Abandonados pelo governo tâmiles só pensam nos vivos

Hindus, muçulmanos e budistas não comunicavam. Agora salvam vidas juntos

Em Ampara, demora-se duas horas e meia para fazer os cerca de trinta quilómetros que distam entre o que restou de cada um dos vários aglomerados de vilas e aldeias. Nos locais onde há semana e meia viviam centenas de milhares de pessoas em dezenas de vilas e aldeias, hoje não existe nada mais do que despojos de vida.


Quilómetros e quilómetros de cenários desoladores, com aldeias e aldeias completamente dizimadas pela fúria do mar. No Sul, ainda sobraram algumas casas junto à costa. Aqui, rigorosamente nada ficou de pé. Hoje só se vêem esqueletos de casas e ruas cheias de entulho. Não há vivalma, apenas cães e vacas esqueléticos a deambular por um cenário desolador procurando comida onde outrora eram cozinhas, quartos de dormir, salas, casas de banho, quintais.


O bater das chuvas ecoa por entre as árvores, num assobio aflitivo que, de cima para baixo, invade aldeias inteiras totalmente arrasadas.


Ao contrário do Sul, de maioria cingalesa, aqui não há equipas de remoção de destroços e os voluntários das ONG tâmiles preocupam-se em cuidar dos vivos. Em muitas destas vilas e aldeias ainda se sente o cheiro a cadáver putrificado. Se nas povoações junto ao mar o cenário é desolador pela destruição e perturbador pelo silêncio e cheiro a morte, na direcção de terra o cenário é aflitivo.


À medida que se avança em direcção ao interior, os sentidos deixam de se impressionar pela morte e afligem-se com os vivos.


Abandonados pelo Governo central, centenas de milhares de tâmiles vivem neste momento como sempre viveram. A depender de si próprios e das suas organizações de assistência, sendo que muitas delas, como a Tamil Rehabilitation Organization (TRO), embora não o admitam por receio que Colombo imponha ainda mais restrições ao seu trabalho no terreno, utilizam a logística montada pela bem organizada guerrilha tâmil.


No entanto, apesar do visível distanciamento de Colombo em relação àqueles que queria que se considerassem cidadãos do Sri Lanka e aceitassem viver sob sua administração, no terreno, e perante o desespero e caos deixado pela passagem do mar, as diferentes comunidades auxiliam-se mutuamente e não olham a credos ou etnias quando a questão é distribuir pão que impeça mortes.


Se antes praticamente não comunicavam, agora, hindus, muçulmanos e budistas, explica ao DN, S. K. Canthan, da TRO, «vivem em comunidade».


Mas só agora, sublinha Kanthan, depois de «termos chorado a olhar uns para os outros, depois de termos enterrado os nossos todos nos mesmos buracos. E depois de termos empilhado e queimado com o mesmo petróleo os corpos daqueles que não conseguimos identificar».


As conversas, aqui, fazem-se ou em espaços onde parece ter havido bombardeamentos maciços, tal é a destruição deixada pelo mar, ou em campos de refugiados onde o choro é constante e o cheiro repugnante.


Komari, diz-nos Kanthan, era uma vila cristã. Em tons de azul, explica-nos, pois hoje era impossível perceber esse pormenor.


Viviam ali 1500 famílias. Houve 300 mortos. Identificados, 150.


Desaparecidos, ainda não foi possível perceber. As lágrimas sentem-se mesmo sem chorar. No chão, um relógio de parede branco. Os ponteiros pararam às 8.25. A vida também. O cheiro a morte, esse é resistente.


Na costa leste do Sri Lanka, o mar arrasou tudo. As ondas, como na Tailândia e na Índia, também foram três. Mas tiveram tempo de cá chegar a trezentos quilómetros por hora e em toda a sua força, pois não houve obstáculos na travessia do Índico. Mediam dez metros cada uma. E destruíram tudo. O mar passou por aqui e carregou no botão de rebobinar. E só parou quando viu que a paisagem voltou ao tempo anterior à instalação do homem. Mas esqueceu-se de levar os despojos. Que não nos deixam esquecer...

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