Passado um mês há 280 mil mortos

Passou já um mês desde que o tsunami invadiu 12 países do oceano Índico, matando 280 mil pessoas. Os números não param de crescer, naquele que é o pior sismo dos últimos quarenta anos. A província de Aceh, na ilha indonésia de Samatra, lidera a lista das zonas mais afectadas, com 228 mil vítimas mortais. Mas a tensão entre o exército e os independentistas tem dificultado a ajuda internacional.


31 dias depois, oito portugueses continuam em parte incerta.


Um mês depois, o mundo continua a avaliar a real dimensão do mais grave maremoto de que há registo. O balanço dos mortos, em permanente actualização, ultrapassou ontem as 280 mil pessoas.


A escala da destruição, os custos económicos e o impacto que a tragédia teve na vida de milhões de pessoas só podem ser medidos em estimativas aproximadas.


A Indonésia sofreu a esmagadora parcela das consequências. Na região de Aceh, ilha de Samatra, um total de 228 429 pessoas são dadas como mortas, cidades inteiras estão destruídas e há centenas de milhares de desalojados. Tensões entre o exército e os in dependentistas de Aceh, e restrições à movimentação das organizações humanitárias, têm prejudicado o apoio aos sobreviventes.


O Sri Lanka, onde também se verificam tensões entre as autoridades e a guerrilha tâmil, ocupa o segundo lugar desta lista, com 31 mil mortos e 400 mil refugiados. Tailândia, Índia, Maldivas, Myanmar, Malásia, Bangladesh, Somália, Quénia e Tanzânia sofreram também o impacto directo das ondas, somando milhares de baixas e centenas de milhões de euros de prejuízos.


Portugal está entre as dezenas de outros países que perderam cidadãos nos tsunamis. Oito portugueses estão dados como desaparecidos há 31 dias na Tailândia. O Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) mantém a recusa de admitir as suas mortes até os seus corpos "serem identificados pelos médicos legistas". Dolores Ribeiro, de 39 anos, com dupla nacionalidade portuguesa e sul-africana, morreu em Phuket, na Tailândia e já foi enterrada há cerca de 20 dias. Mas o seu nome não consta da lista oficial do MNE.


Compromissos de futuro. A escala global da tragédia de 26 de Dezembro teve o condão de levar a comunidade internacional a reagir com uma prontidão nunca antes vista. Países, empresas e cidadãos asseguraram uma ajuda económica sem precedentes superior a 9,25 mil milhões de euros. Dezenas de organizações humanitárias partiram rapidamente para o terreno, ajudando a evitar que os números da tragédia fossem ainda maiores.


Os militares dos Estados Unidos, tão contestados no Iraque, foram uma ajuda inestimável no apoio às populações da ilha de Samatra, sendo a sua actuação elogiada pela generalidade das organizações humanitárias, na evacuação de populações e na distribuição da ajuda. A China, cada vez mais aberta ao mundo, assumiu o seu papel de potência da região, e avançou com uma ajuda inédita não só a nível financeiro como em termos de apoio tecnológico, oferecendo-se, nomeadamente, para analisar gratuitamente o material genético de milhares de vítimas ainda por identificar na Tailândia.


Portugal não passou ao lado desta onda de solidariedade, amealhando mais de 20 milhões de euros, entre donativos do Estado e de particulares, e enviando cerca de 30 técnicos para a Tailândia, Indonésia e Sri Lanka.


Mas a resposta do mundo não se ficou pela ajuda de emergência.


No Japão, as 168 delegações presentes na cimeira de Kobe sobre redução dos efeitos das catástrofes, assumiram um plano de 10 anos para "tornar o mundo num lugar mais seguro". A primeira medida concreta será o desenvolvimento, no prazo de 12 a 16 meses, de um sistema de alerta de tsunamis para a região do oceano Índico.


O projecto será coordenado pela UNESCO, tendo por modelo o sistema implantado no oceano Pacífico pelos Estados Unidos e pelo Japão.


Representantes de vários países asiáticos estão reunidos desde ontem em Pequim, na China, para discutirem a melhor forma de rapidamente concretizarem o projecto.


A médio e a longo prazo, a comunidade internacional comprometeu-se também a investir na educação, sobretudo nas áreas agora atingidas pelos tsunamis, de forma a que as próprias populações tenham os meios necessários que lhes permitam conhecer e defender melhor das ameaças naturais.


Factos e testemunhos


Curar em zonas de guerrilha


Dez mil pessoas que vivem actualmente em 16 campos de deslocados, em Jafna, no norte do Sri Lanka, têm a zelar pelas suas necessidades imediatas de saúde uma missão médica da Associação Saúde em Português.


Todos os dias, os três médicos e a enfermeira que integram a equipa visitam quatro desses campos, onde atendem entre 20 e 40 pessoas. De quatro em quatro dias voltam aos mesmos campos.


Ao mesmo tempo, os médicos portugueses estão a chefiar a unidade de urgência do hospital local e a coordenar a própria unidade hospitalar, sob a chefia do seu director.


"Aquela é uma região de guerrilha tâmil, o que significa que os nossos médicos têm muitas vezes que passar controlos sucessivos das autoridades governamentais para fazer o seu trabalho", explicou ao DN, Hernâni Caniço, o presidente da associação. A missão deverá em breve seguir para o sul do país, mas a zona concreta onde vai trabalhar ainda não está definida. "Estão neste momento a decorrer negociações para isso", diz Caniço. Depois desta primeira intervenção, que deverá durar dois meses no total, a associação tem um projecto de ajuda ao desenvolvimento para a saúde, no Sri Lanka.


Portugueses ajudam em Samatra


Desde que começou a funcionar em pleno, há duas semanas e meia, a equipa médica portuguesa instalada em Pangoraya, na província de Banda Aceh, na ilha indonésia de Samatra, atendeu 850 pessoas.


O número foi ontem adiantado ao DN pelo médico Kamal Mansinho, que chefia as 9 pessoas da missão médica enviada pelo Estado português para aquela zona, uma das mais atingidas pela catástrofe.


Com um hospital de campanha com capacidade para 30 internamentos e uma unidade de cuidados intensivos, a equipa portuguesa está numa zona onde se concentram vários milhares de pessoas, entre locais e população deslocada de outras regiões da ilha. "Tratamos situações de infecções respiratórias e outras, para evitar surtos de epidemias, e doentes crónicos cujas doenças se agudizaram nesta situação", explicou Kamal Mansinho, sublinhando que "a colaboração da população e das autoridades locais tem sido inexcedível".


Os principais problemas, diz o médico, são a escassez de meios e de técnicos (muitos morreram no maremoto) e a destruição das infra-estruras sanitárias. A reposição dos técnicos de saúde está ali agora em estudo entre autoridades e organizações internacionais.


UNICEF alerta para nova ameaça


É mais um alerta da UNICEF: as condições de saneamento continuam a ameaçar centenas de milhares de sobreviventes, sobretudo crianças e mulheres, que se encontram em campos de refugiados.


Na província de Banda Aceh, na Indonésia, apenas uma em cada mil pessoas tem acesso a um sanitário. A escassez de latrinas foi agravada pelas fortes chuvadas que inundaram 21 campos, que tiveram de ser deslocados. "Os meios sanitários de emergência estão com uma carga excessiva e a construção de novas instalações não está a responder à procura. As condições actuais são extremamente difíceis para as famílias, que ficam com muito poucas defesas contra uma série de doenças", disse a directora da UNICEF.


Coincidências


Conflitos e vítimas do mar


Fazendo jus às estatísticas que dizem que os efeitos dos desastres naturais são agravados por factores políticos e sociais, a ilha indonésia de Samatra e o Sri Lanka são os mais afectados pelo maremoto, com os maiores números de mortos. Coincidência, ou não, ambos os territórios são desde há anos palco de mortíferos conflitos armados, que opõem movimentos separatistas aos regimes no poder: os separatistas de Aceh, em Samatra, e a guerrilha tâmil no Sri Lanka. Aceh, a mais fustigada pela tragédia, tem, nomeadamente, sido votada ao esquecimento deliberado por parte das autoridades centrais, e desenvolvimento não era palavra que ali se conjugasse. Depois da tragédia, e apesar de declarações de tréguas nos dois países, as tensões permanecem.

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