Os amigos de Kanokwan

A batalha pela sobrevivência de uma pequena comerciante tailandesa

A imaculada farmácia de Kanokwan Sahachart é uma inesperada visão de brancura e limpeza na confusão dos bares de prostitutas, lojas de "souvenirs" e fumarentos restaurantes de um dos quarteirões comerciais de Patong Beach, em Phuket.

Saúda-me com o longo "Sawadsee Ka", cumprimento quase cantado das mulheres tailandesas , e sorri longamente, fingindo ignorar o aspecto empalidecido que que me conferiu o impensado consumo de demasiada "spicy food" no dia anterior.

Enquanto me receita uns comprimidos à base de carvão, mezinha de extraordinária utilidade para combater os problemas intestinais, reparo nas fotografias que enfeitam o seu balcão.

Perfazem uma espécie de fotonovela da tragédia, que dividiu em dois capítulos: "Before the Tsunami" e "After the Tsunami". Primeiro, vêem-se imagens da sua família, sorrindo orgulhosa em frente à imaculada farmácia; depois, verifica-se o destroço em que se transformou o seu estabelecimento depois da passagem das águas; finalmente, assiste-se ao esforço dos vizinhos - possivelmente as prostitutas e os donos de restaurantes fumarentos - para a ajudarem a voltar a pôr de pé o seu negócio

Volto a olhar para Kanokwan. Já não sorri. O seu rosto tem agora a expressão de angústia de quem se viu subitamente acordado para a realidade. "Foi muito duro para as pessoas daqui", diz, sem esperar pela pergunta. "Ficámos sem nada, sem nada". E para ilustrar as suas palavras, puxa de um álbum de fotografias.

Desta vez não são imagens da tragédia, mas antes retratos seus, posando ao lado de felizes pares de recém-casados, de famílias gordas e de crianças muito louras, de aspecto nórdico. "São todos meus amigos", gaba. "Vinham para cá todos os anos e fomo-nos conhecendo. Agora já não vem ninguém".

Os "amigos" de Kanokwan costumavam ficar hospedados no "Patong Garden Resort", empreendimento que "alimentava" todo o pequeno comércio do quarteirão. Tal como a sua farmácia, o "resort" sofreu extensos danos com o Tsunami, mas a sua recuperação, muito mais complexa, ainda não começou, ameaçando a sobrevivência da sua loja.

"Depois do Tsunami falei com o dono do hotel. Ele disse-me que só vai reabrir daqui a dois anos. Mas o que podia eu fazer? Não podia esperar. Estou aqui há 15 anos e isto é tudo o que tenho", explica.

Sem esperar pelo subsídio de 20 mil baths (cerca de 400 euros) que o governo tailandês prometeu a todos os pequenos comerciantes de Phuket - mas que diz ainda não ter recebido - Kanokwan foi ao banco e pediu um empréstimo de 500 mil baths (10 mil euros), aproximadamente metade do que lhe custou a destruição da loja e de todos os produtos que lá tinha.

Reconstruiu tudo a partir do nada. Dois meses e meio depois do Tsunami, a sua farmácia está novamente de pé, imaculadamente branca no meio da confusão da zona comercial. E Kanokwan espera pacientemente atrás do balcão, pronta a receber com um sorriso os turistas que abusaram do Sol, da "Spicy food" ou de qualquer outra extravagância tailandesa

Mas os seus "amigos" ainda não voltaram, e dificilmente vão fazê-lo tão cedo, pelo menos em número suficiente para a ajudá-la a compensar os prejuízos e a garantir os pagamentos ao banco.

Nos grandes planos governamentais para a recuperação do turismo de Andamam, a prioridade é apoiar os grandes empresários. A filosofia pode parecer cruel, mas assenta numa lógica inatacável: sem os hotéis, os parques temáticos e os "spa" de cinco estrelas, não há turistas para sustentarem o pequeno comércio.

Kanokwan Sahachart escreve-me o seu nome numa folha de papel, mas pede para não ser fotografada. Duvido que tenha medo de represálias. Está apenas a guardar a sua imagem para dias mais felizes, junto de velhos amigos.

Para atrair de volta os turistas estrangeiros, a Tailândia está a oferecer aos operadores condições muito vantajosas no acesso aos pacotes de férias. Uma das hipóteses em estudo é a oferta de bilhetes de avião gratuitos para Phuket, em voos da "Thai", a transportadora aérea tailandesa.

Para pedir um "chá" ou um "café" na Tailândia basta falar português. Estes vocábulos, a par de "leilam" (leilão) e "sabo" (sabonete) são memórias do tempo em que o português era a língua internacional neste país. A herança portuguesa não se fica pelo vocabulário. Os famosos fios de ovos portugueses têm uma versão local, chamada "Foi Tong" (cabelos loiros). A receita terá sido ensinada à população - que antes não utilizava os ovos na doçaria, por uma luso-japonesa que ali chegou na companhia do marido grego, no século XVI.

A relação entre Portugal e a Tailândia começou em 1511 e prolongou-se, em condições privilegiadas, até meados do século XIX. Portugal foi um importante aliado da Tailândia nos seus confrontos com outras potências regionais. Ainda hoje, a entrada do Ministério da Defesa tailandês em Banguecoque é enfeitada com um conjunto de canhões portugueses, que evocam a ajuda portuguesa na guerra contra os birmaneses, no século XVII.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG