Sócrates exalta Europa da liberdade

Fronteiras caíram numa Europa para os cidadãos.

A neve pintou de branco o cenário da primeira cerimónia do dia. Zittau, chamada zona das três fronteiras entre Alemanha, Polónia e República Checa, foi lugar de exaltação dos valores da liberdade, segurança e paz por parte dos líderes europeus que ali estiveram para assinalar a abertura do espaço Schengen a mais nove países.


José Sócrates, em nome da presidência portuguesa da União Europeia , sublinhou que viver num continente como a Europa significa ter "uma liberdade livre" e agradeceu ao antigo ministro da Administração Interna António Costa por ter sido dele a ideia de criar um sistema informático que permitisse aos novos membros entrar no espaço de livre circulação, sem controlos fronteiriços, até ao final de 2007.


"É com muito orgulho que tenho assistido a este dia, pois, em política, nem sempre temos oportunidade de ver concretizadas as medidas", disse Costa aos jornalistas, sorrindo quando lhe perguntaram se ontem sentiu saudades do cargo de ministro: "Agora exerço outras funções que espero serem tão bem sucedidas como esta."


A chanceler alemã, Angela Merkel, fez o primeiro discurso da manhã para dizer que "esta é uma liberdade de intercâmbio com os outros e, para os mais velhos, é uma alegria ver que os novos conhecem uma realidade europeia que eles não conheceram". A líder dos democratas-cristãos alemães, oriunda da ex-RDA, aludia também aos anos em que a Europa esteve dividida pelo Muro de Berlim.


Memória de um passado com menos de duas décadas que os primeiros--ministros da República Checa e da Polónia, Mirek Topolánek e Donald Tusk, respectivamente, também fizeram questão de referir durante a cerimónia de abertura das fronteiras.


O ex-primeiro-ministro português e presidente da Comissão Europeia , Durão Barroso, preferiu assinalar que a Europa, a que ontem se celebrava, não deve ser vista "como uma construção apenas para os diplomatas mas também para os cidadãos". De resto, a ouvi-lo, e apesar de não perceberem bem o inglês, estavam muitos desses mesmos cidadãos.


"Esta noite [de 20 de Dezembro], às 23.30, mostrei pela última vez o passaporte", conta Mikael Meaubert, um alemão de 42 anos, que do outro lado da rede tenta tirar fotografias à chanceler alemã, empoleirado em cima de um escadote. E especifica: "Fui ali à Polónia, a uma festa, com polacos e checos, para celebrar este acontecimento."


Mas nem tudo são rosas. Muitos temem o aumento da criminalidade, receio partilhado pelos responsáveis da polícia alemã ao Financial Times. "É bom ter fronteiras abertas, mas tenho medo", confessa Magdalena Dzialoszynski, tradutora de 27 anos que, apesar de polaca, vive na localidade alemã de Zittau. Zdenek Grmela, estudante checo de 25 anos, que fala português com sotaque do Brasil, diz, porém, que estes receios são maiores entre os alemães. "Este dia é mais um símbolo, mas passar a fronteira será mais fácil, o turismo vai melhorar".


Falando aos jornalistas, à margem da cerimónia, Sócrates declarou que esse medo é normal e "surgiu também quando se abriram as fronteiras de Portugal e Espanha". No mesmo sentido falou o comissário europeu Franco Frattini. A vigilância não vai afrouxar, garantiu também o vice-coronel da polícia fronteiriça polaca Anslrzej Torbiez, explicando que "as tarefas, à excepção dos controlos de passagem, se mantêm iguais". Tudo isto foi possível, lembrou mais uma vez Sócrates, "graças a um ministro que não se resignou", António Costa, acabando por dizer que "não poderia haver melhor final para a presidência portuguesa da União Europeia do que este".

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