O milionário alérgico ao Tratado de Lisboa

Após anunciar o fim da carreira política ao falhar a eleição como eurodeputado, o fundador do Libertas decidiu voltar para liderar a campanha contra o Tratado de Lisboa. Este vai a votos, pela segunda vez, na Irlanda, no dia 2 de Outubro.

Declan Ganley é um homem de mil negócios que sabe aproveitar as oportunidades, um milionário que trabalhou na compra de alumínios em países do antigo espaço soviético e, agora, tem uma empresa de venda de sistemas de telecomunicações com os americanos. Milionário, dono de uma mansão em Galway, de um Rolls-Royce e um helicóptero, este britânico de origens irlandesas quer acabar de vez com o Tratado de Lisboa.

Após a rejeição do documento no primeiro referendo irlandês, em 2008, chegou a ser acusado de tentar favorecer interesses americanos e enfraquecer a União Europeia. Encorajado pelo resultado, anunciou, em Março deste ano, que era candidato às eleições europeias de Junho. O Libertas, o movimento que criara para fazer campanha contra o novo tratado europeu, anunciou depois que era o primeiro partido verdadeiramente pan-europeu ao apresentar candidatos em todos os países da UE.

A ideia parece não ter seduzido, no entanto, os eleitores, uma vez que apenas um político francês, Philippe de Villiers, foi eleito eurodeputado pelo Libertas. Nem mesmo o próprio Declan Ganley, de 41 anos, conseguiu ser eleito pela circunscrição de Dublim Noroeste. A derrota, essa, não a aceitou facilmente e pediu uma recontagem dos votos naquele círculo eleitoral. O resultado foi uma humilhação a dobrar ao verificar que a segunda contagem ainda lhe deu menos votos. Furioso, lá admitiu a derrota, ao mesmo tempo que anunciava a sua retirada da vida política. Mas quando muitos pensavam que a aventura já tinha terminado, eis o regresso, anunciado este mês, do misterioso senhor anti-Lisboa.

O rapaz londrino que começou por servir chá numa companhia de seguros, justificou a sua entrada tardia na campanha para o segundo referendo irlandês, a 2 de Outubro, com aquilo que diz serem as provocações do campo favorável ao tratado, ou seja, o Governo chefiado por Brian Cowen, os principais partidos da oposição, Fine Gael e Labour, mais os empresários. Ganley referiu ainda que as garantias obtidas pelo primeiro-ministro irlandês, em Bruxelas, entre um referendo e outro, não são relevantes e insistiu que este tratado não devia entrar em vigor. A seguir ao primeiro "não", os irlandeses conseguiram da UE um compromisso que lhes permite manter o seu comissário europeu, manter a neutralidade em assuntos de defesa e fixar os seus próprios impostos.

Natural de Londres, a capital britânica, Ganley é o filho mais velho de dois imigrantes irlandeses. A família voltou à terra natal, em Glenamaddy, Galway, quando ele tinha 13 anos (é nesse condado que vive ainda hoje, com a mulher de origem americana, Delia, mais os seus quatro filhos). A integração na tradição irlandesa não foi fácil para um rapaz com sotaque britânico. Adolescente, gostava de pescar, de andar nos pântanos, de apanhar trufas para depois as vender. Além disso, também demonstrava grande interesse pela bolsa e, aos 14 anos, já comprava acções.

A sua vida como homem de negócios começou quando se mudou para a Europa de Leste, tendo começado a comercializar metal russo para Roterdão, na Holanda, a partir da Letónia. Em 1992, foi nomeado conselheiro económico do novo Governo letão e, cinco anos depois, montou aí um negócio ligado à área da florestação, o qual vendeu, por quantia desconhecida. A seguir fundou uma empresa de telecomunicações europeia, a Broadnet, que vendeu por 50 milhões de euros e, depois, uma empresa de ligações por cabo búlgara que lhe rendeu uma quantia de 18 milhões. Quando conseguiu este pé de meia, Ganley, um católico fervoroso, voltou de cabeça erguida a Galway.

No rescaldo dos atentados terroristas do 11 de Setembro de 2001, nos EUA, Ganley criou uma empresa de fornece serviços de telecomunicações em situações de emergência, a Rivada Networks, que tem como clientes os militares americanos, a polícia, os serviços de socorro. Foi isso que levou o eurodeputado Jim Higgings, do Fine Gael, a acusá-lo de marioneta do Exército dos EUA. Isto porque o homem que um dia apoiou o tratado de Nice decidiu, subitamente, fazer da Irlanda o seu campo de batalha contra o processo de integração na União Europeia.

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