Girafas e corações cor-de-rosa na campanha do 'não' a Lisboa

Falar de aborto, eutanásia ou redução de salários é uma das tácticas  na campanha contra o Tratado de Lisboa, que vai a voto popular na próxima sexta-feira. Cóir é a organização mais activa e agressiva. O Sinn Féin é o único partido com assento parlamentar do lado do 'não'.

Chris Amall repara no panfleto que foi pousado numa janela do General Post Office, histórico edifício dos correios, em Dublim, onde foi lida a declaração de independência pelos insurrectos irlandeses no ano de 1916. O texto é sobre o tratado de Lisboa e explica porque é importante votar contra no referendo de sexta-feira. Um igual está a ser distribuído mais à frente por Richard Binstead, professor de liceu inglês que tirou folgas para vir ajudar a distribuir os panfletos "de todas as organizações que queiram ver o documento chumbado". Agora está ao serviço do Unite, um dos sindicatos anti-Lisboa, mas também já trabalhou para a Cóir, uma das organizações mais activas e agressivas desta campanha.

"Aqui somos contra o aborto pois vivemos num país muito católico. Mesmo assim desta vez vou votar a favor do tratado porque acho que precisamos da UE", afirma ao DN Amall, carteiro sexagenário. A ele, a Cóir, não conseguiu convencer a votar "não".

A organização estivera ali dias antes com girafas e corações cor-de-rosa, a acusar o Governo de Brian Cowen de ter um grande pescoço, ou seja, uma grande lata, para mandar os irlandeses repetir a votação depois de rejeitarem o documento em 2008. E alertando para o facto de a entrada em vigor do tratado poder baixar o salário mínimo. Argumentos válidos, na sua opinião, falsos no entender dos defensores de Lisboa.

"A carta dos Direitos Fundamentais, que passa a ter valor vinculativo, permite que o Tribunal Europeu de Justiça decida se o aborto pode ou não ser feito", explica ao DN Brian Hickey, um dos porta-vozes da Cóir. O ex-estudante de Filosofia na Trinity College, uma das universidades mais antigas da Europa, alerta ainda que, com este tratado aprovado, está aberta a via para importar trabalhadores baratos. "O salário mínimo, de 8,65 euros por hora, poderá baixar para 1,84 euros, a média dos trabalhadores de Leste. E aí os irlandeses têm a opção de trabalharem por esse preço ou ficarem desempregados. Mais uma vez não seria inédito o tribunal decidir que um empregador pode pagar menos do que o salário mínimo do país".

Nem as garantias conseguidas por Cowen em Bruxelas, nas áreas do aborto, da neutralidade militar, da soberania fiscal e da manutenção de um comissário europeu para a Irlanda, parecem ter acalmado o "não".

"O Conselho Europeu disse, ele próprio, que as garantias não eram vinculativas", lembra ao DN o líder do Sinn Féin, considerado como a ala política do IRA, Gerry Adams, após uma conferência de imprensa improvisada à porta do Parlamento. Os republicanos radicais, que formam um só partido na Irlanda e Irlanda do Norte, concentram argumentos no carácter anti-democrático deste segundo referendo. "Quando alguém vota é preciso ter em conta o resultado", diz o histórico líder unionista, referindo-se ao facto de, em 2008, o "não" ter ganho por 53,4%. "Todos os países deviam ter votado", acrescenta Adams, criticando a ratificação parlamentar no resto da União Europeia. A Irlanda é, por imposição da Constituição, o único país obrigado a aprovar tratados europeus por referendo. Até agora, 24 Estados membros já ratificaram o documento, faltando apenas a Irlanda, Polónia e República Checa.

Foi essa ausência de oportunidade para se expressar que levou Binstead, um professor de liceu inglês de 56 anos, a rumar a Dublim. "Já tinha vindo aqui no primeiro referendo. Tony Blair prometeu-nos um e, depois, Gordon Brown disse que já não era preciso fazê-lo porque o tratado de Lisboa era diferente da Constituição Europeia. Não é verdade. É tudo a mesma coisa", garante, devolvendo as críticas aos que o acusam de estar a interferir na política interna irlandesa.

"Eu, pelo menos, vim até aqui às minhas custas. Mas porque é que ninguém fala de José Manuel Durão Barroso, que veio aqui ajudar a campanha do "sim", à custa do dinheiro dos contribuintes europeus?", questiona, referindo-se à visita que o presidente da Comissão Europeia e antigo primeiro-ministro português fez recentemente à zona de Limerick.

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