Dois terços dos desalojados do tsunami ainda sem casa

A Cruz Vermelha Internacional comprometeu-se a construir 50 mil casas "a sério" na Indonésia, Sri Lanka e Maldivas. Até agora só foram erguidas oito mil.

Era impossível gastar bem tanto dinheiro em tão pouco tempo." Para Fernando Nobre, presidente da Assistência Médica Internacional (AMI), não surge como surpresa nem escândalo que, dois anos após o tsunami que arrasou as zonas costeiras da Indonésia, Tailândia, Sri Lanka e Índia e matou pelo menos 230 mil pessoas, dos fundos reunidos numa nunca vista avalanche global de donativos - mais de cinco mil milhões de euros - só metade tenha sido aplicada.


A própria AMI, que recebeu dois milhões de euros "sem pedir nada, como resultado desse outro tsunami, o dos donativos", tem ainda 800 mil euros para gastar. "Quando estava no Sri Lanka, a seguir ao desastre, fui informado de que estavam a chegar imensas dádivas e disse logo que era preciso planear bem, a cinco anos, investindo o dinheiro de forma útil. Claro que era muito fácil gastar tudo. Era só fretar aviões a cem mil euros cada, enchê-los de carga e descarregá-la em Colombo [capital do país] e não querer saber de mais nada."


Certo é que nos últimos tempos tem suscitado polémica o facto de, apesar de o tsunami ter estabelecido um recorde mundial em termos de auxílio económico face a um desastre, a reconstrução nas zonas afectadas estar longe de satisfazer as necessidades. O ex-presidente dos EUA Bill Clinton expressou a sua preocupação: "Só 30 a 35% das pessoas foram realojadas decentemente. Temos de fazer melhor que isto."


A Cruz Vermelha Internacional, por exemplo, recebeu um terço do valor dos donativos globais, tendo-se comprometido a construir 50 mil casas "a sério" na Indonésia, Sri Lanka e Maldivas. Até agora só foram erguidas oito mil habitações, e a organização assegura que só lhe será possível chegar às 25 mil dentro de um ano. Entretanto, já gastou metade do dinheiro. Para espanto do relator especial da ONU para a habitação, o arquitecto Miloon Kothari, que, após visitar as áreas afectadas pelo tsunami, afirmou: "Não se devia levar tanto tempo. Não aceito a explicação de que temos de esperar quatro a cinco anos, ou sete, como alguns dizem. Sei quanto tempo leva a construir uma casa."


Fernando Nobre dilui tanta indignação: "As pessoas não têm ideia do que significa investir milhões de euros de um dia para o outro numa zona tão carenciada." No Sri Lanka, onde a AMI está a concentrar os seus esforços pós-tsunami, o médico português encontrou alguns problemas com que as organizações de ajuda se têm confrontado.


"Quando se tratou de reconstruir as casas dos pescadores que viviam à beira-mar, o Governo decidiu que teriam de recuar cem metros em relação à linha de água. Aparentemente tratou-se de uma decisão acertada, mas, como não se assegurou a questão da propriedade dos terrenos e os pescadores achavam que recuar tanto prejudicava a sua actividade, não foi possível dar fundos para construir e eles voltaram a erguer barracas."



Nobre também desdramatiza outra das críticas, a de que os pobres foram prejudicados na ajuda face aos menos desmunidos, por exemplo comerciantes. "No que respeita à AMI e a outras ONG, temos concentrado os esforços com os mais desfavorecidos. Mas acredito que em termos de ajuda governamental se tenha investido no tecido económico, o que também faz sentido."



Até agora, e além da manutenção de uma equipa médica de emergência no Sri Lanka durante 14 meses, a AMI construiu um orfanato para 150 crianças e reconstruiu outro para 300, assim como dois centros sociais, tendo criado uma fundação para investir os fundos remanescentes, que têm sido usados para construir habitações, poços, assegurar saneamento e apoio médico. E, acrescenta o presidente da associação humanitária lusa, para coisas como "comprar bicicletas para os pescadores". Uma informação para ajudar a reflectir sobre o tipo de necessidades a que a reconstrução tem de atender e o que pode ser (pouco) dinheiro bem aplicado.



E, já agora, sugere Nobre, reflicta-se também sobre o facto de nem o terramoto de Bam, no Irão, em Dezembro de 2003, nem o de Caxemira, em 2004, que matou 80 mil pessoas, terem "acordado" um décimo da generosidade que o tsunami desencadeou. "Um fenómeno natural nunca visto, associado ao facto de as imagens que chegavam serem de turistas europeus, fez com que nos países ricos as pessoas se identificassem com as vítimas. Deixou de ser um desastre longínquo que afectava povos distantes e passou a ser connosco."


230 mil

Número de vítimas mortais, a maioria delas na Indonésia (130 mil), com locais completamente devastados como a ilha de Samatra (a zona habitada mais próxima do epicentro). Muitos corpos nunca foram encontrados ou não foi possível confirmar a sua identidade - perto de 50 mil integram até hoje a categoria de desaparecidos


1,5 milhões

O tsunami devastou aldeias inteiras e nunca ninguém conseguiu calcular ao certo quantas pessoas ficaram sem casa. As estimativas dos desalojados ultrapassam o milhão. Só na Indonésia ascendem aos 500 mil e, a este país, juntam-se mais cem mil no Sri Lanka e 150 mil no Sul da Índia. Muitos vivem ainda hoje em prefabricados


53

Número de países atingidos pelo tsunami, não só na Ásia como nos outros continentes, que fizeram luto pelos turistas mortos no maremoto, a maioria dos quais estava de férias na Tailândia (mais de 4200), em estâncias como Phuket. Também Portugal perdeu nove cidadãos que estavam naquela zona, alguns deles com dupla nacionalidade.