Artífice do tratado com nome de Lisboa

O diplomata português que conduziu as negociações do tratado da UE, quando era secretário de Estado dos Assuntos Europeus, é amante da música clássica, mas detesta ouvir as composições em MP3.

Irmão do romancista a que só falta o Prémio Nobel e do neurocirurgião que já ganhou o Prémio Pessoa, o diplomata Manuel Lobo Antunes desempenhou um papel fundamental nas negociações do Tratado de Lisboa, o texto substituto da Constituição Europeia e que, após o segundo referendo irlandês e a assinatura dos políticos polacos, está agora dependente apenas da vontade do presidente checo.

O embaixador que actualmente chefia a representação de Portugal junto da União Europeia (Reper) nasceu em Lisboa, a 27 de Junho de 1958, e recorda que, apesar do pai transmitir aos filhos "a austeridade, a simplicidade e a frugalidade quase como um pressuposto ético", terá beneficiado de mais mimos que os cinco irmãos mais velhos.

Acompanhando os irmãos ou com o seu grupo de amigos, frequentaria os círculos onde se apreciava o que era mais moderno ou importante no mundo cultural, das artes plásticas à poesia, do novo cinema exibido no Quarteto às sessões mais clássicas da Cinemateca. E tornou-se um amante de música erudita, desde Bach a Shostakovich, sendo sempre fiel aos discos ("detesto MP3"), ao ponto de saber em que cidade comprou cada um dos CDs da colecção.

Licenciado em Direito pela Universidade Católica de Lisboa, em 1982, e com pós-graduação em Estudos Europeus, entrou na carreira diplomática no ano seguinte. Depois, foi consultor da Casa Civil do Presidente Ramalho Eanes, que o agraciou com a Ordem do Infante D. Henrique - e Mário Soares, mais tarde, atribui-lhe também a Ordem do Mérito.

Nessa altura, ao preparar a visita presidencial de Ramalho Eanes à China, em 1985, ficou instalado num hotel que nunca esqueceria: o White Swain, em Cantão, que era "luxuoso e imponente", simbolizando a mudança que se estava, então, a operar num país comunista que abraçava a economia de mercado. E, para um coleccionador de frascos de casas de banho de hotel, o outro que logo lhe salta à memória é o Kempinski, em Istambul, "com uma fantástica vista sobre o Bósforo".

Colocado na embaixada de Haia em 1988 e na de Harare em 1994, passou a ser director dos Serviços da África Subsariana em 1996. Assessor diplomático do primeiro-ministro António Guterres, foi subdirector-geral dos Assuntos Europeus e, no ano seguinte (já no governo de Durão Barroso), representante adjunto de Portugal (o outro era Ernâni Lopes) na Convenção sobre o Futuro da Europa.

Director-geral dos Assuntos Comunitários, com a chegada de José Sócrates ao poder entrou no Governo. Primeiro, como secretário de Estado da Defesa Nacional e dos Assuntos do Mar; depois, quando Luís Amado trocou a pasta da Defesa pela dos Negócios Estrangeiros, como secretário de Estado Adjunto e dos Assuntos Europeus. E seria nesta qualidade que iria contribuir para a História. A 23 de Junho de 2007, a presidência portuguesa da UE apresentou, em Bruxelas, o projecto de Tratado Reformador que visava substituir o projecto de Constituição europeia.

Depois, este pai de cinco filhos (com idades compreendidas entre os quatro e os 24 anos) e confesso "viciado na blogosfera", pediu para sair do executivo de Sócrates, optando antes pela carreira diplomática e passando a chefiar a Reper. Em Bruxelas, onde desempenha, desde 3 de Novembro, um dos cargos mais importantes da diplomacia portuguesa, quando tem tempo para ler por puro prazer, em vez de escolher um dos livros que o irmão lhe oferece sempre com dedicatória, escolhe títulos enaltecidos pela crítica. Neste momento lê uma obra sobre os Balcãs, de um autor inglês, que lhe foi oferecida pelo embaixador José Cutileiro .

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