Irlandeses põem busca de empregos à frente do referendo

Fila gigantesca de desempregados à porta do hotel Academy Plaza para conseguir uma das  vagas que a Marks & Spencer vai abrir para o Natal contrastava ontem com a fraca afluência às assembleias de voto

Sarah McCarulcce e Amy Rodgers foram das primeiras a chegar à fila às sete da manhã. Não para votar no segundo referendo ao tratado de Lisboa, mas para tentar ficar com uma das vagas de emprego temporário que a Marks & Spencer oferece para este período até ao Natal. Ontem era o último dia de recrutamento no hotel Academy Plaza, próximo da O'Connell Street, umas das principais ruas de Dublim. Durante dois dias, centenas de pessoas vindas de toda a Irlanda, país que tem uma taxa de desemprego de quase 13%, vieram tentar a sorte para uma das 588 vagas que a empresa abriu para as suas 20 lojas. Entre os candidatos havia de tudo um pouco, desde arquitectos e psicólogos, a floristas e cabeleireiras que ficaram sem trabalho por causa da crise.

"Vou votar no referendo quando voltar a casa, mas primeiro vou ver se consigo arranjar aqui um emprego", declarou Sarah, que vive a 35 km da capital. Não está certa de que o Tratado de Lisboa crie empregos, como disse a campanha do 'sim', liderada pelo Governo e pelos principais partidos da oposição, mas vota a favor por considerar que a Irlanda precisa muito da UE. "Se deixarmos o 'não' ganhar, como em 2008, seremos um país europeu de segunda linha", diz a ex-florista, de 49 anos e com dois filhos adolescentes a estudar.

Amy, de 24 anos, ex-cabeleireira, garantiu que também iria votar no referendo, mas no 'não'. "A minha mãe disse-me para votar contra o tratado por achar que a independência do país está em causa e que a campanha do 'sim' tem por base o factor medo", explicou. Na véspera já ali tinha estado naquela fila durante cinco horas. "O staff da Marks & Spencer até nos deu garrafas de água. Mas como ao fim da tarde deixaram de entrevistar pessoas, recolheram os nomes das duas centenas que restavam na fila e disseram-lhes para regressarem novamente hoje [ontem]." A meio da manhã uma senhora veio avisar que para o último dia só restavam 180 vagas e que os que tinham ficado inscritos na véspera teriam prioridade nas entrevistas.

Amy respirou de alívio. Sarah ficou apreensiva, pois ao contrário da parceira de fila não estivera ali na véspera e não tinha o seu nome na lista. Mas nem uma nem outra arredaram pé. "Nunca sabemos o que pode acontecer, pode ser que os inscritos não apareçam todos", afirmou Sarah, sob o olhar concordante de um rapaz de sardas.

Na assembleia de voto mais próxima daquele hotel, na Malborough Street, o cenário da longa fila contrastava com o da quase total ausência de eleitores. Até os jornalistas estrangeiros eram em maior número. Isto explica-se pelo facto de ser um dia de semana de trabalho normal. "As pessoas votam sobretudo depois das 17.00, quando saem dos empregos", esclareceu um polícia.

Os números do referendo só serão conhecidos hoje. E apesar de as sondagens terem apontado para uma vitória do 'sim', ninguém descarta que, no final do dia, o resultado mostre um eleitorado tão dividido como ontem estavam Sarah McCarulcce e Amy Rodgers.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG