O eco do medo da tragédia também chegou a Portugal

O ruído da terra a tremer fez-se ouvir no Sudeste asiático, mas o seu eco chegou a toda a parte. Chegou a Portugal, com as imagens da tragédia que doeu mais a quem reconheceu estradas, praias, cidades inteiras. Yim, Achmad e Inês sentiram choque e saudade ao mesmo tempo na manhã de 26 de Dezembro. Com o DN, fizeram uma viagem até à terra que já lhes foi mãe.
A terra da magia. O país dos sorrisos está ferido. Por culpa do que tem de mais belo, a Tailândia perdeu a razão do seu sucesso.


A água destruiu os hotéis de Phuket e apagou a vontade de rir dos seus habitantes. Yim tem 26 anos e deixou a «terra gentil» há três. Trouxe o coração até Portugal porque se apaixonou por um turista.


À distância escolhida, Yim - que quer dizer «pele de ouro» - viu as imagens do seu País e teve vontade de regressar. Entendeu melhor o que o marido português quer dizer quando fala de saudade e não largou o telefone durante dois dias. Sabia que a família estava a salvo, mas não descansou enquanto não teve a certeza de que todos os funcionários do restaurante que gere em Lisboa podiam respirar de alívio como ela.


Quando lhe falam do tsunami, tenta convencer as pessoas de que nem tudo foi destruído pelas ondas. «E tento convencer-me também», diz. Lembra o respeito que o povo tailandês tem pela água e a forma como «vive intensamente a alegria e a magia da terra».


Por isso, tem a certeza: «As fotografias da tragédia vão ficar gravadas na cabeça de todos, mas ninguém procura culpas para o que aconteceu.»


Yim passa sempre férias na zona de Phuket, a área mais afectada pelo maremoto na Tailândia. E espera fazê-lo já em Agosto. Nessa altura, a vida que traz dentro de si já terá um nome português: Patrícia. Grávida de oito meses, Yim não hesita: «Quero que a minha filha seja portuguesa mas também quero que goste do meu País.» Confiante na acção dos seus governantes, espera «poder encontrar as praias, os corais e as grutas mais bonitas do mundo em Phuket».


Gota a gota. Achmad Gozali nasceu na Indonésia há 46 anos. E só não está hoje no País mais afectado pelo tsunami porque foi destacado para a Embaixada da Indonésia em Portugal como conselheiro cultural. Mesmo longe, sofre a dor do seu país. «Não conhecia ninguém mas conhecia todos os mortos, porque são indonésios, como eu», diz. Do lado de lá da linha telefónica ouve relatos de horror das irmãs, que «estão em depressão».

Falam-lhe das crianças que ficaram orfãs, das aldeias que desapareceram, do sofrimento atroz que se respira na Indonésia. Se pudesse visitar a área afectada pelo sismo, fá-lo-ia já, «para ver em que estado estão as coisas».


Quando ligou a televisão na manhã da tragédia, sentiu as lágrimas antes do choque. Hoje, mais distante, tem orgulho de ser indonésio e espera que «o mundo consiga fazer desta catástrofe uma prova de solidariedade». Sabe que o «espírito de vizinhança dos portugueses» existe na Indonésia e que tem que ser mobilizado para a ajuda aos que perderam tudo.


Num mundo que lhe parece «cada vez mais pequeno», Achmad gostava de ouvir notícias de contribuições cada vez maiores. Como a que fez uma menina de dez anos, que doou o seu mealheiro às vítimas do Sudeste asiático. Para Achmad, esta foi a prova maior de que «o ser humano sente a dor dos outros, e consegue sempre ajudar de alguma maneira».


Regresso. Há países que precisam de tradução. Para Inês Sá Alves, de 27 anos, a Índia é um desses. Voluntária em Calcutá durante seis meses, sentiu-se adoptada quando os amigos lhe conseguiram explicar a diferença entre o que é «pitoresco e tem graça fotografar» e o que é triste e pobre, e só merece reflexão. Por isto, quando soube do maremoto Inês só conseguiu pensar que o trabalho teria que voltar à estaca zero.


Quando, em Maio de 2003, chegou à Índia, Inês sentia-se «muito europeia». Um dia, enquanto visitava um dos mercados de Calcutá, foi apanhada por uma chuva tropical. «Se me acontecesse em Portugal ia sentir-me enojada com aquela água lamacenta», afirma. Ali, foi como um baptismo.


Inês sentiu-se em casa durante seis meses. Apesar da pobreza, das pessoas a tomarem banho no meio da rua, das senhoras a quem teve que explicar que «a casca dos ovos não protege gemas nem claras do calor ou do frio». Foi difícil e «o trabalho não ficou feito».


Quando ouviu as primeiras notícias sobre o maremoto, Inês ficou em pânico. «Foi angustiante, aflitivo, as linhas telefónicas estavam impossíveis», explica. Quis ligar aos amigos que deixou em Calcutá e ter a certeza de que estavam bem. A salvo, falaram-lhe das dificuldades que se viviam no País. E a ideia de voltar, «uma vontade enorme», começou a tomar forma na sua cabeça. Inês e a melhor amiga, Natacha, têm tudo pensado: com «o gosto anónimo de ajudar, e o amigo que chama amigo», vão abrir uma conta para apoiar a ONG com que trabalharam em 2003.


Recomeçar. Numa escola recentemente reactivada, Hasan Tablou, um rapaz de oito anos do Sri Lanka, é incentivado a fazer um desenho relacionado com a sua memória do maremoto. O princípio do futuro.
Esquecer. Sábado, dia 8. A água apetece na praia de Phuket, na Tailândia. Um rapaz brinca com um barco de madeira. Estima-se que 260 pessoas, muitas delas estrangeiras, morreram nesta localidade a 26 de Dezembro. Na vizinha Phang Nga perderam a vida quatro mil pessoas
Aceitar. Os cânticos dos monges ajudam os vivos a suportar o adeus aos que partiram. Um alimento espiritual tão importante como as caixas de víveres que chegam de todo o mundo, ou como o limpar ou o cremar os mortos.

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