Os eurocépticos que vieram do Leste

Klaus e Kaczysnki são duas pedras no sapato de Nicolas Sarkozy.

Quanto todos apelaram à continuação do processo de ratificação do Tratado de Lisboa, a seguir ao referendo irlandês, de 12 de Junho, Vaclav Klaus destoou e declarou o texto morto e pronto a ser abandonado. E quando todos pensavam que o chefe do Estado checo era o único obstáculo, eis que surge o seu homólogo polaco, Lech Kaczynski, a dizer que não pretende assinar o acto de ratificação do tratado sem os irlandeses.


Fê-lo no início da presidência francesa da UE. Nicolas Sarkozy deslocou-se imediatamente à Polónia para arrancar de Kaczynski a garantia de que o seu país não quer ser um obstáculo ao processo europeu. "Este tratado não existe sem a Irlanda. Mas a Polónia não pretende ser um obstáculo", assegurou Kaczynski na quinta-feira, logo após ser recebido no palácio presidencial checo, onde Klaus recupera de uma cirurgia à anca.


"Eu considero que o Tratado de Lisboa é mau para toda a Europa. É inútil estarmos a falar do assunto sem uma mudança na Irlanda", afirmou, por seu lado, o líder checo, citado pelas agências. Estes dois eurocépticos, vindos de Leste, são uma pedra no sapato de Sarkozy.


Klaus, de 67 anos, é o segundo Presidente da República Checa e foi primeiro-ministro durante o tempo em que a chefia do Estado estava entregue a Vaclav Havel. Economista de formação, casado, pai de dois filhos e avô de cinco netos, é um famoso eurocéptico. É contra o euro. Nega que o aquecimento global tenha causa humana. Favorece o nuclear. Critica, entre outras coisas, a criação do serviço diplomático europeu.


Ironicamente o seu país assume, em 2009, logo a seguir à França, a presidência da UE. Os poderes de que dispõe não lhe permitem travar a ratificação do tratado caso o Tribunal Constitucional valide a aprovação no Parlamento até ao final do ano. O partido de Klaus, o Partido Cívico Democrático, é maioritário no Parlamento, mas ele e o líder da formação, o primeiro-ministro Miro Topolonek, não têm a melhor das relações.


Já Kaczynski, cujo irmão gémeo, Jaroslaw, foi primeiro-ministro, tem poderes consideráveis enquanto chefe do Estado sobre a ratificação dos tratados europeus. O Parlamento polaco já aprovou o Tratado de Lisboa , em Abril, mas o Presidente recusa-se a ratificá-lo enquanto os irlandeses também não o fizerem.
Membro do partido conservador Lei e Justiça, de 59 anos, Kaczynski é formado em Direito e Gestão. Fiel católico, casado, com uma filha, alérgico a ex-colaboradores comunistas, tentou convencer os polacos de que o tratado iria legalizar e liberalizar a homossexualidade. Actor na infância, Kaczynski viu a sua oposição ao texto ser entendida como encenação, como uma manobra de política interna numa altura em que o seu partido está a perder popularidade.

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