Ihab Fathi: o herói da Praça da Libertação

Militar diz ter-se juntado às manifestações contra o regime de Mubarak "por amor ao país" e nega ter sido expulso do exército.

Ihab Fathi pode até ser um visionário, mas para já a sua intempestiva posição política só lhe deverá trazer sarilhos. Capitão do exército egípcio, Fathi cansou-se de ser neutral e saltou para o meio de uma manifestação anti-Mubarak este fim-de-semana. Foi idolatrado e levado em braços em voltas sucessivas ao redor da Praça da Libertação. O pior foi o dia seguinte. A foto de Ihab Fathi foi publicada a toda a largura da primeira página no diário El Misri El Youm e, a partir de então, tudo mudou.

"Decidi participar na manifestação por amor ao meu país", disse o capitão, numa pausa de mais um dia de protestos na Baixa do Cairo. Já não vai ao quartel, mas nega ter sido expulso e, desta vez, Fathi esteve mais discreto. Sentado num beiral do jardim da Praça Tahrir, explicou que "o povo egípcio tem de ter uma vida melhor, tem de ter mais expectativas para o futuro".

O militar é lacónico quando define o meio para atingir aquele fim: "Temos de mudar o sistema." A seu lado, Mohamed El Zahaby é mais objectivo. "Mubarak tem de sair. Nós não queremos governos remodelados, queremos que ele saia", defende o engenheiro informático. E acrescenta: "Ele não vai reformular agora o que não foi capaz de mudar durante os 30 anos que já leva de poder."

A ideia é partilhada pela generalidade dos milhares de manifestantes que, em grupos maiores ou menores, se mantêm firmes no protesto, apesar de o Governo egípcio ter antecipado para o início da tarde a hora em que começa o recolher obrigatório em vigor no país. Uma medida inútil, pelo menos até ontem.

A massa diversificada de pessoas, que deixa clara a transversalidade social deste protesto nas ruas do Cairo, não está disposta a ceder, e, até agora, tem contado com a passividade do exército para ignorar as restrições à circulação popular. "Esta gente que está a ver está cá porque acredita na mudança e muitas destas pessoas estão dispostas a morrer aqui", acredita o estudante universitário Ibrahim Siray.

A determinação, contudo, está longe de ser generalizada. O impasse que dura há sete dias está a deixar nervosos todos os que participam numa manifestação tão sui generis, que são os próprios organizadores dos protestos que varrem o lixo da praça central da cidade e oferecem água e tâmaras aos participantes.

A revolta, contudo, é feita de bem mais do que estas cortesias. Os manifestantes querem dar um passo maior hoje mesmo com a realização de uma greve geral e a convocação de um milhão de pessoas para as ruas do Cairo. Se tal se concretizar, os efeitos desta mobilização são ainda mais imprevisíveis. Fora da Praça da Libertação, onde todos os protestos acontecem, o exército continua a ocupar os lugares-chave da capital egípcia.

A imensa avenida que liga o aeroporto internacional do Cairo à Baixa da cidade é uma fortaleza de carros de combate. Em Heliopolis, zona chique da cidade que alberga embaixadas e ministérios, nenhum carro é autorizado a parar ou sequer a abrandar, mas os militares toleram as milícias populares que se organizaram para a protecção do bairro. Mais um sinal da encruzilhada em que se encontra o poderoso exército egípcio, condenado até agora a, por um lado, condescender com os protestos que mantêm o Cairo paralisado, sem comércio ou serviços abertos, e, por outro, a assegurar a protecção da casa da família de Mubarak, uma fortaleza cercada de tanques de guerra, na zona mais exclusiva da cidade.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG