Tailândia desespera por turistas

Com a reconstrução pós-tsunami em curso é urgente trazer de volta os estrangeiros

Dois meses e meio depois da tragédia, a praia de Patong, em Phuket, fervilha de agitação. Num vaivém permanente, centenas de trabalhadores esforçam-se por apagar os sinais da passagem das águas. Alguns edifícios estão irremediavelmente destruídos, mas a maioria apresenta já novas pinturas coloridas e telhados acabados de montar. Palmeiras jovens alinham-se perfeitamente ao longo da avenida e as areias da praia estão limpas, salpicadas de cadeiras de pano e guarda-sóis novos em folha.

"A praia nunca esteve tão bonita", comenta Tipsuda, a nossa guia tailandesa, baptizada de Olga por um dos muitos grupos de turistas portugueses que já acompanhou. "O tsunami deixou a água mais pura e levou os detritos da areia", explica.

A praia está bonita. Mas quase não se vislumbram estrangeiros. E estamos na época alta do turis-mo na ilha. O cenário é igual em quase todas as paragens da região: hotéis de "cara lavada", praias limpas e arrumadas, serviços a funcionar em pleno e comerciantes de banca montada, prontos a vender aos estrangeiros a fru-ta fresca e o artesanato da região. Mas tudo em suspenso, à espera que o mundo se lembre que este é um destino de férias e não apenas o cenário de uma catástrofe natural.

Phuket, Khao Lak e outras localidades do Sul da Tailândia tiveram a sua quota-parte de estragos no tsunami de 26 de Dezembro. Mas as consequências da tragédia teriam sido incomparavelmente menores do que as de outros países, como o Sri Lanka, não fosse o número desproporcionado de baixas estrangeiras, mais de metade dos cerca de 8400 mortos e desaparecidos.

"O tsunami veio muito cedo, às oito horas da manhã", conta Olga. "A essa hora poucos tailandeses estão na praia. Não houve muitas vítimas entre a população. Quem sofreu mais foram os turistas que já aqui estavam."

A publicidade negativa causada por estas mortes, potencialmente tão devastadora como as próprias ondas gigantes, já se faz sentir nos números. Em 2003, um ano normal, cerca de 9,36 milhões de pessoas visitaram Phuket, Krabi, Phang Nga, Trang, Satun e Ranong, as seis províncias da região de Andaman, no Sul do país. Estes visitantes geraram receitas superiores a 2,5 mil milhões de dólares, cerca de 17,5 por cento do total nacional dos rendimentos com o turismo.

Depois do tsunami, mais de 80 por cento dos hotéis que continuavam operacionais tiveram desistências de reservas. Os operadores turísticos cancelaram centenas de voos charter , que teriam transportado para a região mais de 30 mil pessoas. Actualmente, as taxas de ocupação hoteleira oscilam entre os 10 e os 20 por cento quando, num ano normal, rondariam os 90 por cento, principalmente nos hotéis próximos da praia.

CORRIDA CONTRA O TEMPO. As consequências já se fazem sentir. Em grande escala: "Nos últimos meses, dezenas de milhares de pessoas perderam os trabalhos ou estão parcialmente desempregadas", assumiu Wichit Na Ranong, presidente do Conselho de Tu-rismo da Tailândia. "Não quero pensar no que poderá acontecer se uma situação destas se mantiver por alguns meses."

A situação na ilha de Phuket, tradicionalmente o principal local de acolhimento de turistas na região de Andaman, é sintomática da crise: cerca de 70 por cento dos 600 mil habitantes vivem directa ou indirectamente do turismo, mas os visitantes estrangeiros, pelos padrões habituais, são quase inexistentes.

As autoridades tailandesas fazem o que podem para inverter esta tendência. Foram criados nove subcomités para os programas de alívio dos tsunamis, que tentam minimizar os efeitos da crise e atrair de volta os visitantes. Os empreendimentos turísticos estão a beneficiar de atenuantes fiscais e de condições vantajosas no acesso a empréstimos da banca.

Estas medidas já permitiram, nomeadamente, salvar o Phuket FantaSea, um dos maiores parques temáticos do país, com mais de 2000 empregados, que enfrentava a falência devido aos estragos do tsunami e à quebra radical no número de visitantes.

Aos operadores turísticos estrangeiros, nomeadamente aos chineses e europeus, estão a ser oferecidas condições muito vantajosas, que chegam a passar pela oferta dos bilhetes de avião para estes destinos. A pensar no futuro, estão já em curso obras de reestruturação nos aeroportos de Phuket e Crabi que poderão criar condições para a chegada de muitos mais visitantes.

Mas todas estas medidas serão em vão se não se conseguir rapidamente recuperar a confiança dos turistas estrangeiros.

Não se trata apenas de ultrapassar o receio pouco plausível de que uma tragédia natural desta dimensão se possa repetir a curto prazo. Depois dos maremotos, países como a Suécia, Austrália, Estados Unidos, Itália, Rússia e Alemanha emitiram avisos contra as viagens para os locais afectados. E, mesmo com a rápida reacção da Tailândia, que se esforçou por garantir que tudo está sob controlo, muita gente continua a temer epidemias e a duvidar das condições de higiene e da qualidade da água e da comida.

Existe ainda outro obstáculo ao regresso dos turistas, difícil de contrariar com campanhas publicitárias ou relatórios animadores: "Há um sentimento de culpa de viajar para um local onde tanta gente sofreu", explicou Wichit Na Ranong, presidente do Conselho de Turismo da Tailândia. "Respeitamos esse sentimento", acrescentou. " Mas temos de olhar em frente. E a melhor forma de ajudarem é virem ao nosso país".

Na conferência de Andaman sobre a recuperação pós-tsunami, perante uma plateia de cerca de mil jornalistas e operadores turísticos estrangeiros, Kanok Abhiradee, presidente da Thai (companhia aérea da Tailândia), contou a história de uma mulher que, horas depois de ter perdido os dois filhos nos maremotos, estava a oferecer o famoso arroz kopa aos turistas estrangeiros. "É um exemplo de que a vida deve continuar", considerou.

O exemplo tinha ainda outro significado: aos milhões de tailandeses que dependem do turismo, não basta reconstruir o que ficou desfeito e superar rapidamente os dramas pessoais da tragédia. É preciso também adoptar o internacionalmente conhecido sorriso de boas-vindas e fazer o mundo acreditar que tudo está bem. Como sempre. Pode questionar-se esta urgência das autoridades. Afinal, dois meses e meio são pouco tempo para ultrapassar um choque desta dimensão. Mas esse não é o espírito deste país. Depois dos maremotos de 26 de Dezembro, a Tailândia apressou-se a assumir por si mesma os encargos da reconstrução, aconselhando a comunidade internacional a ajudar outros países mais carenciados.

Agora, só deixam um apelo a quem os visita, resumido nas palavras do presidente das Thai: "Quando voltarem a casa, sejam sinceros. Contem o que encontraram. E os turistas vão regressar."

As taxas de ocupação hoteleira na região de Andaman, no Sul da Tailândia, oscilam actualmente entre os 10 e os 20 por cento em plena época alta. Num ano normal, a ocupação rondaria os 90 por cento. Dezenas de milhares de pessoas que sobreviviam do turismo estão no desemprego ou parcialmente desempregadas. As autoridades tailandesas querem convencer os turistas de que é seguro regressar.

Pelo menos mil suecos morreram ou foram dados como desaparecidos na Tailândia, na sequência dos maremotos de 26 de Dezembro. Mas ainda há cidadãos deste país dispostos a ultrapassar o "fantasma" da tragédia. É o caso de Anders Wahstrom, de 42 anos.

Encontrámo-lo no elitista Hotel Rayavadee, na praia de Ranong Cave, acompanhado da mulher e de três filhos. Contou-nos que decidiu marcar as férias já depois do tsunami.
"
Já estávamos a pensar vir aqui e decidimos manter os planos", explicou. Ao princípio, quando soube, a minha família ficou preocupada, principalmente os meus pais. Mas agora estou a mandar sms para toda a gente que coheço na Suécia a dizer-lhes para virem para cá."

Tal como a generalidade dos turistas que decidiram visitar a Tailândia nesta altura, Whastrom encontrou condições muito apetecíveis: "É incrível: os preços estão a um terço do habitual", contou. "Já estivemos em vários hotéis. Estamos a fazer uma espécie de tour ", brincou.

No entanto, confessou que não é fácil apreciar estas vantagens quando se conhece a realidade que se esconde po detrás delas: "Os hotéis estão a funcionar, os restaurantes trabalham, as bandas tocam, mas não há ninguém. É triste."

Depois do tsunami, a Tailândia enfrenta outra ameaça de grandes proporções. O sector turístico nas zonas atingidas foi fortemente penalizado pela tragédia, devido à morte de muitos estrangeiros. As autoridades esforçam-se por demonstrar ao mundo que a reconstrução está feita e que os turistas podem regressar, mas os receios Ainda são grandes. A cada dia que passa, agrava-se a situação de milhares de tailandeses que dependem deste sector para sobreviver.

Cerca de metade das vítimas do tsunami na Tailândia eram estrangeiros. Países como a Suécia, os Estados Unidos e a Alemanha emitiram alertas contra viagens para as regiões atingidas. As autoridades tailandesas desencadearam rapidamente o processo de reconstrução, mas os operadores turísticos continuam a hesitar em apostar nestes destinos, com receio de epidemias e dúvidas (não sustentadas) sobre a qualidade da água e da comida.

Mais de cinco mil pessoas morreram. Um em cada três empregados de hotel de Khao Lak perdeu a vida. Muitos quartos de hotel foram danificados.

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