"Não saber como as coisas são é um luxo do passado"

Professor de Geofísisca doutorado em Ciências da Terra pela Universidade da Califórnia, John Orcutt é hoje director de investigação da Scripps Institution of Oceanography e presidente da American Geophisical Union. Especialista em áreas ligadas às estruturas das bacias oceânicas, está a desenvolver um projecto de observatório global do oceano, que envolve todo o mundo e vai muito além da sismologia. Depois da tragédia do Índico, foi convidado pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente para apresentar um relatório sobre os aspectos técnicos da instalação de um alerta de tsunamis no Índico. O sismólogo está hoje em Lisboa, para falar sobre o seu projecto de observatório global, num encontro na Fundação Luso-Americana para o Desenvovlimento.

Qual a importância de ter uma rede de observação sismológica nos oceanos, como a que existe no Pacífico?
A questão tem estado no centro das atenções devido à tragédia do índico, no ano passado, que mostrou a todos o que o mar pode fazer à humanidade, de tempos a tempos. Acho que hoje todos concordam que a observação do oceano é crucial em termos sociais.

Em que deve consistir esse sistema?
Se pensarmos em tsunamis, em particular, são precisos sismógrafos, medidores de pressão no fundo do mar, por exemplo. O problema é que é difícil manter um sistema destes no mar, porque os governos não estão muito entusiasmados com a ideia de investir durante um século para algo que acontece uma vez em cem anos. Daí que estas observações no oceano devam abranger outras disciplinas, das alterações climáticas à biologia. Tudo.

É esse o objectivo do seu projecto para um sistema global de observações...
Sim. O sistema de alertas de tsunami que os EUA estão a propor para aumentar o número de estações no mar e no Atlântico serve para mitigar os efeitos nos EUA. É o que o congresso está a fazer. Mas isso não serve de nada às pessoas no Índico. O projecto que estou a preparar desde 1988, e que será financiado no ano que vem, visa criar um sistema de medições globais no oceano, chamado Ocean Observatory Initiatives. É financiado pela National Science Foundation: 268 milhões de dólares durante um período de seis anos. Será um sistema global, no Índico, no Pacífico, no Atlântico, cuja ideia é medir vários tipos de dados científicos, não só tsunamis.

E será só financiado pelos EUA? Mas vai beneficiar outros países...
Claro, a ciência é global. Mas espero que outros países se juntem a nós, como já fez o Canadá. Esperamos ter a ajuda da Comissão Europeia, embora ela tenha tendência de trabalhar muito perto da Europa: essas contribuições serão importantes, mas isso deixa grande parte do planeta por analisar...

Quais os custos, a longo prazo?
Esperamos construir 25 estações nos diversos oceanos. O custo é elevado. Não só pelos furos que é preciso fazer no fundo oceânico, mas sobretudo pela manutenção. E essa poderá custar meio milhão de dólares por ano, por cada estação. Mas é um investimento necessário. O mundo é hoje muito afectado pelo Homem. Não saber como as coisas funcionam é um luxo do passado...

Como convencer os governos?
Agora, por causa da destruiçao associada ao tsunami no Índico, toda a gente está a pressionar para se fazer alguma coisa. Isso não será verdade daqui a três anos. As pessoas terão perdido o interesse pela questão. Por isso é importante pensar numa função mais abrangente para estas medições no oceano. Há picos de interesses nestas coisas. Entre eles, o interesse do governo declina. Por isso, com vários tipos de medições, haverá mais eventos naturais a chamar a atenção.

O risco de tsunamis no Atlântico é real?
Sem dúvida. É inevitável. Vai acontecer, só não sabemos quando. Não queremos ser alarmistas, mas as forças geológicas que levaram ao de 1755 continuam activas. E a devastação hoje será muito maior, porque o número de pessoas a viver perto da costa é cem vezes superior ao de 1755. E se já antes afectou Portugal daquela maneira...

E esse perigo justifica a instalação de um sistema de alerta no Atlântico?
Sim, desde que sirva vários propósitos e temas que podemos conhecer com a observação do oceano.

Como as alterações climáticas?
Sim. As alterações climáticas ocorrem lentamente, ao longo de décadas, mas o seu impacto pode ser tão grande como o de um tsunami, em termos de pessoas ou economia... Podemos medir a temperatura, o fluxo de calor que vem da atmosfera para o oceano e do oceano para a atmosfera... Por exemplo, há ciclos no Atlântico que impõem variações extremas no clima. Por exemplo: as alterações climáticas serão fruto dos gases de efeito de estufa ou de fenómenos naturais?

Pensa que serão fruto da natureza?
Pode ser. Não acho de modo algum que esse seja o único motivo para estas alterações climáticas, mas podem ser uma parte da explicação. Claro que haverá muitos políticos a desejar que elas sejam fruto de um fenómeno natural, mas é óbvio que, quando introduzimos tantos gases de efeito de estufa na atmosfera, continuamente, isso tem que ter um impacto no clima. É física.

Um alerta de tsunamis no Índico teria evitado a tragédia?
Sim. A maior parte do Índico, excepto Samatra, teve muito tempo para ser avisado. Uma hora antes do tsunami ter chegado à costa do Sri Lanka, avisámos a nossa estação de lá que havia um sismo naquela zona. Mandámos os dados para o centro de alertas de tsunami do Pacífico, em Honolulu, e para o US Geological Survey, no Colorado. Eles notificaram o departamento de Estado, que tentou avisar vários países do Índico, mas simplesmente não havia sistema civil lá para lidar com a informação. Foi um problema sócio-político. Uma terrível tragédia. Milhares de pessoas morreram porque nada havia a fazer. O mesmo ocorreria no Atlântico.

Foi encarregue pela ONU de avaliar os aspectos técnicos de uma rede de alerta no Índico. A que conclusões chegou?
Estamos agora a rever as recomendações. Uma delas é criar um sistema internacional de alerta de tsunamis, com os governos a cooperar na educação das pessoas. Outra é melhorar a qualidade da telemetria dos dados já recolhidos na zona do Índico. É também preciso aumentar o número de estações na região, em terra e no mar, e tornar os dados disponíveis em tempo real para outras pessoas, no mundo. Há estações na Indonésia, nas Seychelles ou em Madagáscar, que não têm quaisquer comunicações. Basicamente gravam os registos em disco e o operador envia os dados numa transferência posterior, mas se tivermos um sistema de satélites melhor poderíamos operar em todo o lado. Como é difícil para cada país ter todos os meios científicos necessários a uma análise moderna, em tempo real, recomendamos o recurso a um programa internacional, o GRID, que inclui a Europa. A ideia é reunir os dados nesse GRID, para tornar a informação continuamente disponível para emitir os avisos. O impacto seria espectacular...

Falou na educação. Como pode ajudar?
É essencial ensinar as pessoas do que é um tsunami e de como se associa a um sismo. Nos EUA, aprendemos isso desde pequenos. Em muitos pontos do globo isso não acontece. A educação salvará sempre mais vidas do que a tecnologia alguma vez conseguirá.

 

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