Portugueses de Macau não esqueceram tragédia

A angústia da busca desapareceu, mas o sofrimento continua. Ainda não acreditam

Paulo Coutinho escreve regularmente cartas à mulher, Belinda Coutinho. É a forma, diz, que encontra "para lidar com o assunto." O assunto é o tsunami e Belinda Coutinho um dos cinco portugueses de Macau que perderam a vida em Pukhet, a 26 de Dezembro.

"Tem sido um processo longo e doloroso, embora já tenha deixado de acordar a pensar no momento em que a primeira vaga entrou pelo meu bungalow e me levou a mim, aos meus dois filhos e à minha mulher, cada um para seu lado." A filha encontrou-a logo, o filho "seis horas depois, as piores horas da minha vida."

Só voltou a ver a mulher, mas por fotografia, cinco meses depois. No dia em que chegou à Tailândia para prestar uma homenagem a Belinda, foi encontrada a ficha do seu cadáver. Só nessa altura Paulo Coutinho deixou de acordar a pensar no horror. "Só quando soube que poderia fazer-lhe o funeral é que, diz ao DN Paulo Coutinho, conseguiu "encarar o futuro."

A angústia da busca desapareceu mas o sofrimento continua. E os pensamentos vão também "para os milhares que não tiveram a oportunidade de enterrar os familiares e amigos." Hoje, o assunto já não é tema de conversa entre pai e filhos, mas Paulo escreve. Apontamentos e cartas. "À Belinda", diz.

A incredulidade é ainda o sentimento dominante dos portugueses residentes em Macau que, a 26 de Dezembro, estavam nas estâncias da Tailândia atingidas pelos maremotos. Seis meses depois, as imagens daquela manhã de férias estão ainda muito presentes. Dezenas de pessoas lutam diariamente para aceitar que, de facto, perderam os amigos e familiares em minutos. Alguns esperam conseguir voltar a Pukhet, para ver e aceitar.

PÂNICO. Irina Carvalho vive como se o 26 de Dezembro tivesse sido ontem. Estava de férias com a família, em Kao Lak, junto a Pukhet, mas naquela manhã foi passear de barco para junto das ilhas Pi Pi. "Vi aquilo acontecer do barco e, ainda hoje, sinto o pânico que se seguiu quando regressei às Pi Pi e ninguém tinha mãos a medir a ajudar os feridos e a procurar os desaparecidos", conta Irina ao DN.

Procurou ajuda psicológica, mas à noite, quando se deita, "a angústia é enorme". As ondas passaram por Irina e destruíram a paisagem que contemplava; mataram pessoas que conhecia. "Não aceito a morte assim, luto para acreditar que tudo vai voltar à normalidade, mas depois há aqueles momentos de solidão que não o permitem."

Lina Nogueira, que estava em Kao Lak e se perdeu dos familiares, garante que a experiência alterou a sua forma de ver o mundo. "Relativizo os problemas do quotidiano. Ainda não acredito que aquilo aconteceu à minha frente e que eu e a minha família sobrevivemos."

Tenta abstrair-se, mas os maremotos e a destruição do resort onde se encontrava deixou-lhe marcas físicas. Para as quais "olho todos os dias e me suscitam sempre a mesma questão: será que aconteceu mesmo?" Aconteceu e o filho de Lina, de 11 anos, lembra-a disso chove muito e lhe diz que "tem medo que o tsunami atinja Macau."

José Mesquita, médico em Macau, saiu da Tailândia na manhã de 26 de Dezembro, no fim das férias. Uma semana depois voltou a Pukhet, como voluntário. Recorda "a dimensão da morte e da procura dos familiares entre as centenas de corpos espalhados" como a mais impressionante das imagens. Escapou "por pura sorte". Mesquita esteve doze dias em Kao Lak, junto a Pukhet. Recorda uma onda gigante de solidariedade.

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