A circunscrição irlandesa que vota sempre a favor

Neste subúrbio de Dublim, associado ao mar e cenário inicial do 'Ulisses' de James Joyce, a opção mais liberal ganhou sempre em todos os referendos. Em 2008, registou a mais alta taxa de respostas 'sim' ao Tratado de Lisboa. Amanhã espera repetir a proeza

Ao longo da linha de comboio os cartazes a favor e contra o Tratado de Lisboa rivalizam de um e de outro lado das estações. Mas ao chegar a Dún Laoghaire, a uma dúzia de quilómetros de Dublim, é o 'sim' que domina. Não nos cartazes, mas nos votos. Esta foi a circunscrição com maior número de votos favoráveis no primeiro referendo ao tratado, 63,46%, sendo de esperar que volte a repetir a proeza na consulta popular de amanhã.

"O eleitorado aqui sempre votou de forma muito liberal e é preciso ver que os que defendem o 'não', neste referendo, não vêm dessa tradição. São pessoas mais conservadoras, católicos, socialistas e republicanos radicais", explica, ao DN, o presidente da Associação da Comunidade de Dún Laoghaire, Michael Merrigan, enquanto pede um café no centenário irish pub Dunphy's.

Stephen Fitzpatrick, conselheiro nesta circunscrição, concorda. "Dún Laoghaire, circunscrição mais multiétnica do que qualquer outra existente na Irlanda, foi a que teve o voto mais liberal em vários referendos, no do divórcio, no do aborto, nos tratados europeus, todos obtiveram o maior número de votos favoráveis", afirma ao DN o político do Labour (Partido Trabalhista), actualmente na oposição em Dublim.

"Esta é uma sociedade de classe média, com educação elevada, bem informada. Aqui ninguém espera que lhe digam o que fazer, que lhe venham falar de soberania, de militarismo", diz, por seu lado, Kathleen Larkin, técnica de rádio reformada da RTE, referindo-se a alguns dos argumentos usados pela campanha do "não".

"Eu nunca me sentei a ler o Tratado de Lisboa, tenho coisas mais interessantes para fazer na vida, mas sei que sempre foi bom para a Irlanda estar na União Europeia e, por isso, voto a favor", garante esta irlandesa recém-regressada de umas férias passadas em Lisboa, sentada à mesa de um dos irish pubs que estão virados para o porto de Dún Laoghaire.

Associada ao mar, cenário inicial de Ulisses, a mais famosa obra de James Joyce, esta circunscrição suburbana, com 24 mil habitantes, é a principal porta de saída para a Grã-Bretanha.

É também aqui, na zona de Killiney, que muitas celebridades têm as suas casas de férias. Bono, o vocalista dos U2, é um dos casos mais famosos. A pesca já não está, porém, entre as suas principais actividades profissionais, confirma ao DN Corman Devlin, conselheiro pelo Fianna Fáil, o partido que há 12 anos está no poder na Irlanda. Entrou em declínio, tal como a popularidade do actual Governo.

O descontentamento que existe em relação ao Executivo liderado por Brian Cowen, devido à gestão da crise financeira e económica, pode ainda baralhar o resul- tado do referendo de amanhã.

"Aqui, em Dún Laoghaire, ganha o 'sim', mas se, a nível nacional ganhar o 'não', isso não terá que ver com o tratado, mas sim com um castigo que as pessoas querem dar a este Governo. Eu, apesar de não concordar que se misturem as coisas, compreenderei", refere Kathleen.

E se, desta vez, o "sim" ganhar a nível nacional e, depois, o Presidente da República Checa, Vaclav Klaus, não ratificar o tratado, impedindo-o de entrar em vigor, até que ponto ficarão frustrados os habitantes de Dún Laoghaire, em particular, e da Irlanda, em geral?

"Se ele quiser fazer isso, que faça. Pelo menos é ele que fica na boca do lobo, não nós", conclui, com certo alívio.

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