O lento despertar de um pesadelo

Um ano depois de 26 de Dezembro de 2004, há muito por fazer antes que a tragédia do tsunami entre na história das más recordações da humanidade. Em Banda Aceh, na ilha indonésia de Samatra, onde morreram mais de dois terços das cerca de 231 mil vítimas do sismo e do maremoto, há meio milhão de desalojados a viver em tendas ou edifícios públicos transformados em dormitórios. O sistema de alerta e mitigação de tsunamis do Oceano Índico (IOTWAS), que promete reduzir a metade as vítimas de um maremoto futuro, ainda não está operacional. Nos países atingidos, há milhares de corpos por identificar e dezenas de milhares de desaparecidos que provavelmente nunca serão encontrados.

Mas o tempo não foi perdido. Segundo as Nações Unidas, a resposta do mundo foi mesmo "gigantesca" a todos os níveis, incluindo o económico: prometeram-se uns inéditos 3000 milhões de euros de ajudas e o dinheiro está de facto a chegar a quem dele precisa. Só em fundos da União Europeia (Estados membros e Comissão) já foram gastos 452 milhões de euros referentes à ajuda humanitária urgente (80% do prometido) e 902 milhões (num total de1,5 mil milhões) de verbas para a reconstrução.

O problema, quer se trate de honrar os mortos ou acudir aos vivos, é que todas as tarefas se têm revelado também gigantescas, sobretudo na Indonésia e no Sri Lanka, onde se deu o grosso das mortes e destruição. Enquanto noutros países, como a Tailândia, o desafio é sobretudo recuperar uma imagem turística fortemente abalada, nestes é o bem-estar de milhares de pessoas que continua em causa.

"O nosso maior desafio é a escala da reconstrução", explicava recentemente Alex Jones, coordenador das operações pós-tsunami das Nações Unidas. "Milhões de pessoas foram afectadas. Foi um nível de destruição sem precedentes. Na Indonésia e no Sri Lanka, cem milhas de linha de costa foram destruídas - não se tratou apenas de algumas áreas ou cidades."

No Sri Lanka, depois de meses de trabalho intenso, foi concluída em Setembro a construção de 58 mil habitações temporárias para os deslocados. Em Banda Aceh, há 500 mil pessoas que ainda não tiveram essa sorte - porque, segundo as ONGs, é "impossível" construir casas ao ritmo necessário -, e regiões inteiras onde as condições de vida continuam a ser "críticas".

PREVENIR. Uma das lições do dia 26 de Dezembro foi a necessidade de se anteciparem as tragédias, para que a resposta seja imediata quando elas acontecem. O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, propôs a criação de um fundo de contingência para desastres naturais, orçado entre os 425 e os 850 mil milhões de euros. Esta será uma das medidas que, no futuro, poderão salvar vidas e poupar sofrimento aos sobreviventes. Outra é a criação do sistema de alerta de tsunamis para o Oceano Índico, que abrange 27 países.

Num encontro realizado este mês, os promotores do IOTWAS fizeram um balanço positivo do projecto, apontando para a implementação total do sistema em meados de 2006. Mas os indicadores são dúbios. Tecnicamente, todos os países estão já dotados das tecnologias de comunicação e dos equipamentos necessários à rápida recepção de um alerta. Mas poucos desenvolveram planos de evacuação das populações essenciais para dar uso a essa informação preciosa.

Um ano depois, as notícias mais animadoras vêm da UNICEF: apesar dos impacto psicológico sentido por milhares de crianças, não se confirmaram os receios de raptos por redes de tráfico de menores, a vacinação em massa evitou epidemias e a grande maioria dos 3793 órfãos do tsunami foram reunidos aos seus familiares ou entregues ao cuidado de instituições estatais.

A tarefa monumental da reconstrução de Banda Aceh

Uma imagem de Banda Aceh, obtida no dia 21 de Dezembro de 2005, quase um ano depois do tsunami, mostra bem o que falta fazer antes de a vida voltar ao normal. Esta região da ilha Indonésia de Samatra sofreu o essencial do impacto da tragédia. Mais de metade das 231 mil vítimas confirmadas viviam aqui, 40 mil continuam desaparecidos, 500 mil vivem em abrigos de emergência, como tendas, enquanto as suas casas não são reconstruídas. Uma região inteira tem que ser reinventada.

Milhares regressam para a homenagem

O mesmo ancoradouro, um ano depois. Milhares de sobreviventes e familiares das vítimas aceitaram um convite do Governo tailandês para regressarem aos locais atingidos, participando nas cerimónias evocativas da tragédia do ano passado.

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