Esperança e frustração nos três anos do tsunami

O tsunami que atingiu o sudeste asiático há três anos matou 230 mil pessoas e obrigou a um enorme esforço para a reconstrução dos países afectados. Só no Sri Lanka morreram 30 mil pessoas.

Quando o tsunami que em 2004 atingiu o Sudeste asiático destruiu o muro da prisão onde estava detido, Irwandi Yusuf ficou livre. Três anos depois da catástrofe que fez quase 230 mil mortos, o ex-rebelde do Movimento Aceh Livre (Gam) continua a ver a onda gigante como o ponto de viragem. Forçada a abrir a região à ajuda humanitária, Jacarta abriu também a porta à resolução do conflito com os rebeldes. Em Dezembro de 2006, Yusuf foi eleito governador da província e hoje garante que em Abril de 2009 todas as vítimas indonésias do tsunami terão casa. Um cenário que contrasta com o do Sri Lanka, onde nem o tsunami pôs fim ao conflito entre exército e Tigres Tâmiles.


A Agência de Reabilitação e Reconstrução de Aceh "ainda tem 20 mil casas para construir, mas queremos ver todas as vítimas realojadas até Abril de 2009", disse Yusuf à AFP. O tsunami matou 170 mil pessoas e fez meio milhão de desalojados em Aceh, na ilha de Sumatra. Em Dezembro de 2004, Aceh era palco de um conflito mortífero; estava fechada aos estrangeiros e o exército perseguia os rebeldes nas montanhas. Yusuf estava preso e condenado a nove anos por "rebelião".


O tsunami, provocado por um terramoto de magnitude 9.3 ao largo da ilha de Sumatra, mudou tudo. Confrontado com a catástrofe, Jacarta aceita iniciar negociações de paz no estrangeiro que terminam com a assinatura de um acordo em Helsínquia, em Agosto de 2005.


Um ano depois da sua eleição como governador, Yusuf diz que os desejos separatistas estão esquecidos: "Vivemos uma paz merecida. O único problema é a economia." E a reinserção dos rebeldes. "Eles entregaram as armas e tornaram-se fardos para as famílias", explicou.


Com ajuda do Fundo Multidoadores de 673 milhões de euros, a Indonésia já tem prontos "dois terços" da reconstrução. O Sri Lanka, por seu lado, gastou apenas 20% dos 3,2 milhões de dólares prometidos pela comunidade internacional para os sobreviventes.


O tsunami fez 30 mil mortos e cem mil desalojados naquele país. Hoje, a frustração faz-se sentir entre a população, sobretudo porque, apesar de terem sido construídas 120 mil casas, mais 20 mil que as necessárias, ainda há quase nove mil pessoas a viverem em abrigos.


O Norte e Leste do país são as zonas mais problemáticas devido à luta entre o exército e os Tigres Tâmiles, representantes de uma minoria étnica que exige a independência. A violência, que prejudica o turismo e a economia, provocou centenas de mortos desde 2004 e tem adiado a reconstrução.


Martunis. Tem agora 10 anos, o menino indonésio que foi encontrado por uma equipa de televisão, 19 dias depois do tsunami, numa praia de Aceh, envergando uma camisola da selecção portuguesa de futebol.


A imagem de Martunis, que passou três semanas a beber água dos açudes e macarrão cru, sensibilizou os responsáveis da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), que de imediato se comprometeu a ajudá-lo. Seis meses depois, a FPF doou 40 mil euros para a reconstrução da casa de Martunis.


Parte do dinheiro foi proveniente de um leilão de camisolas de jogadores, entre eles Figo e Ronaldo. Na mesma altura, o pequeno visitava Portugal a convite da FPF, tendo sido recebido pela selecção. A última iniciativa de solidariedade, aconteceu em Julho, com a oferta de várias peças de mobiliário (camas, sofás, armários, cadeiras, mesa) por parte de um grupo de empresários de Paços de Ferreira.

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