, a região de Batticaloa, onde prestam assistência psicossocial. Milhares de consultas médicas foram realizadas e no hospital de Point Pedro, em Jaffna, tem sido dado apoio contínuo à recuperação das infra-estruturas degradadas do hospital. Estas acções necessitam ter continuidade numa perspectiva de ajuda ao desenvolvimento e para isso é necessário que continue a haver ajudas desinteressadas de pessoas individuais e colectivas. Mas é também necessário que os hospitais e serviços de saúde permitam que médicos e enfermeiros portugueses possam participar nas acções de assistência humanitária sem constrangimentos excessivos e olhando para essa participação como uma mais-valia para as suas próprias instituições e um dever de responsabilidade corporativa.

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