História de uma promessa escrita a verde e vermelho

Federação Portuguesa de Futebol deu 40 mil euros a Martunis para construir uma casa

Os mais religiosos disseram que ele foi o milagre do dia em que a Terra se zangou. Os adeptos mais ferrenhos arriscaram que foi salvo pela febre do futebol. Martunis, o rapaz de sete anos que sobreviveu 21 dias só nos destroços de Banda Aceh, na Indonésia, teve na camisola da selecção portuguesa de futebol um agasalho e um passaporte para um mundo de promessas. A mais importante já foi cumprida: a Federação Portuguesa de Futebol enviou ao sobrevivente um cheque de 40 mil euros para a construção de uma casa para a família.

Sensibilizado pela história do pequeno indonésio vestido com as cores de Portugal, o presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), Gilberto Madaíl, correu a anunciar a intenção de ajudar a família de Martunis, assim que as primeiras imagens do resgate da criança foram conhecidas.

Em cima da mesa foi posta a hipótese da compra de um terreno na Indonésia para a construção de uma casa. De acordo com o porta-voz da FPF, Filipe Felix, "os 40 mil euros foram depositados numa conta aberta para esse efeito, a 18 de Agosto". Neste momento, "a casa já está a ser construída com um anexo para fazer uma loja para o pai do Martunis".

Do convite para vir a Portugal assistir a um jogo entre a selecção nacional e a Eslováquia nasceu uma amizade traduzida pelo médico do rapaz, Taharuddin, que acompanhou pai e filho na aventura a Ocidente como intérprete. Hoje, é ele quem, via e-mail, dá conta das novidades da vida do rapaz aos responsáveis da FPF que o receberam em Lisboa em Junho. Segundo as últimas missivas, "o Martunis está óptimo". Algo "perseguido" por jornalistas nas semanas posteriores à viagem, tem hoje prometidos dois livros sobre a sua história de sobrevivência. "O entertainer mais popular da Indonésia prometeu-lhe ainda um contrato de televisão e vai pagar-lhe os estudos nos próximos três anos em Jacarta", conta o médico.

A fúria do tsunami de 26 de Dezembro aparece na memória de Martunis como "um grande barulho", segundo Taharuddin. O rapaz, fã confesso da selecção nacional e do internacional português Rui Costa, "estava a jogar à bola com amigos quando o maremoto começou". Vestia o equipamento desportivo de que mais gosta, comprado na feira de Banda Aceh a bom preço.

No momento em que a terra foi invadida pelo mar, Martunis tentou entrar para uma carrinha e fugir. Mas a viatura, em que os seus pais e irmãs tentavam escapar à onda gigante, foi arrastada pela força das águas e o rapaz ficou à deriva. "Só se lembra de acordar na praia rodeado de destroços." Depois, sobreviveu. Alimentando-se (mal) do que o mar lhe trazia, protegendo-se do frio com a camisola da selecção portuguesa de futebol.

Foi encontrado por uma equipa da televisão inglesa SkyNews que preparava uma reportagem sobre o impacto da tragédia na vida dos pescadores da região. E foi levado para a sede da organização Save the Children. "Tinha picadas de mosquitos e estava muito magro", contou um dos jornalistas. Depois de lhe darem água e comida, os voluntários levaram-no para um hospital, onde foi observado.

Apesar do cansaço e da fraqueza, estava saudável, disseram os médicos. Capaz de suportar a emoção de um reencontro, até. No hospital, um sobrevivente reconheceu Martunis. Pouco tempo depois, o rapaz tinha o pai e a avó a seu lado. A onda gigante levou-lhe a mãe e as irmãs. Martunis ficou. A dor passou e não passou.

É o rapazinho de sete anos que sobreviveu 21 dias entre os destroços deixados em Banda Aceh pela onda gigante de 26 de Dezembro de 2004. Perdeu a mãe e as irmãs no tsunami. Reencontrou o pai e a avó no hospital, depois de um resgate filmado pela SkyNews. Em grande plano ficou a camisola da selecção portuguesa de futebol, que lhe valeu a concretização de um sonho a ocidente.

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