Referendo põe à prova governo irlandês

O primeiro-ministro Brian Cowen joga a sua sobrevivência política na consulta popular de hoje. Sondagens apostam numa vitória do 'sim', mas todos falam do assunto com cautela. A União Europeia está com um olho na Irlanda e outro na República Checa

Os irlandeses vão hoje repetir o referendo ao Tratado de Lisboa, que rejeitaram no ano passado. O resultado da votação é importante para que o tratado entre em vigor na UE e os 27 países que a compõem tenham um papel mais importante a nível mundial e evitem uma nova paralisia política e institucional. Mas é ainda mais crucial para o primeiro-ministro irlandês, Brian Cowen, cujo Governo tem neste referendo o primeiro de três grandes testes aos seus esforços para fazer face à crise financeira que deixou o país de joelhos.

"Acho que, desta vez, as pessoas sabem que o que está em causa é o Tratado de Lisboa e o papel que ele desempenha", disse ontem, em Dublim, o secretário de Estado dos Assuntos Europeus, Dick Roche, numa conferência de imprensa com jornalistas de media estrangeiros, entre os quais o DN. Roche, que já manifestou indirectamente interesse em ser o próximo representante irlandês na Comissão Europeia, recusou, assim, admitir que o Governo, o mais impopular da história do país, possa ser castigado no referendo. O governante não quis também especular sobre a ligação entre o medo da crise financeira e a tendência para uma vitória do "sim", expressa nas últimas sondagens. Apenas garantiu que "o que a crise veio mostrar às pessoas foi a importância de estar na UE. Nos últimos 12 meses, o Banco Central Europeu tem apoiado muito o país".

Efectivamente, a Irlanda que vota hoje não é a mesma que votou em 2008. O Tigre Celta, como foi apelidado o país devido ao vigoroso crescimento que registou outrora, é hoje um gatinho manso que mia baixinho. A taxa de desemprego duplicou e é de quase 13%, o país endivida-se a um ritmo de 400 milhões de euros por semana, o preço das casas caiu em 50% e os bancos ficaram com milhões empatados em hipotecas que os consumidores deixaram de poder pagar. Há 70 mil casas por vender num país com quatro milhões de habitantes, três milhões dos quais são eleitores que podem hoje ir às urnas. Para fazer frente ao problema, o Governo de Cowen tenciona criar a Agência Nacional para a Gestão de Activos, NAMA, que vai comprar aos bancos, com dinheiro dos contribuintes, 90 mil milhões de euros de boas e más hipotecas de casas a preço de desconto. E depois vai libertar os activos de novo no mercado. E é aqui que reside o segundo grande teste ao Governo.

Se uma eventual vitória do "não" no referendo de hoje não dita, só por si, a queda do Executivo, o mesmo não pode dizer-se da controvérsia que existe no interior da coligação governamental, formada pelo Fianna Fáil, partido de Cowen, e pelos Verdes. Estes vão votar a NAMA, em congresso, no dia 10. E se não houver uma maioria de dois terços a favor da medida, Os Verdes podem retirar-se da coligação. O terceiro teste, será a aprovação de um orçamento com medidas de austeridade, em Dezembro. Também aí há risco de colisão com Os Verdes. Mas se o "sim" ganhar, Cowen poderá sair reforçado face aos parceiros de coligação.

Quanto ao resto da UE, tem um olho posto na Irlanda, outro na República Checa. Isto porque alguns senadores checos eurocépticos voltaram a recorrer contra o Tratado de Lisboa para o Tribunal Constitucional e o Presidente do país, Vaclav Klaus, recusa-se a ratificar o documento enquanto não houver uma decisão. Instado a comentar mais este contratempo, Roche disse que não faz declarações sobre outros Estados membros, mas lembrou que as duas câmaras do Parlamento checo já ratificaram Lisboa. O governante defendeu apenas a importância da aprovação do tratado no seu país: "A Irlanda não pode ficar na estação quando o comboio europeu partir."

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